Entrevista – Mohsen Makhmalbaf, diretor de O Ciclista

Cineasta Mohsen Makhmalbaf. Crédito da foto: Armando Pierre Gauland

Por Ivonete Pinto (publicado na Revista Teorema – Edição 19)

Mohsen Makhmalbaf é um humanista militante, um homem perseguido e perplexo. Militante porque através de filmes como Caminho para Kandahar (Safar e Ghandehar, 2001), denunciou a miséria e as restrições absurdas que o país enfrentava com os talebans. Militante porque viaja pelo mundo alertando para a atual situação de seu país, o Irã, onde inúmeros cineastas estão presos, como Marzieh Vafamehr, condenada a um ano de prisão e 90 golpes de chibatada.

Makhmalbaf é perseguido pelo governo iraniano ilegítimo de Mahmoud Ahmadinejad – que fraudou as eleições em 2009 para se reeleger –, e perseguido pela ideia de que precisa fazer filmes. Mas para fazer filmes, ele precisa estar na sua terra, filmar em sua língua. E ele vem se transformando em um cineasta perplexo com esta condição. Em Porto Alegre, convidado como palestrante do seminário Fronteiras do Pensamento, em um final de tarde sentou-se à beira do rio Guaíba com seu tradutor no Brasil, Flavio Rassekh, e falou de uma série de projetos, de roteiros que tinha em mente. Falou com entusiasmo não de alguém que já tem no currículo 20 longas, mas de um cineasta em início de carreira, cheio de ideias e ideais. Entusiasmo interrompido pela pergunta de Rassekh: onde você vai filmar?

Makhmalbaf tem vivido nos últimos anos entre Afeganistão, Reino Unido e França. É provável que agora esteja em um desses dois últimos países, mas ele não pode revelar qual, pois corre o risco de ser assassinado, como a tentativa frustrada ocorrida no Afeganistão, como conta nesta entrevista concedida à Teorema.

Amado pelos iranianos, principalmente pelos filmes O Ciclista (Bicycleran, 1989), Viva o Cinema (Salaam Cinema, 1995), Gabbeh (1996) e O Instante de Inocência (Num va Goldun, 1996), Makhmalbaf também é respeitado pelas escolhas morais, em torno de um trabalho em família que faz da prole (duas filhas e um filho, sendo Samira a mais conhecida) e da esposa uma espécie de coletivo de cineastas (aliás, ele é tão família que casou com a cunhada Marzyeh, a pedido da primeira esposa quando esta, vítima de um acidente de carro, teve tempo de pedir a ele que se casasse com a irmã).

E respeitado pela simplicidade quase franciscana que sempre viveu, se locomovendo de motocicleta e morando em casas simples (esqueça aquele belo apartamento em que Jafar Panahi aparece confinado em Isto Não é Um Filme). E é assim que ele aparece, como ele mesmo, no emblemático Close-up (1991), filme do amigo Abbas Kiarostami em que tem um sósia-farsante igualmente apaixonado por cinema. Para falar de seus filmes, sobretudo Close-up, e de sua vida errante como cineasta sem fronteira, Makhmalbaf concedeu esta entrevista.

Alguns textos trazem a história de que quando criança você voltava do cinema com a tarefa de contar o enredo dos filmes para as tias, pois elas eram proibidas de ir ao cinema pela sua avó, que dizia ser o cinema “coisa do demônio”.
Mohsen Makhmalbaf: Não é verdade, eu também não podia ir ao cinema. Eu morava com minha avó, pois meus pais eram separados e fui criado por ela, e ela de fato era contra o cinema, achava que era coisa do demônio. Vi poucos filmes na infância, não chega a dar nos dedos das mãos. Depois da prisão é que comecei a ver filmes e o modo como os via era muito intenso. O impacto que os filmes tiveram em mim foi muito maior do que a uma pessoa normal, que cresceu vendo filmes. Os filmes entravam em mim de maneira muito mais intensa. Passei a infância e a adolescência fantasiando, querendo ver filmes.

Você lembra de algum destes poucos filmes que viu na infância?
Claro, um foi um filme russo chamado Mother, baseado em Gorki não lembro o diretor [Makhmalbaf se refere a Mãe, de Vsevolod Pudovkin, feito em 1926). Um outro foi Fahrenheit 451 (1966), de François Truffaut. É claro que este, na época, eu não pude entender o sentido político, apenas o sentido poético.

The Cow (Gav, 1969), de Dariush Mehrjui, iniciou o movimento do novo cinema iraniano e influenciou muitos cineastas persas de uma geração anterior a sua, como Kiarostami. O quanto ele foi importante para você também?
Muito. E este foi um dos poucos filmes que vi na infância. Foi um fenômeno no Irã, todos adoravam o filme, inclusive [Aiatolá] Khomeini [líder da Revolução Islâmica de 1979]. Ele dizia que se todos os filmes fossem como aquele não haveria problema em fazer cinema.

E você, gostava de Khomeini?
Eu, naquela época, no início da Revolução, poderia morrer por ele! Depois é que as coisas foram tomando outros rumos…

Quando você começou a se decepcionar com a revolução?
Nos cinco anos em que fiquei preso, fiz muitas amizades. Todos os presos políticos se davam bem. Fora da prisão, eles começaram a matar uns aos outros: opositores matavam gente do governo, gente do governo torturava e matava opositores. Eu pensei: há alguma coisa errada em nossa cultura, devemos mudar esta cultura. Deixei a política e comecei a escrever artigos, textos para rádio, peças teatrais, roteiros para cinema e comecei a, por fim, fazer cinema. Através do meu cinema tento mudar esta cultura.

Por esta época você chegou a trabalhar para o governo revolucionário?
Mais ou menos. Trabalhei para uma organização ligada ao governo, mas que era independente. Nela fiz o filme The Peddler (Dastrorush, 1987).

E você fez algum filme sobre o período do xá Reza Pahlevi?
Boycott (Baycot, 1985). Retratei minha experiência na prisão durante o regime do xá. Mostrei como funcionavam alguns grupos na prisão, que agiam tipo a máfia. Passei por duas prisões: a prisão física, do regime, e a prisão que vivíamos internamente, tendo que conviver com grupos de policiais que torturavam. Fui torturado muitas vezes, fui queimado em várias partes do corpo e carrego as cicatrizes até hoje (exibe uma das marcas acima do tornozelo). Em Boycott eu mostro o que aconteceu depois que fui baleado pelo policial: fui levado para um hospital, depois para a prisão, em seguida torturado, voltei ao hospital e de volta à prisão a tortura continuou sistematicamente pelos cinco anos. Mas na prisão, e isto eu mostro também no filme, éramos organizados em grupos e lá percebi como entre nós haviam tantos ditadores. Vejo este traço de comportamento como pertencente à nossa cultura, que existe ainda na nossa cultura.

O Ciclista é um dos seus filmes mais humanistas. O filme que começa seu interesse pelo Afeganistão. Ao vê-lo, pensamos logo no filme de Sydney Pollack, A Noite dos Desesperados (They Shoot Horses, Don’t They?, 1969), em função da semelhança do ponto de partida da trama: pessoas que se submetem a maratonas desumanas para conseguir dinheiro. Você tinha visto o filme antes de escrever o roteiro de O Ciclista?
Não! Quando mostrava o filme me diziam “ah, você se influenciou pelo filme do Pollack…!”. Mas o fato é que eu nem conhecia aquele filme e foi apenas uma coincidência. Eu escrevi o roteiro a partir de uma história verídica, que li num jornal no Irã. Um homem realmente ficou mais de 24 horas andando em círculos em cima de uma bicicleta, como numa maratona, para conseguir dinheiro para o tratamento da esposa que estava no hospital.

É o filme que inclusive marca tanto Houssein Sabzian, o personagem de Close-up (1991), de Kiarostami, que ele decide se fazer passar por você perante a família Ahankhah…
Sim, pode-se dizer que tudo começa por causa do filme. E acreditei em Sabzian quando soube de sua história, pois muitas pessoas simples como ele me procuravam para dizer o quanto tinham gostado do filme, se identificado com aquela pobreza e ao menos tempo com aquela dignidade do ciclista.

Você ficou sabendo antes da história da prisão de Sabzian, antes de Kiarostami?
Sim, li numa revista sobre a prisão e me senti na obrigação moral de ir procurá-lo na prisão. Conversei com ele e depois liguei para Kiarostami contando a história e dizendo que estava pensando em fazer um filme sobre isso, pois era uma história incrível de um homem que era apaixonado por cinema, é confundido comigo e começa a viver como se fosse eu perante uma família que também adorava cinema.

E vocês eram bem parecidos, não é?
Pois é… [risos]. E na época, início dos anos 90, não havia internet, não era fácil saber a verdade. E como ele sabia tudo de mim…

Exceto o fato de que você naquele momento estava em Veneza, e que acabara de receber um prêmio…
Por causa da notícia um amigo da família os alertou da farsa.

E como Kiarostami acaba dirigindo filme?
Ele me convenceu que ele deveria fazer o filme e registrar o meu encontro com Sabzian. E foi a melhor opção, embora Sabzian quisesse que eu mesmo filmasse a sua história.

A cena de Close-up que mostra o encontro de Kiarostami com Sabzian na prisão é o primeiro encontro deles?
Não, ele já tinha acertado antes, numa visita anterior, que não está no filme, pois ele tinha ido sem câmera.

E a famosa cena do corte do som quando Sabzian sai da prisão e você vai buscá-lo na saída. Temos a versão de Kiarostami de que ele cortou propositalmente o som porque achou que seria injusto com Sabzian, já que você tinha um microfone e ele não. E ele nem sabia que você tinha um microfone.
Sim, só eu tinha microfone de lapela. Mas a conversa enveredou para caminhos que talvez Kiarostami não quisesse usar no filme. Sabzian falava muito de religião, por exemplo, e isto talvez não interessasse a ele.

E é verdade que ele, Sabzian, naquele momento revela a você que gostaria que você fosse o diretor, e que ele não gostava muito do Kiarostami?
Sim, é verdade, Sabzian disse isso.

E a cena final, que mostra o encontro do Sabzian e da família Ahankhah? Estava no roteiro?
Estava no roteiro, Kiarostami avisou à família que iria lá mas não disse quando. Eles foram pegos de surpresa neste sentido e a pergunta do senhor Ahankhah sobre quem estava no interfone, mais a resposta de Sabzian, ao não ser reconhecido como Sabzian e anunciando-se então como Makhmalbaf, não estava prevista. Isto não foi inventado.

Você gosta do filme?
Muito, muito.

Você acompanhou Sabzian depois deste episódio? Sabe o que é feito dele?
Ele infelizmente morreu, cerca de quatro anos atrás, de ataque cardíaco. Tempos atrás eu tentei ajudá-lo, inclusive financiando o filme que ele tanto queria fazer: um curta sobre ele mesmo.

E que tal o filme?
O resultado não ficou muito bom. Ficou naif demais. Tive até o interesse de algumas pessoas na Europa que queriam exibi-lo em festivais, pois a estas alturas Sabzian era um personagem bastante conhecido em função da repercussão de Close-up, mas não tive coragem de mostrar, seria o meu próprio prestígio que seria comprometido.

Esta é uma história muito triste mesmo. Mas deve ser muito triste para você ter que viver exilado. Quando Khomeini decretou a fatwa [posição dada por um acadêmico para um tema não abarcado pela jurisprudência islâmica] ao Salman Rushdie, ele ainda assim conseguia escrever, não importava onde estivesse. Você consegue filmar no exílio?
Já fiz filmes em seis diferentes países e é sempre um problema, uma dificuldade por causa da língua.

Time of Love (Nobat-e asheghi, 1991) foi filmado em Istambul, na Turquia. Ele foi liberado no Irã?
Foi. Isto foi no tempo do presidente Rafsanjani, que governou o país por dois mandatos [1989-97]. Foi um presidente de altos e baixos, mas em relação a este filme, por exemplo, foi liberado para exibição, mas o presidente, pressionado por certos jornais conservadores, acabou proibindo o filme. No Irã é assim: não é simples dizer “este presidente foi bom, este foi ruim”, é preciso saber de qual período estamos falando, tudo é muito complicado.

Khatami foi também um bom presidente?
Foi… mas depende de que fase estamos falando.

Sexo e Filosofia (Sex va falsafeh, 2005), por exemplo, foi filmado no Tajiquistão, falado em russo. Como foi a experiência?
Foi horrível, foi angustiante, pois precisava de intérpretes para poder dirigir e tenho sempre uma relação muito próxima com meus atores, sejam profissionais ou não.

E como será a partir de agora para você filmar?
Tenho muitos projetos, mas sempre esbarro neste detalhe: não estou no meu país.

A produtora Makhmalbaf Film House sempre foi uma referência do cinema iraniano e você sempre foi muito identificado como alguém que trabalha com a família, todo o tempo. Sua família está no exterior? Samira, sua filha, mora com você ainda?
Não, não mora comigo e infelizmente ela também não pode mais voltar ao Irã. Dois dias depois das eleições presidenciais ela deixou o Irã e deu entrevistas criticando Ahmadinejad e o processo da eleição. Por essa razão não pode mais voltar, senão será presa, torturada…

Você tem medo de ser morto?
Eu sempre fui muito corajoso, não é à toa que aos 17 anos enfrentei um policial, fui baleado e passei cinco anos na prisão sendo torturado diariamente. Viajo pelo mundo denunciando as atrocidades cometidas no Irã, mas é claro que sou responsável. Tenho uma família, e sei que o governo iraniano não mede esforços para alcançar seus objetivos. Foi o governo que, por conta do Sexo e Filosofia mandou gente para estourar uma granada quando eu filmava no Afeganistão. Morreu uma pessoa, 20 ficaram feridas e a câmera 35mm, muito pesada, voou em cima de um grupo de pessoas. Eu poderia ter morrido. Quando estava na França, fui avisado pelo serviço secreto francês que havia um plano acertado para me matar e eles não poderiam mais me proteger onde eu estava, tive de mudar.

Por isto você nem revela onde está morando…
Não posso. É esquisito isto, nunca me imaginei nesta situação. É uma loucura acordar de manhã e pensar: preciso me esconder, preciso fugir. É uma loucura.

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2 comentários sobre “Entrevista – Mohsen Makhmalbaf, diretor de O Ciclista

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