Atualizado em 27 de fev. de 2025, às 21h02

Foi Apenas um Acidente parte de um acontecimento aparentemente trivial que desencadeia uma cadeia de consequências morais e traumáticas. Vahid, um mecânico e ex-prisioneiro político, encontra um homem com uma prótese de perna que o faz acreditar ter reconhecido seu torturador da prisão. Ele sequestra o homem e reúne outras vítimas para confrontar a verdade e decidir o que fazer. O filme acompanha esse dilema, explorando vingança, memória, justiça e incerteza, enquanto a perseguição ao passado se transforma em um julgamento coletivo cheio de dúvidas.
Ficha técnica
Título original: Yek tasadof-e sadeh
Direção e roteiro: Jafar Panahi
Elenco: Vahid Mobasseri, Mariam Afshari, Ebrahim Azizi, Hadis Pakbaten, Majid Panahi, Mohamad Ali Elyasmehr, Delnaz Najafi
Produção: Jafar Panahi, Philippe Martin
Fotografia: Amin Jafari
Montagem: Amir Etminan
País: Irã, França, Luxemburgo
Ano: 2025
Veja o que associadas e associados da Abraccine estão falando sobre o filme.
TEXTOS
O elenco composto por Vadih Mobasseri, Maryam Afshari, Ebrahim Azizi, Hadis Pakbaten, Majid Panahi, é muito bom. Garante a tensão ao longo de toda a narrativa, que passa da tranquilidade à exasperação e revela as mudanças de humor que ocorrem ao longo da história, em que cabem ternura, solidariedade e até doçura num tema tão desafiador.
Antonio Carlos Egypto, Cinema com Recheio
De toda forma, Jafar Panahi cumpre mais um novo capítulo dessa sua missão árdua de persistir como um artista que faz arte da sua própria perseguição.
Arthur Gadelha, O Povo
Como se percebe, Panahi faz um filme mais solto do que de hábito, com grande parte da duração em registro abertamente humorístico. Talvez tenha escolhido esse tratamento para que o longa não se tornasse por demais carregado. Sua história fala sobre um conflito entre “nós” e “eles”, ou seja: como nós podemos agir diante de quem não teve dúvidas na hora de ser cruel e injusto conosco? Pagar na mesma moeda seria uma vingança legítima? Ou apenas algo que nos rebaixaria à desumanidade de quem nos fez mal?
Bruno Ghetti, Revista Cult
Em mais um depoimento contra a autocracia e suas arbitrariedades, Panahi adiciona uma curva, uma camada extra que tira as coisas da linha reta.
Chico Fireman, Filmes do Chico
Além de o enredo prever muita movimentação desse grupo, que começa com Vahid e depois se amplia com o recrutamento dos seus cúmplices, paira uma violência incomum no cinema de Panahi.
Eduardo Kaneco, Leitura Fílmica
Ainda que o sistema deixe marcas profundas, ele responde, com arte, com o cinema e com uma cena final brilhante que também nos lembra por que o fantasma do passado sempre volta quando nos vemos
Fabiana Lima, Peliplat
E assim, no meio de todo essa tensão naturalista, “Foi Apenas um Acidente” insere discursos, argumentos, reflexões em monólogos gritados (quase em tom de catarse), questões e opiniões político-sociais, sobre policiais corruptos e máquinas de cartões de crédito, à espera de justiça “pelas próprias mãos” por “imprudentes vingadores amadores” (Se essa moda pega… “milagre ou vingança?”) em emoções afloradas, cúmplices deboches agressivos, raiva contida por toda uma existência.
Fabricio Duque, Vertentes do Cinema
O riso não vem exatamente da comicidade de cada cena, mas do desconforto que tais situações se apresentam para os personagens. Então vamos do horror da concretização da vingança e das consequências de cada ato não pensado, até o riso nervoso pela destemperança e pela escalada de desespero ininterrupta.
Francisco Carbone, Cenas de Cinema
Em lágrimas, Eghbal argumenta que eles são iguais. Mas não são. E no final essa é a grande questão. Nem todos são iguais. E ser um agente do sistema não pode ser uma desculpa. Nem ter uma família. Mas o ranger da tortura infelizmente ecoa para sempre, e continua voltando. Pode ser real ou pode ser memória.
Isabel Wittmann, Feito por Elas
Embora Foi Apenas um Acidente sempre apresente um aspecto de sátira, chega um ponto em que as coisas param de ficar engraçadas. O fato de que várias pessoas parecerem estar prontas para cometer atos de violência é algo que o filme sublinha até a sua conclusão, que infelizmente não tem tanta força quanto o resto da história que a precedeu.
Ivanildo Pereira, Cine Set
Um simples acidente (Yek tasadef sadeh, 2025), é mais um dos filmes do diretor feito para não ser exibido no Irã. Seu objetivo são as plateias estrangeiras, os grandes festivais. O que é legítimo como escolha, afinal, ter que passar pelo rigoroso e patético sistema de censura do regime não é um bom negócio.
Ivonete Pinto, Cinema Escrito
Essa circunstância acentua a proeza do realizador, que tirou leite de pedra para construir uma parábola enxuta, eletrizante, que não usa as constrições de produção como desculpa para o desleixo ou a falta de ambição estética.
José Geraldo Couto, Blog do IMS
A princípio, tudo parece casual, quase insosso, mas, aos poucos, o espectador é tragado por uma rede de tensões e fraturas, tanto pessoais quanto coletivas.
Letícia Alassë, Cine Pop
Jafar Panahi é muito bem-sucedido ao construir o suspense em Foi Apenas um Acidente, ora dando ao espectador mais informações do que aos personagens, ora nos equiparando em termos de ignorância e surpresa. Ele mantém a expectativa de que algo grave pode acontecer a qualquer instante, por mais banal que pareça a situação em questão. Para isso, um dos instrumentos que Panahi melhor utiliza é a tensão entre campo e extracampo, entre o que está dentro e fora do campo de visão.
Marcelo Müller, Kinorama
Esse é o primeiro filme de Jafar Panahi em que o roteiro de sua autoria fraqueja, mesmo que a direção seja eficaz como sempre. Diante um Estado de exceção a dimensão política precisa ser outra. Se quer atacar, ataque, mas não brinque com o poder autoritário e violento, porque o que virá como resposta será brutal.
Marco Fialho, Cinefialho
Tenso, angustiante e por vezes sufocante, temos aqui uma obra urgente que reflete em suas imagens as condições em que as mesmas foram captadas. Já havia sido assim em seu trabalho anterior, Sem Ursos, mas agora essa urgência é assustadoramente mais intensa culminando em uma sequência final das mais acertadas.
Marden Machado, Cinemarden
O problema é que estas discussões, até pela própria natureza da situação, não demoram a se tornar repetitivas à medida que os personagens tentam se convencer mutuamente acerca do acerto de suas posições particulares, repetindo ad nauseam os mesmos argumentos sem que isto altere a opinião dos companheiros.
Pablo Villaça, Cinema em Cena
O cinema de Panahi nunca precisou de grandes gestos para falar de brutalidade. Foi Apenas um Acidente é, acima de tudo, um filme sobre prisões — não as de concreto, mas as que o tempo e a memória vão erguendo dentro de nós.
Paulo Camargo, A Escotilha
A repetição dá força à moral desses personagens, nunca os iguala àquele que destruiu suas almas e corpos.
Victor Russo, Filmes & Filmes
Ainda que evite, aqui, a metalinguagem que caracteriza a maior parte de sua obra, o cineasta Jafar Panahi deixa explícitas algumas de fontes de inspiração: além da peça supracitada, aspectos autobiográficos, visto que ele próprio foi aprisionado pelo austero regime iraniano.
Wesley Pereira de Castro, Críticas de um Cinema Nu
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