Por Enoe Lopes Pontes
Existe um encontro mágico entre discurso e linguagem cinematográfica que, quando ocorre, faz o resultado visto na tela ser sempre positivo. Esses elementos nem sempre se equilibram no audiovisual, mas, A fabulosa máquina do tempo dá uma aula sobre as múltiplas compreensões e camadas que um filme precisa ter e mostrar.
Eliza Capai revela uma consciência profunda de direção, quando entrega uma decupagem que provoca imersão do espectador na trama. Ao lado da fotógrafa Carol Quintanilha, é possível observar como ângulos e planos traduzem os sentimentos complexos das garotas retratadas no longa. Principalmente nas cenas em que as crianças criam o seu próprio filme, a mescla entre discurso e técnica fica eloquente.
O documentário de Capai traz o cotidiano, as reflexões e os sonhos de meninas de Guaribas, no interior do Piauí. O local é conhecido por ser uma espécie de cidade laboratório dos projetos Fome Zero e Bolsa Família e isso perpassa a narrativa de maneira orgânica. Dentro desta lógica, a câmera quase não se afasta das garotas e isso cria um senso de profundidade maior com o enredo.
Mesmo que em planos mais abertos, o espectador tem a sensação de proximidade e intimidade com aquele universo mostrado no documentário; seja nas externas, em amplos espaços do sertão, ou nas internas, quando se pode observar as residências das meninas. Além da planificação, a encenação se enriquece da liberdade que as garotas têm de brincar, de fato.
Eliza se vale do mundo infantil e lúdico para desenvolver o debate que deseja convocar para o enredo. As fantasias das crianças, unidas aos relatos de suas mães, formam um diálogo contundente sobre políticas públicas e o machismo estrutural.
Está tudo ali, nos relatos das adultas e nas brincadeiras das filhas: a importância da entrada dos projetos sociais na região, a transformação na visão sobre os futuros possíveis das mulheres e o que ainda precisa mudar para que a realidade feminina em Guaribas seja melhor.
Não há aqui uma romantização da pobreza ou um olhar fatalista para as vivências das personagens. Existe o uso das imagens e do som para olhar de frente o que há de incômodo nas experiências das meninas, como o fato de o pai de uma delas ter enfrentado problemas com alcoolismo, de a maioria das mães das garotas casaram menores de idade com rapazes com mais de 18 anos ou o fato de elas possuírem sonhos que vão além daquele de ter um marido e filhos.
Tanto a crítica aos elementos desafiadores da cidade quanto os enaltecimentos às conquistas e transformações positivas aparecem na narrativa. A luz, por exemplo, é um grande indicativo da serenidade, esperança e da atmosfera um tanto onírica que habita a infância. Ao mesmo tempo, existe o terroso para lembrar do árido, dos desafios e lutas necessárias para quebrar com os estereótipos do local.
Este é um filme solar, em suas alegrias e mazelas, e que sai dessa ambientação quente em poucos momentos. Nestes instantes frios, há uma sensação de comentário da equipe do longa, e também são as sequências que contam com uma conversa mais pesada e/ou intensa. As entrevistas diretas com as meninas passam um pouco por esse lugar e, talvez por elas terem a oportunidade de revelar tanto o que sentem, lá no fundo, o tensionamento seja maior.
É através destas estratégias que Capai e sua equipe entregam as construções de sentido e fazem uma obra relacional e potente. Nesse sentido, ainda se destaca como a música e os sons se fazem presentes para fomentar a elaboração de sentidos. É pelo sensorial vindo dos ruídos e das músicas que a plateia mergulha nos sentimentos mais profundos das garotas da história.
Quando estão cantando no alto de uma montanha, por exemplo, juntas, o senso de amizade e coletividade entre elas cresce, pela relação tão sincera que as crianças possuem quando se reúnem para brincar. Assim, A Fabulosa Máquina do Tempo é um documentário redondo e irretocável.
Seja pela sensibilidade e inventividade da direção ou pelo carisma das pequenas protagonistas, esta é uma produção que marca e eleva a qualidade do cinema brasileiro ainda mais.


