Morreu Jonh Doo, nascido Chien Lun Tu, em 1942

Por Gabriel Carneiro (Revista Zingu! – Site Cinequanon – Revista de Cinema)

John Doo morreu. Pouco se noticiou a respeito, infelizmente. Prolífico ator e diretor da Boca do Lixo, afastado do cinema desde o final dos anos 1980, Doo estava em coma desde 2009, por conta de um acidente vascular.

Doo, nascido Chien Lun Tu na China, há quase 70 anos, veio para o Brasil ainda criança. Queria fazer cinema, mas demorou para assinar a direção de um filme. Estreou em 1978, com Ninfas Diabólicas, no gênero fantástico, no qual acabaria se especializando. Além de Ninfas
Diabólicas
, fez outros filmes incensados à aura cult, como O Gafanhoto, episódio de Pornô!, e, principalmente, O Pasteleiro, episódio de Aqui, Tarados!.
Era um diretor que não tinha medo de arriscar dentro de um mercado um tanto fechado a ousadias, como o da Boca do Lixo: filmes enigmáticos, macabros e extremamente inventivos. Isso tudo, claro, dentro do esquema requisitado, com nudez e insinuação sexual, sempre usado a seu favor, fosse para galhofa, ou para dar um maior tom de aflição nos espectadores.
Foi também ativo ator na Boca, trabalhando com emblemáticos diretores, como José Miziara, Antonio Meliande, Ody Fraga (habitual roteirista de Doo), Jean Garret, Carlão Reichenbach e Guilherme de Almeida Prado. Com este último, fez A Dama do Cine Shanghai, no papel do dono do Chuang Tzu, restaurante que serve de ponto de encontro para os protagonistas, e como fotógrafo do casamento. É um filme-síntese da forma de Doo se expressar: dosa sua atuação entre o irreverente e o sinistro/macabro, assim como fazia em seus filmes enquanto diretor.

Mas sua melhor personificação é como O Pasteleiro, de David Cardoso. Nele, faz o serial killer de maneira bem perturbadora, justamente por unir o psicótico e zombador.
Entre 10 e 15 de fevereiro, a Cinemateca Brasileira exibe a primeira parte da mostra Horror no Cinema Brasileiro. Ninfas Diabólicas, considerado perdido, é um dos filmes, com cópia restaurada em 35 mm. Talvez seja essa a melhor homenagem que se pode render a esse
personagem fascinante do cinema brasileiro, reavaliando sua obra e marcando seu lugar em nossa história.

 

Por Laura Cánepa (professora – site Cinequanon – editora do blog Medo de Quê?)

Medo de Quê? Uma História do Horror nos Filmes Brasileiros (trechos da tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Multimeios do Instituto de Artes da UNICAMP, como requisito parcial para a obtenção do grau de Doutora em Multimeios. Área de Concentração: Multimeios 2006)

(…)John Doo se mudara para o país ainda criança, acompanhando os pais fugitivos da China comunista. Aventureiro e cheio de segredos, chegou ao cinema paulista depois de trabalhar como motorista de limusine, tintureiro e desenhista. Seu primeiro filme, NINFAS DIABÓLICAS (1977), foi um grande sucesso de bilheteria, surpreendendo pela qualidade da direção e ousadia no tratamento de um tema fantástico e violento (como será visto mais adiante). Então, em 1979, ao realizar um de seus filmes mais ambiciosos, UMA ESTRANHA HISTÓRIA DE AMOR (1979), Doo faria um filme softcore carregado de idéias sobre para-normalidade e reencarnação, aproximando-se da obra de Garret(…)

(…)No mesmo ano, 1981, seria também a vez do jovem publicitário paulista Jair Correia, diretor recém chegado à Boca do Lixo, estrear no cinema de longa metragem com DUAS ESTRANHAS MULHERES, filme escrito por ele e por Leila Maria Bueno, que misturava erotismo com histórias de duplos assustadores e premonições malignas. Dividido em dois episódios, DUAS ESTRANHAS MULHERES começava com o média-metragem DIANA, estrelado por Hélio Portho e Patrícia Scalvi. Nesse filme, a personagem título narra aos policiais o inexplicável crime que cometera ao assassinar seu amante, Otávio, um homem gentil e delicado, mas fisicamente idêntico ao seu violento marido, Raul. Segundo ela, a semelhança entre os dois a teria enlouquecido, levando-a a pensar que se tratasse da mesma pessoa. Já o segundo episódio do filme, EVA, estrelado por John Doo e Zélia Diniz, tratava do tema das premonições malignas e das trocas de personalidade ao contar a história de “China” (Doo), um homem que um dia acorda com a feição de outro, que fora vítima de um acidente de carro. Então, ele dá carona, na estrada, a uma bela mulher, Eva (Diniz), que precisa reconhecer o marido morto num acidente automobilístico. Eles acabam se envolvendo, e China a estrangula. Em seguida, ele acorda do pesadelo. Pouco depois, o carro de Eva enguiça na estrada, e ela pega carona com o homem com quem China sonhara(…)

(…)Não tendo sido possível o acesso ao filme de Jair Correia, é difícil fazer afirmações sobre seu estilo e mesmo sobre sua filiação ao horror em termos de opções visuais e sonoras. Mas o filme chama a atenção, em primeiro lugar, por ser mais um exemplo que um softcore que explorou os temas do horror, e, em segundo lugar, por ter, em seu elenco, John Doo e Patrícia Scalvi, ator/diretor e atriz que tiveram intensa participação nos filmes de horror da Boca do Lixo(…)

(…)Mas, dentre os roughies brasileiros que ensaiaram diferentes abordagens dos temas da psicopatia em geral e da relação entre assassinos e prostitutas em particular, o exemplo mais impressionante é o média-metragem O PASTELEIRO, dirigido por David Cardoso no longa em episódios AQUI TARADOS!(1980), uma das mais bem-sucedidas produções da DACAR, cujo público passou de 540 mil pessoas. Neste filme, John Doo surge como ator interpretando um pasteleiro responsável pela produção de misteriosos pastéis “especiais”, que revende a uma pastelaria do centro de São Paulo. Suas roupas brancas e seu jeito tímido destoam do clima sujo da região, onde ele

encontra, numa noite, a prostituta Florinda (Alvamar Tadei). O pasteleiro a convida para ir à sua casa, e ela resiste. Então, ele a seduz com um de seus deliciosos pastéis, convencendo-a a ir com ele. O diálogo que se estabelece entre os dois desperta imediata simpatia pela mulher, desesperando o espectador, que rapidamente percebe as intenções do pasteleiro. Bem tratada na casa do anfitrião, ela posa para fotografias que serão colocadas junto com as de outras mulheres, numa espécie de altar. Com promessas de mudar sua vida, ele pede que Florinda tire a roupa e se deite na cama. Ela atende ao seu pedido, e então a história começa a mudar de tom… Primeiro, o pasteleiro pinta algumas partes do corpo de Florinda, justamente as mais “carnudas”: seios, nádegas, culotes etc. Depois, injeta em seu pescoço uma enorme seringa com um sedativo, que a imobiliza. Imediatamente, enfia uma faca em seu coração, lambe a ferida e, transfigurado, faz sexo com o cadáver. Depois, leva o corpo para um porão, onde funciona sua cozinha, e começa a esquartejá-la e a moer sua carne, que usa para fazer os pastéis. No final, ele come um dos pastéis e leva os outros para a pastelaria, contentando os clientes que esperam ansiosamente pelos “pastéis especiais”.

O que seria um filme comum de exploração ganha outros contornos quando os talentos do roteirista Ody Fraga, do diretor David Cardoso, da dupla de atores Doo/Taddei e do técnico em efeitos especiais Darcy Silva entram em cena para representar um conto de fadas macabro que se revela um estudo sobre o assassinato em série e as perversões sexuais. Conforme será visto na página a seguir, o filme possuía uma estrutura narrativa e uma coleção de imagens chocantes que denotavam uma impressionante compreensão do gênero e, ao mesmo tempo, objetividade e concisão narrativa.

Como aponta Piedade no texto O Pasteleiro: um exercício de sexo e horror no cinema brasileiro:

“O PASTELEIRO … trabalha (…) com fortes conexões com os princípios básicos do filme de horror. Principalmente se concor armos que esse universo (…) possui, em sua essência, ligação com símbolos e temas presentes no imaginário popular e já representados em inúmeros contos de fadas. Por exemplo: indivíduo retirado de seu contexto (…) é inserido em local secreto e ameaçador e regido por algum ogro terrível. Florinda, a simpática prostituta, funciona como (…) a mocinha sendo capturada por entidade bestial e levada para um mundo particular. (…) Como sugere Mikita Brottman, outros elementos simbólicos dos contos de fadas são comuns nos filmes de horror (…) o machado (aqui transformado na serra…), a armadilha, a criança (a jovem) aprisionada, o forno, a mesa de jantar, o preparo de comida (a feitura dos pastéis), o fogo e a caverna ( o porão onde se encontra a cozinha). Porém, um deles não se realiza: a fuga de volta ao mundo “real”. Como vimos, Florinda retorna na forma de recheios de pastéis “especiais”, em uma bizarra eucaristia. O chinês não só possui, mas compartilha as suas vítimas em um rito de comunhão”.

O autor também observa que os dois principais temas de O PASTELEIRO – a necrofilia e o canibalismo – já haviam sido explorados em outros filmes brasileiros, inclusive no universo do horror, nos episódios TARA e IDEOLOGIA, de O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO, dirigidos por Mojica. Mas, no média-metragem de Cardoso, em função das cores, da qualidade da interpretação dos atores e da simplicidade da história, ganham uma força quase insuperável de grand guignol, reforçada por um clima farsesco:

“…se O PASTELEIRO se revela como, provavelmente, o mais interessante estudo feito no cinema brasileiro sobre a psicologia de um assassino em série, também um outro lado merece destaque: o da farsa. Ele aborda temas densos – abuso sexual, necrofilia, canibalismo – sem (…) construir uma atmosfera opressora como seria de se esperar. Ao contrário: o curto enredo flui como uma comédia de costumes de um ato, com poucos atores e muita irreverência. E, reforçando a semelhança com a obra de Herschell Gordon Lewis, acaba se revestindo com o espírito do grand guignol, com imagens de violência gráfica exageradas que atestam o seu caráter absolutamente falso”.

O mais curioso sobre O PASTELEIRO, no entanto, é que, em sua época, o filme passou despercebido pela crítica, e apenas nos anos 2000, quando foi redescoberto, passou a ser tratado como a exceção que é em comparação com todos os outros filmes de horror realizados por diretores da Boca do Lixo. Mas até seus próprios realizadores parecem dar pouca importância para o conteúdo diferenciado (em termos simbólicos e cinematográficos) do filme que fizeram, tratando-o como “um entre muitos” em entrevistas concedidas para esta tese em 2005. Como conclui Piedade, o filme foi um raro exemplo de ousadia temática e narrativa, propondo uma experiência de splatter movie até então inédita no Brasil, e que ainda pode ser vista como uma das mais radicais desse subgênero em qualquer parte do mundo. Para o autor, O PASTELEIRO:

“…permanece, com sua singularidade, uma gema dentro de uma linha de produção irregular, onde se atirava para todos os lados em busca do retorno da bilheteria. Mas que, ao mesmo tempo, longe dos padrões estéticos e propostas da elite do cinema, dava liberdade criativa para se ousar tanto. Como ele, outros filmes dessa vasta produção merecem ser redescobertos e reavaliados”(…)

(…)o primeiro filme de John Doo, NINFAS DIABÓLICAS (1977), co-escrito pelo onipresente Ody Fraga e fotografado por Ozualdo Candeias. Nele, Sérgio Hingst interpretava o executivo Rodrigo, que dá carona a duas jovens estudantes, Úrsula e Circe (interpretadas pelas estreantes Aldine Müller e Patrícia Scalvi) e acaba se envolvendo com elas, não conseguindo impedir que Circe mate Úrsula por ciúmes. Ele foge de carro com Circe, mas a assassina começa a dizer coisas sem sentido, seguidas da aparição repentina da morta no banco de trás. Rodrigo se assusta, e seu o automóvel cai numa ribanceira, matando-o. Então, as duas moças saem do carro, recompostas, como duas jovens estudantes, para pedir mais uma carona a algum homem solitário na estrada.

O filme é um dos mais lembrados da Boca do Lixo, embora não tenha sido comercializado posteriormente em VHS, e nem sequer exibido na televisão. O próprio cineasta, entrevistado para esta tese, afirma não saber onde se podem encontrar os negativos do filme.

De qualquer forma, a fama construída por NINFAS DIABÓLICAS permite que se façam algumas inferências. A primeira delas diz respeito à criatividade dos realizadores ao desenvolverem um roteiro capaz de articular elementos fantásticos com os princípios do cinema erótico brasileiro, abrindo novas possibilidades criativas para o gênero. Além disso, o talento de John Doo para a mise’en’scene também pode ter contribuído para o bom resultado do filme, conforme se constata por seus filmes posteriores, geralmente bem dirigidos, e por comentários de outros cineastas, que o consideravam um dos mais talentosos da Boca. O fato de o filme ter sido pensado especificamente para o experiente ator Sergio Hingst, e contando com duas novas e carismáticas atrizes, também deve ter contribuído para o conjunto. Mas, sobretudo, o filme de estréia de Doo inaugurou, dentro das histórias eróticas de horror brasileiras, as mulheres monstruosas e destrutivas, queretornariam mais vezes.

Três anos depois, Doo e Fraga voltariam ao tema no curta-metragem GAFANHOTO, terceiro episódio do longa PORNÔ!, realizado em 1980, com uma das maiores bilheterias obtidas pela DACAR: 779.850 espectadores, segundo dados da Ancine.

Em O GAFANHOTO, único episódio de horror de PORNÔ!, Zélia Diniz interpreta Diana, uma pianista cega que mora em uma mansão isolada no alto de uma montanha, e que só consegue enxergar através de espelhos. Ela vive com sua empregada (Liana Duval) e com o jovem Marcos (Arthur Roveder), amante que ela conseguira dominar e trancar em sua casa, transformando-o em uma espécie de escravo sexual. Marcos tenta, de várias maneiras, libertar-se da situação, mas Diana continua a dominá-lo, pois controla suas ações através dos espelhos que se multiplicam pela casa. Numa manhã, Marcos encontra um gafanhoto em seu quarto, e usa-o para excitar Diana, sem que ela possa ver o animal. Quando ela descobre o fato, porém, excita-se ainda mais, ficando obcecada pelo inseto, e fazendo com que Marcos, enciumado e chocado, decida, finalmente, partir. Para isso, ele começa a quebrar todos os espelhos da casa, ferindo magicamente Diana a cada estilhaço. Mas ela é mais forte do que ele, e consegue sobreviver aos cortes e matá-lo, reinando sozinha na
casa em meio aos espelhos quebrados.

Ao som de Chopin e ao sabor de belos movimentos de câmera, O GAFANHOTO é possivelmente um dos filmes mais interessantes já realizados na Boca do Lixo, e, segundo o crítico Rubem Biáfora, pode ser uma adaptação livre do conto O Espelho, de Gastão Cruls. Independente das fontes literárias não creditadas, a crítica Andréa Ormond também observa a sofisticação surrealista do filme de John Doo:

PORNÔ! interessa (…) por seu terceiro episódio, O GAFANHOTO, de John Doo (…) uma pérola surrealista. (…) Perfeito em seu simbolismo, O GAFANHOTO é um tema à parte, trabalhando com elementos da tensão Feminino-Masculino e com a questão psicanalítica dos invasivos e perturbadores mecanismos obsessivos. Por este roteiro e direção, Ody Fraga – que escreveu – e John Doo – que dirigiu – dão uma demonstração de quantos recursos técnicos e criativos possuíam, e do que eram capazes de fazer em cinema, além dos estigmas e preconceitos que cercavam seus trabalhos”.

Porém, da mesma forma que o já mencionado O PASTELEIRO, GAFANHOTO foi tratado por seus realizadores como um filme entre muitos, tendo sido reunido, no longa PORNÔ!, a comédias eróticas bastante comuns: AS GAZELAS, de Luis Castelini, sobre a paquera entre duas colegiais, e O PRAZER DA VIRTUDE, de David Cardoso, sobre um homem que só consegue fazer sexo com mulheres vestidas de freira.

Mas John Doo ainda voltaria ao tema das mulheres monstruosas mais vezes no começo dos anos 1980. Primeiro, em 1981, em co-produção com Cassiano Esteves, realizaria NINFAS INSACIÁVEIS189, roteirizado em parceria com Waldir Kopesky e fotografado por Antonio Meliande. O filme retomava – sobretudo no título – o tema das “ninfas”, desta vez numa comunidade de pescadores atacada por bandidos e protegida pelas filhas de um pescador que, na verdade, são ninfas enviadas por Iemanjá (Zilda Mayo, Alvamar Taddei, Tânia Gomide e Nádia Destro) para destruir os homens.

No ano seguinte, Doo e Esteves uniram-se ao fotógrafo Cláudio Portiloi (com quem Doo trabalhara em O GAFANHOTO e O PASTELEIRO) para realizar EXCITAÇÃO DIABÓLICA, escrito por Doo e estrelado por Aldine Müller, Zaira Bueno e Wanda Kosmo. No filme, três motociclistas assediam e maltratam uma velha prostituta, que, dotada de poderes sobrenaturais, volta-se contra eles, surgindo diante de cada um como uma linda jovem que os leva à autodestruição.

Em 1982, Doo ainda participaria da produção independente DELÍRIOS ERÓTICOS – em parceria com Waldir Kopesky e com o desconhecido Peter Ivan Joséf Racz – filme que, curiosamente, continha três curtas-metragens diferentes abordando o tema das mulheres monstruosas ou vingadoras. O segmento de Kopesky chamava-se SUSSURROS E GEMIDOS, e foi estrelado por Fabio Vialonga e Rosângela Gomes, com roteiro de Doo. No curta, um homem observa o ato amoroso de um casal na chuva, e, depois, numa noite de tempestade, a mesma mulher se oferece para ele como uma espécie de “ninfa da chuva”. Ele aceita a sedução e, depois, acorda nu, na floresta, onde vê somente a túnica da mulher. Enquanto a procura, encontra, aterrado, vários corpos de homens assassinados e percebe, então, que também está ferido mortalmente, com uma cruz cravada no peito(…)

(…)Por fim, o episódio de Doo, mais distante do horror, estrelado por Lia Furlin e Arlindo Barreto, chamava-se AMOR POR TELEPATIA. A história se passava num ônibus, quando um rapaz e uma moça se observam reciprocamente e imaginam seu futuro juntos. Mas, enquanto ele planeja o casamento dos dois, ela tem diversos devaneios sadomasoquistas com ele, e acaba imaginando castrá-lo.

Infelizmente, não tendo sido possível encontrar quatro dos cinco filmes de

Doo mencionados neste item, é difícil fazer mais observações, mas tratam-se, certamente, de exemplos bastante contundentes do interesse dos realizadores da Boca pelo assunto das “mulheres monstruosas” no começo dos anos 1980(…)

 

o gafanhoto

 

Por Gabriel Carneiro (Revista Zingu!, edição 45, especial Liana Duval)

Uma crítica para O Gafanhoto

O Gafanhoto é hoje, talvez, um dos filmes mais cults da Boca, por aproximar o universo fantástico e macabro para a produção erótica, somado ao bizarrismo da já famosa cena de sexo entre um gafanhoto e uma mulher. Essa fama não é desmerecida: O Gafanhoto é uma pequena surpresa, um filme a ir se descobrindo, completamente díspar aos antecessores (As Gazelas, de Luiz Castellini, e O Prazer da Virtude, de David Cardoso), ainda que busquem nos fetiches incomuns seu denominador comum.

Em O Gafanhoto, Zélia Diniz faz uma bela e sedutora mulher cega, que domina tudo que está em volta da sua casa através do simples desejo. Lá, ela mantém como escravo sexual Marcos (Arthur Roveder), um rapaz que se considera um gafanhoto solitário – fraco e perdido, sem poder nada fazer. O curioso, a princípio, é notar que uma mulher cega domina completamente o marmanjo. Logo, essa curiosidade será morta, quando descobrimos que, enquanto Diana (Zélia Diniz) é cega, ela tem o poder de ver tudo através de espelhos, que são estrategicamente disponibilizados na casa. Não só, os espelhos funcionam como verdadeiros portais, transportando-a ao local que quiser no casarão onde reside com Marcos.

Ao longo de 40 minutos, o erotismo é transformado em macabro, mas não como os slashers gostam de fazer, em que o cunho erótico só é definido pela nudez, e não pela ambiência. As belíssimas cenas de uma sedutora Zélia Diniz vão, aos poucos, ganhando o contorno do perverso, pela sua persona autoritária e enigmática, que tudo vê pelos espelhos. Aliás, estes são uma perfeita metáfora do poder da imagem e do reflexo, do entendimento do caráter humano. É só à frente do espelho que Diana pode enxergar – assim como só à frente dele em que ela é realmente vista e está vulnerável, como se suas persona verdadeira só estivesse à mostra quando à frente do objeto.

Destaque para Liana Duval, que faz Ruda, a governanta bisbilhoteira, que presencia a cena com o real gafanhoto, e fica horrorizada. Aqui vale fazer um paralelo entre sua personalidade em O Gafanhoto e em O Pornógrafo: em ambos, ela faz uma mulher contraditória moralmente, que aceita algumas práticas e condena fervorosamente outras.

 

Por Laura Cánepa (blog Medo de Quê!)

E, num dia, de repente, vejo Ninfas Diabólicas

Eu considerava esse filme importante por várias razões: por ser o longa de estréia de um diretor que faria vários filmes interessantes de horror nos anos seguintes; por ser a primeira parceria entre ele e Ody Fraga, que participou da maioria dos roteiros de horror da Boca do Lixo; por ser um exemplo do trabalho de Ozualdo Candeias na direção de fotografia; por reunir duas musas do cinema erótico brasileiro – Aldine Miller e Patrícia Scalvi -no encalço de Sérgio Hingst; por ser um dos filmes mais lembrados e menos exibidos da pornochanchada paulista.

E fiquei feliz ao descobrir que eu não era a única a valorizar esse filme. Na histórica exibição de Ninfas Diabólicas (numa cópia nova em película feita pela Cinemateca Brasileira) no dia 01 de maio de 2010, do CCBB-SP, encontrei vários outros “caça-fantasmas” do cinema nacional, para usar as palavras do Remier Lion. Ele, aliás, também estava lá, coordenando o debate que reuniu, após a sessão, a atriz Patrícia Scalvi e o montador Maximo Barro.

A ausência óbvia de John Doo se fez sentir, mas a filha dele, que estava lá, contou a (triste) notícia de que ele se encontra há mais de um ano na UTI de um hospital por causa de um acidente vascular. Estamos todos torcendo pela recuperação dele!

Mas, enfim, ao filme…

Ninfas Diabólicas

Segundo nos contou Maximo Barro, Ninfas Diabólicas deveria ter sido apenas um dos segmentos de um longa em dois episódios. Filmado em sua maior parte ao ar livre e durante o dia, contrastaria com um outro episódio de estilo mais expressionista, filmado num ambiente fechado e repleto de espelhos. Embora esse segundo filme não tenha sido feito, parece-me que pode ser o “germe” do que seria O GAFANHOTO, episódio dirigido por Doo do longa Pornô, realizado pela Dacar (produtora de David Cardoso) em 1981.
Ainda segundo o montador, Ninfas foi planejado para ser filmado primeiro, e, já nos primeiros dias de filmagem, percebeu-se que estava ficando muito longo. Diariamente, os negativos eram revelados e enviados para Maximo Barro, que avisava à produção o que deveria ser refilmado, quais planos estavam faltando etc.

Então, quando o diretor e o montador perceberam que o média-metragem estava ficando muito extenso (o que faria o longa ultrapassar a metragem máxima de 90 minutos, que era a solicitada pelos exibidores para os filmes nacionais), decidiram fazer um filme só. E, apesar do roteiro claramente estar “esticado”, essa parece ter sido uma decisão acertada, por várias razões.

Primeiro, porque a produção contava com pouquíssimos recursos bancados pelo próprio John Doo, que tinha na época uma empresa de publicidade e, segundo o Maximo Barro, tinha o plano de se destacar como diretor de cinema após a experiência fracassada e não creditada com o filme O Puritano da Rua Augusta (1965), de Mazzaropi, em que ele consta apenas como assistente de direção.

Segundo, porque o prolongamento do filme ofereceu espaço para exercícios de estilo do diretor (que já mostrava alguma maturidade em seu primeiro longa “oficial”) e para a exploração dos tempos mortos, dando a NINFAS DIABÓLICAS um ritmo bem particular – que, após a sessão, chegou a ser comparado por espectadores a algumas obras de Jesus Franco ou de Walter Hugo Khouri.
Terceiro, porque a suposta “falta de assunto” deu ao fotógrafo Candeias a chance de explorar, com a câmera, a belíssima paisagem da praia do litoral norte paulista, do céu, do mar e dos corpos das atrizes, o que acaba, de certa forma, “documentando” o processo das filmagens. Isso fica evidente, por exemplo, nas indisfarçáveis queimaduras de sol que vitimaram Patrícia Scalvi e Sérgio Hingst ao longo das semanas em que ficaram na praia.

Filmado em parte na cidade de São Paulo e em (maior) parte numa praia de Caraguatatuba, Ninfas Diabólicas conta a história do executivo Rodrigo (Sergio Hingst) que, numa manhã comum, despede-se da esposa, pega o carro, liga a rádio Eldorado para ouvir as notícias do dia (solução interessante para a dificuldade de sonorização do carro, e que acabou datando e ao mesmo tempo reforçando o caráter de documento histórico do filme), deixa as crianças na escola e pega a estrada em direção a São José dos Campos, onde deve atender a um cliente.
Logo no começo da viagem, ele vê duas lindas colegiais (Aldine Miller, como Ursula; Patrícia Scalvi, como Circe) pedindo carona. Aparentemente, por sentir-se culpado ao ter negado carona a uma moça oriental quando ainda estava na cidade, ele acaba decidindo levar as duas jovens, que logo se revelam bastante sedutoras – especialmente Ursula, que se senta no banco da frente.

Elas, então, convencem Rodrigo a ir até uma praia para viver uma pequena aventura. Ele, já totalmente seduzido por Ursula, aceita o convite.

Mas, já no caminho, o espectador percebe que Circe, sentada no banco de trás e aparentemente pouco interessada no processo de sedução que ocorre no banco da frente, tem poderes de controlar a realidade, provocando acidentes na estrada.

Chegando finalmente à praia, Rodrigo e Ursula saem juntos, enquanto Circe fica sozinha. O casal transa à beira mar, mas, quando decide ir embora, percebe que Circe desapareceu. Além disso, o carro não está funcionando, o que os obriga a ficar. Enquanto Rodrigo vai atrás de Circe, percebemos que as duas moças têm uma ligação telepática e uma espécie de “roteiro” para seguir – roteiro este que não parece ser novidade para nenhuma delas.

Rodrigo encontra Circe e ela o seduz numa cachoeira, mas diz que só poderá consumar o ato sexual se, antes, eles amarrarem Úrsula, impedindo-a de ter uma reação violenta. Rodrigo aceita o estranho pedido, e os dois voltam à casa abandonada à beira mar, onde encontram Ursula nua e apavorada. Ela foge dos dois, mas acaba sendo morta pela amiga com uma pedrada na cabeça. Rodrigo fica chocado, mas cede aos encantos de Circe, indo depois embora com ela no carro que volta a funcionar.

Na estrada, Ursula reaparece no banco de trás, nua e ensanguentada, e começa a provocar Circe. Rodrigo não a vê e parece não entender o que está acontecendo, mas as duas brigam e o carro acaba caindo numa ribanceira (numa cena muito bem filmada com três cameras).

Em seguida, vemos as duas recompostas subindo o barranco. De volta à estrada, trocam os figurinos e os papéis: agora, Circe está na posição da moça sedutora. Um carro dirigido por um jovem oriental (interpretado pelo irmão de John Doo) oferece carona às duas. Elas aceitam e começam um diálogo muito semelhante ao que haviam tido com Rodrigo.

Fim

Consta que Ninfas Diabólicas teve um significativo sucesso de público. Segundo nos contou Maximo Barro, o filme foi lançado primeiro em Curitiba (como era freqüente na época). Mas, lá, curiosamente, a principal questão levantada pelo público foi relativa à numerosa presença de atores de origem oriental fazendo pequenas pontas.

Outro dado curioso em torno dos bastidores do filme foi revelado por Scalvi. Segundo ela, durante as filmagens, dezenas de pessoas se aglomeravam nas árvores, pedras e morros da praia para ver as atrizes filmando sem roupa.

Há mais coisas interessantes para comentar, como os belos créditos de abertura ilustrados por um dos funcionários da empresa de publicidade de Doo (que faz uma ponta do filme); alguns diálogos muito engraçados e cafajestes, típicos de Ody Fraga; a trilha eletrônica de Rogério Duprat; a estrutura em loop do roteiro, que era bastante comum nos filmes de horror da Boca; o cenário de praia, também recorrente nos filmes paulistas do período; as imagens do trânsito horrível de São Paulo já nos anos 1970 etc.

Mas, enfim, este é só um texto para documentar minhas primeiras impressões.

 

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