46o Festival de Brasília (II)

O artista em busca de seu público no encantador Os Pobres Diabos

Celso Sabadin, Planeta Tela (SP)
os pobres diabos2A eterna luta do artista em busca de seu público se reveste de um caráter ainda mais heroico e até mais nostálgico quando este artista é circense. E quando o público não aparece. Este é o tema principal de Os Pobres Diabos (imagem ao lado), novo filme do genial cearense Rosemberg Cariry, provavelmente o mais brasileiro dos atuais cineastas brasileiros… e que o próprio Brasil não conhece como deveria.

É difícil não se apaixonar por um filme sobre o circo. “O povo gosta de circo”, diz e repete um dos personagens principais. É difícil não se encantar por um filme de Cariry. Imagine então quando Cariry escreve e dirige um filme sobre a vida, alegorizada sob o formato de um circo. O cenário é um Ceará empoeirado, ao lado da turística Acati. O arcabouço é um tal Gran Circo Teatro Americano, decadentemente encantador, continente de uma rica variedade de interessantes tipos humanos. Há a bailarina que finge saber dançar e força um mítico sotaque espanhol: é a “Creuza de Guadalajara, que canta rumbas de Cuba” (Sílvia Buarque), com permisso da licença poética geográfica. Há o bondoso Zeferino (Gero Camilo), que alimenta as expectativas artísticas da pequena enteada Isaura (Letícia Perna), enquanto alimenta também os próprios colegas do circo com o substancioso leite da sua cabra Genoveva, não raramente o único alimento da trupe. Há o homem forte, o quase anão e, claro, o palhaço, o eterno “ladrão de mulher” (no caso, literalmente), sedutoramente transgressor, aqui em mais uma riquíssima caracterização de Chico Diaz. Todos sob o comando do abnegado dono do circo (Everaldo Pontes), otimista o suficiente para montar seu picadeiro longe da cidade, sempre acreditando que “o povo gosta de circo”.

Pode até gostar. Mas como competir com as novelas da TV (que seduzem até a própria Creuza), com os turistas que “só querem saber de praia e mulher”, com a companhia elétrica que ameaça apagar a luz da arte, ou mesmo com a figura oculta de um pastor evangélico que vai “decidir” se sua comunidade deve ou não ir ao espetáculo? É preciso fazer milagres. O mesmo milagre que, sabe-se Deus como (ou seria o Diabo?), permitiu que um gravador e um alto-falante elétricos fossem acionados mesmo depois de não haver mais energia elétrica no circo, salvando a vida de um dos personagens. Afinal, Deus, o Diabo e Lampião convivem na terra do sol.

Seria injusto destacar o trabalho deste ou daquele ator. Cariry consegue imprimir um impressionante padrão de excelência na totalidade de seu ótimo elenco, formado por Nanego Lira, Sávio Ygor Ramos, Reginaldo Batista Ferro, Zezita Matos, Sâmia Bittencourt e Georgina de Castro, além dos já citados Letícia Perna, Chico Diaz, Everaldo Pontes, Gero Camilo e Silvia Buarque.

Dois elementos de fundamental importância contribuem de forma decisiva para esta saga circense: a belíssima fotografia de Petrus Cariry e a envolvente trilha sonora original de Hérlon Robson, que resgata a magia e o imaginário de sons que nos remetem aos aspectos nômades e ciganos de todo e qualquer circo.

Para quem não conhece (mas deveria conhecer), Rosemberg Cariry é o nome artístico do “filósofo de formação e cineasta por vocação” (como informa o próprio material de imprensa do filme), Antônio Rosemberg de Moura. Ele escreveu e dirigiu Folia de Reis (2013), Cego Aderaldo – O Cantador e o Mito (2012), O Nordeste de Ariano Suassuna – Ceará (2012), Siri-Ará (2008), Patativa do Assaré, Ave Poesia (2007), Cine Tapuia (2006), Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio (2002), Juazeiro – A Nova Jerusalém (1999), Corisco e Dadá (1996), A Saga do Guerreiro Alumioso (1993) e O Caldeirão do Santa Cruz do Deserto (1986). Rosemberg é também escritor, poeta e pesquisador das culturas populares, com vários livros publicados.

Conhece não? Talvez o público esteja perdendo muito em não ir ao circo.

Guimarães Rosa como o “Schindler brasileiro” abre festival de Brasília

Antes mesmo de publicar seu primeiro livro, o famoso escritor mineiro João Guimarães Rosa, autor de clássicos como Grande Sertão: Veredas e Sagarana, já havia vivido seus dias de Oskar Schindler. Nomeado cônsul brasileiro na cidade alemã de Hamburgo, em 1938, Rosa viu eclodir a Segunda Guerra Mundial, literalmente, ao seu lado. E até janeiro de 1942, ano em que o Brasil entrou no conflito, conseguiu salvar a vida de dezenas de pessoas, facilitando, nem sempre pelas vias estritamente legais, a liberação de documentos para que judeus perseguidos deixassem a Alemanha.

A história é (muito bem) contada no documentário capixaba Outro Sertão, primeiro longa-metragem da mostra competitiva exibida no 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme é dirigido a quatro mãos femininas: Adriana Jacobsen, mestre em Ciências da Comunicação que divide seu tempo entre o Brasil e a Alemanha; e Soraia Vilela, jornalista também graduada em Berlim, residente em Belo Horizonte.

Retratar Guimarães Rosa como um autêntico humanista salvador de judeus é apenas uma das cerejas do bolo de Outro Sertão. Através de intensa pesquisa, o filme levanta preciosas cartas escritas por Rosa para seus parentes e amigos, enquanto morava em Hamburgo, que se contrapõem com ásperos relatórios das autoridades alemãs solicitando investigações sobre aquele homem que poderia colocar em risco os ideais nazistas. É rico o paradoxo provocado pelos dois tipos de textos diametralmente conflitantes: enquanto as cartas de Rosa exibem fluidez e poesia que denotam o talento literário do escritor até nos mais simples bilhetinhos e anotações, os textos oficiais explodem na tela com a rudeza do totalitarismo. O fato destes últimos serem narrados em alemão ajuda bastante.

outro sertaoHá também farto material de arquivo sobre a Segunda Guerra, uma grande entrevista de Rosa na TV alemã (mostrando o escritor já consagrado), além de depoimentos de judeus e seus descendentes, radicados no Brasil, que devem a Guimarães Rosa suas sobrevivências e a continuidade de suas famílias.

Entre histórias de heroísmo e imagens de guerra, um pequeno detalhe lúdico injeta uma bem-vinda dose de ingenuidade e pureza a toda a trama: Rosa se apaixonou pelo idioma alemão com apenas 9 anos de idade, encantado pelas consoantes dobradas, palavras que começavam em “Pf” e pela profusão de vocábulos com “schw”. Como se sabe, o garoto cresceu e continuou profundamente apaixonado pelos sons e formas das palavras. Melhor para a literatura brasileira.

O brilho de Outro Sertão e do mais que favorável pontapé inicial que o filme proporcionou ao 46º Festival de Brasília foi logo em seguida empanado pelos problemas de projeção do segundo longa da noite, Os Pobres Diabos, cuja exibição teve de ser adiada, até o momento não se sabe para quando. Paira sobre os próximos concorrentes um grande temor pelas condições técnicas do equipamento e das instalações do Cine Brasília, recém reformado, dizem alguns, às pressas.

O presente é o passado

Heitor Augusto, da Revista Interlúdio (SP)

Das várias imagens míticas do Cinema Marginal, uma das que ficam na memória é a do herói “vagabundo” de Meteorango Kid – O Herói Intergalático (1969) lendo gibi no meio de uma assembleia estudantil, afrontando a seriedade da roda, tratando-a como uma imensa bobagem. Quando o jovem cabeludo de Depois da Chuva também passa por trás de um grupo de jovens com muitas espinhas na cara (estamos em 1984, discutem se devem aceitar ou não uma conciliação com a diretoria da escola para a votação do grêmio estudantil) e diz algo como “Votem nulo. Não me matem de tédio”, essas duas memórias se fundem. Depois da Chuva, tal como Meteorango Kid, será um filme sobre os desviantes do controle social.

Mencionar “desviantes” é trazer também para a análise Tatuagem, de Hilton Lacerda, que fala do presente ao pensar um passado a partir dos que não atendem às expectativas oficiais (um grupo de teatro à margem da margem seja na localização, seja nas escolhas estéticas). Depois da Chuva, assim como Tatuagem, especula sobre o presente ao pensar um capítulo do passado recente: a transição do fim oficial da Ditadura para a derrota nas Diretas Já. Ali se situam os jovens de seu filme.

Seria possível trazer ainda um terceiro filme para o diálogo com este que é o primeiro longa de Marília Hughes e Cláudio Marques: O Príncipe, de Ugo Giorgetti, que é, tal como Depois da Chuva, uma tragédia sobre o Brasil de hoje – com a diferença que “hoje” em Giorgetti era 2002, período pré-Lula. (Num exercício de imaginação, o jovem secretário de finanças do grêmio estudantil é o espelho adolescente do deprimente personagem de Ewerton de Castro em Giorgetti.)

Mas pode-se pensar Depois da Chuva como um prolongamento mais complexo dessa obra de Giorgetti. Se o realizador paulistano trabalha a sugestão do desconforto (há anos exilado na Europa, o protagonista volta ao Brasil para ver os amigos do passado e se decepciona brutalmente com o que sua geração se tornou), em Depois da Chuva a abundância do desconforto é uma condição sine qua non para a existência do filme.

depois da chuvaTal percepção obriga a falar dessa sua primeira qualidade: Depois da Chuva é um filme atordoante. Muito. Tanto que se torna difícil escrever sobre ele durante um festival de cinema, seja pelo ritmo puxado das diversas sessões diárias, seja porque invariavelmente pensamos, no inconsciente, os filmes no universo da seleção do festival, ou seja, atribuindo méritos em relação a seus pares. Não me parece um filme perfeito, mas sua força é tão latente que nos dá vontade de esquecer de tudo e falar só do que é força no filme, não fraqueza.

Retomo a ideia de ser um filme sobre os desviantes, conceito que esbarra em João Silvério Trevisan, seja do ponto de vista da sexualidade por um livro como Devassos no Paraíso ou além, especialmente em seu único longa Orgia ou o Homem que Deu Cria (1970). Ali lá havia uma trupe de perdidos que se juntam por afinidades e que vivem às margens do mundo. Em Depois da Chuva temos esses três garotos, espécie de terroristas ideológicos, que se recusam a aceitarem a falsa felicidade de 1984, a participarem da festa da democracia.

A sequência do festival de música no colégio dos garotos traduz esse sentimento. Primeiro assistimos a um menino tocando Pra não dizer que não falei das flores, acompanhado pelo mar de braços da plateia que balança da esquerda para direita, da direita para esquerda, embalada como num show do U2 – faltou apenas acender o isqueiro ou a luz do iPhone. Em seguida, apresenta-se a banda dos meninos, que berra tanto que faz um som parecido com gelo no liquidificador, como define um deles.

A expectativa nacional diz: unamos as mãos para celebrar porque é hora de festa; Os desviantes dizem: é preciso berrar para romper a farsa porque isso está uma merda. Com essa belíssima passagem podemos encará-lo como um filme interessado no passado. Ou não. O que impede de trocar 1984 por 2002, da euforia pela eleição de uma figura que polariza a esquerda há três décadas? Não esqueçamos de como ainda é difícil problematizar Lula, criticar dentro da própria esquerda seu complexo projeto de conciliação e amaciamento do conflito de classes porque estamos sempre rodeados pelo medo de que a direita vai se aproveitar da brecha e penetrar.

Mas a excessiva leitura alegórica deste texto talvez dê a impressão de que ele trabalhe num registro de dramaturgia mais engessado, pouco criativo, desconectado com as possibilidades do cinema contemporâneo. Não é verdade. Há algo encantador desse filme justamente na dramaturgia, mas que ainda paira um tanto inclassificável. Talvez um trabalho anterior às filmagens que resulta num companheirismo dos atores a dar riqueza às relações entre os personagens; talvez seja algo do campo da própria encenação, a mescla entre planos introspectivos com outros de esgar, de grito – roubando um conceito da música; talvez seja o som, em especial a trilha, propondo uma leitura muito linda do que seria a imagem própria a acompanhar um punk (pois a sensação é justamente a de que não fosse essa música teríamos um filme distinto).

Depois da Chuva trafega por zonas deveras exploradas pelos filmes de aprendizado – pois se quisermos enquadrar seu gênero essa poderia ser uma definição próxima – e flerta com uma facilitação da experiência, com uma redução justamente do desconforto do diagnóstico. Temos um pai ausente; um garoto que precisa aprender a crescer num ambiente hostil; um mentor mais velho; uma paixão que ajuda atravessar os momentos mais difíceis; o choque com a autoridade dos adultos.

Ainda assim, este não é um filme de aprendizado – não existe paralelo possível entre Depois da Chuva e As Melhores Coisas do Mundo. Estabelece paralelos entre a História e o tecido fílmico, mas não de forma ilustrativa ou guiado por uma necessidade de um roteiro didático, preocupado em informar o que acontecia no Brasil quando certos eventos acontece com o personagem. Trata-se de uma coisa, História e filme. É alegoria, mas não trabalha num registro popular, e sim pop. Está localizado no passado, mas a forma que realça a degradação da fábrica no trecho final, implicando um diagnóstico trágico, só se confirma no presente ao vermos as damas de preto globais em “luto pelo Brasil”.

Há um morcego na porta principal

Trabalhar duas, três oitavas acima da zona de conforto é arriscado. Riocorrente é, até o momento, o filme que mais dá a cara a tapa. Pensemos, por hora, nesse “dar a cara a tapa” como um dado do longa-metragem, não na meritocracia da exposição.

riocorrente

Riocorrente assume que a realidade está morosa. Um registro vocal – voltando à ideia de notação musical e afinação – moderado poderia passar despercebido, diluir-se na paisagem sonora, pouco provocar ou chamar a atenção. É de caso para lá de pensado que o filme cante testando sua envergadura vocal, correndo o risco de desafinar, mas encarando uma eventual desafinada como algo menos importante do que a raiva que ele carrega e que quer botar para fora.

Canta mostrando uma preferência pelo alargamento gradual da palheta, o zunir no ouvido de um som que é meio bonito, meio incômodo como Te amo, podes crer, cantada no longa por um Arnaldo Baptista de hoje – aliás, muito precisa a escolha de Arnaldo, cujo Loki é uma longa depressão colorida em forma de som, sempre uma oitava acima para uma voz com pouca extensão.

Temos quatro arquétipos dessa realidade morosa. O jornalista (Roberto Audio) é um homem das ideias, mas que não vê muita saída para elas. O ex-ladrão (Lee Taylor) que carrega muita raiva a ponto de explodir como uma panela de pressão. Ele protege Exu (Vinícius dos Anjos), um menino de rua invisível. O diálogo entre um universo e outro é feito por Renata (Simone Iliescu), a radical que se encaixa perfeitamente na definição de rebelde dada por Antônio Candido em Radicalismos, já que é o “desvio ocasional da mentalidade das classes dominantes”.

Entra novamente a questão da extensão vocal que o filme possui para cantar acima da zona de conforto. Por um lado resulta em passagens fortes e ricas. Lembremos da belíssima entrevista com um especialista que divaga sobre um estado de coisas, mas que não cabe numa pergunta de jornal; ou as cenas de sexo que reforçam não o orgasmo, mas a canalização de energias de alienação; ou o “aleatório” plano do corpo fincado nas grades; ou a maneira em que captura a essência de São Paulo, libertadora aqui, opressora ali.

Em muitos outros momentos Riocorrente passa do ponto – avaliação que é, obviamente, subjetiva e não significa uma verdade sobre o filme, mas sim uma interpretação dele. O mais sintomático está na sequência do jornal corroído pelos ratos. No plano anterior o jornalista goza, vira de lado e dorme copiosamente. Corta para uma montanha de jornais. Pronto, a sequência era essa, tudo ali já estava dito. Os ratos, porém, parecem vir desse desejo do realizador Paulo Sacramento em desobstruir o peito para conseguir respirar. Mas aí o filme desafina.

E desafina também em outros momentos. Mais do que desafinar, porém, quando passa do ponto o filme é levado para algo ainda mais incômodo, que é a ilustração repetida do que significam os personagens e seus gestos. Seria realmente necessário que o jornalista redigisse seu artigo em uma máquina de escrever? Não seria essa uma ilustração bidimensional e inútil? E os cachorros que brigam?

Desenvolvimento irregular. De um lado o belíssimo plano da janela em que o casal discute e diagnosticam vagamente o problema; do outro, a sequência do “cara, me empresta seu carro”, guiada – novamente – pela vontade de dizer, mas muito pouco elaborada se comparada com outras.

“Por que deixar para amanhã?”, questiona, retoricamente, o ex-ladrão. Riocorrente aposta no agora, representando com intensidade, volume e vontade. Querer o agora é sua força e fraqueza. No terço final, parece correr mais rápido do que o necessário. A busca da ação no agora deixa de ser intensidade e se torna pressa no ritmo do filme. Não faria nenhum mal a ele mais elaboração, um desenvolvimento ainda mais complexo dos personagens (especialmente o de Lee Taylor, que segue praticamente todo o tempo em linha reta), um caminhar mais longo para inclusive aumentar a força quando o fogo sai de controle e se torna imperioso queimar a cidade.

Há de se respeitar esse espírito de urgência no qual o filme está mergulhado. O resultado de Riocorrente, todavia, é irregular. Sobra-lhe mais vontade e gana do que elaboração, um pensar mais demorado e pausado, sobre como chegar.

Brasília 46 – Balanço

Luciano Ramos (SP)

Na cerimônia de abertura, o prato principal foi oferecido pela cineasta meio carioca meio brasiliense Betse de Paula – a figura vitoriosa do último Festival de Pernambuco pela engenhosa comédia Vendo ou Alugo, cuja qualidade não teve a merecida acolhida pelo público. Fora de competição, ela mostrou o seu primeiro documentário que é Revelando Sebastião Salgado sobre esse fotógrafo que é atualmente um dos mais celebrados do País. No esforço de obter um resultado eficiente e elegante, para evitar também que o projeto se confundisse com uma hagiografia, porém, ela teve que fazer milagre, porque o Salgado parecia querer dirigir o filme. Determinava o trajeto da câmara, abria arquivos e gavetas catalogadas com precisão virginiana e apontava as imagens que deveriam ser registradas. Tudo bem, se tivesse sobrado algum espaço para a discussão ou o questionamento de seu discurso, sempre firme e seguro, tendendo, aliás, para o monolítico.

A mostra competitiva do festival começou à sombra de um acidente que veio roubar um pouco da euforia formada em torno da reinauguração do emblemático Cine Brasília, há vários anos fechado para reformas só agora concluídas. Um problema técnico, supostamente provocado pelo excesso de informação contida no HD da projeção digital, determinou que, quase meia hora antes de seu encerramento, a exibição do longa-metragem de ficção Pobres Diabos fosse suspensa. Tomada de surpresa, a organização só comunicou no dia seguinte para quando seria marcada uma nova exibição da obra – o que foi complicado, uma vez que a agenda das mostras competitivas estava apertada. Eram ao todo 30 obras concorrentes, ou seja, seis documentários de longa-metragem e mais seis de curta; seis longas-metragens de ficção e mais seis curtas; além de seis curtas de animação – num total de cinco filmes por sessão.

Mesmo assim, o filme do cearense Rosenberg Cariri seria eleito o melhor, de acordo com o júri popular. A tragicômica jornada pelo sertão nordestino de um circo pra lá de mambembe, com a encenação da tradicional batalha entre Lampião e Lúcifer, acompanhada pela disputa entre o palhaço (Chico Diaz) e o gerente (Gero Camilo) pelo coração e demais prendas da cantora (Silvia Buarque). O diretor do filme interrompido é o veterano Rosemberg Cariri, autor de 12 longas de ficção, como Corisco e Dadá. Este trabalho com que ele concorria em Brasília é um dos mais bem resolvidos de sua carreira, desenhado num tom a um só tempo poético e realista, um pouco à maneira de Chaplin e Pasolini, mas muito brasileiro na construção dos tipos. Um grupo de esfarrapados reunidos num circo paupérrimo que, de certa forma, faz coro com as dificuldades financeiras e técnicas que insistem em assombrar o áudio visual do País.

Ao longo da exibição dos filmes concorrentes, a constatação de que os documentários se colocavam acima das obras de ficção, em termos de qualidade cinematográfica, foi se consolidando. Logo na segunda noite da competição, os filmes de ficção apresentados se mostraram decepcionantes. Tanto o curta cearense Lição de Esqui quanto o longa baiano Depois da Chuva abordaram a juventude, mas tropeçaram num problema tão velho que parece ter se tornado crônico, ou seja, a ausência de um roteiro consistente capaz de orientar o projeto e lhe dar sentido. É triste ver realizadores que associam inexperiência à falta de humildade diante dos temas abordados, às vezes complexos demais, como aconteceu no caso do longa, que tentou elaborar o retrato emocional de um jovem de Salvador, na época da frustrada eleição de Tancredo Neves. Faltou fundamentação social, política e psicológica para garantir o interesse nessa história de rebeldia estudantil. O filme vale, porém, pela trilha sonora e pela atuação de Pedro Maia, que terminaria por ser premiado como o melhor ator.

o mestre e o divinoUm sopro de criação e originalidade veio com o curta documentário O Canto da Lona do paulista Thiago Mendonça que, em 2012, vencera o Festival de Brasília com a Guerra dos gibis. Desta vez ele focaliza o mundo do circo por meio de uma estratégia encantadora que é a de reconstituir momentos musicais clássicos dos picadeiros. Enquanto relembra o agitado período anterior à sua aposentadoria, um pequeno grupo de veteranos orienta jovens intérpretes na remontagem de antigos números.

A surpresa mais bem-vinda aconteceu com O Mestre e o Divino, de Tiago Campos, que seria escolhido como o melhor documentário pelo júri oficial. Ele traz dois personagens riquíssimos, descobertos no ambiente das comunidades indígenas fundadas por missionários salesianos: um velho padre e seu discípulo de catecismo, ambos apaixonados por cinema, documentaristas instintivos e amadores, para quem a falta de recursos e de formação técnica é compensada por um enorme talento. Na verdade essa é a grande missão dos festivais: revelar joias raras como estas. Como já tínhamos percebido, o gênero documentário salvou o Festival, com concorrentes de longa-metragem tão bons que o júri deve ter tido dificuldade para escolher o melhor. Venceu O Mestre e o Divino (Imagem acima), o mais divertido e cinematográfico de todos.

Com produção do projeto Vídeo nas Aldeias, que estimula os próprios indígenas a registrarem a sua realidade em mídias audiovisuais, o filme focaliza um instigante conflito entre dois cineastas voltados para o mesmo assunto, isto é, a cultura xavante – tal como ela se manifesta na missão salesiana de Sangradouro, no Mato Grosso. O Divino do título é um jovem nativo que não apenas se dedica a esse objetivo, mas também procura ensinar os rudimentos de captação e edição aos companheiros de tribo. O curioso é o relacionamento tão filial quanto competitivo dele com o mestre Adalbert Heide, um velho missionário salesiano alemão que desde os anos de 1970 coleciona um precioso acervo com centenas vídeos sobre os xavantes – todos minuciosamente catalogados, exatamente como faz Sebastião Salgado com suas fotos.

Só que O Mestre e o Divino revela as inúteis tentativas do velho missionário em comandar a filmagem. Essa birra entre eles, o cineasta índio e seu professor, corresponde ao inevitável conflito de gerações e, ao mesmo tempo, a um confronto entre dois estilos de fazer cinema, porque as obras do velho religioso são quase todas encenadas. Nelas, os guerreiros se mostram convenientemente vestindo folgados calções e os nomes dos rituais aparecem traduzidos para o português, de um modo adequado à doutrina cristã. Ou seja, o que era para ser apenas um registro rotineiro foi transformado num documentário denso, com múltiplos e diversos significados, graças à inteligência de um jovem antropólogo mineiro, formado em Brasília e radicado em Pernambuco.

É difícil explicar a percepção que, neste ano em Brasília, a qualidade do conjunto de documentários superou a dos filmes de ficção. De um lado, isso reflete o conjunto das centenas de obras que foram inscritas para a competição, mas, pode também indicar uma tendência da produção brasileira como um todo. O ascendente cinema pernambucano se fez presente com Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro, uma documentarista premiada por seus curtas Super Barroco e Praça Walt Disney.

Em sua estreia na ficção, ela focaliza o mundo da chamada música brega do Recife, em que duas garotas do interior tentam sobreviver como cantoras no ambiente das casas noturnas de baixo nível. Suas magnéticas intérpretes levaram os prêmios de melhor atriz (Maeve Jenkins) e atriz coadjuvante (Nash Laila). O universo em que elas se movem é bem reconstituído, mas a trama é pequena e desperta pouco interesse. Faltou um enredo de mais envolvimento narrativo, do mesmo modo como em Riocorrente do paulista Paulo Sacramento, outro documentarista consagrado pelo célebre O Prisioneiro da Grade de Ferro que, ainda assim, contando apenas com um mero triângulo amoroso, concorreu com o trabalho de ficção mais sólido dentre os demais. Do mesmo mal, ou seja, de uma dramaturgia esgarçada e rarefeita, padece Avanti Popolo, filme paulista de Michael Wahrman num longa de estreia, em que os atores se salientam mais que a história: são eles, o professor André Gatti e o saudoso cineasta Carlos Reichenbach, em sua derradeira aparição na tela.

plano bEm suma, se não houvesse separação entre ficção e documentário – como ocorre, aliás, em outros festivais – talvez os principais prêmios ficassem com este gênero. O longa Plano B (imagem ao lado), por exemplo, é outro documentário baseado no brilho de uma ideia: em 1967, no auge do cinema novo, Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma) fizera um documentário sobre Brasília, trazendo uma aprofundada crítica à exclusão social que já se manifestava na capital da república.

Como estávamos em plena ditadura, aquele filme foi engavetado pelo próprio patrocinador. Mas agora, 45 nos depois, o brasiliense Getsemane Silva compara a metrópole ali mostrada com as condições atuais em que ela hoje se encontra – com a participação do ator Joel Barcelos, do fotógrafo Afonso beato e do roteirista Jean-Claude Bernardet. O júri popular acertou ao escolher Pobres Diabos – o único longa-metragem de ficção a se mostrar satisfatório em quase todos os aspectos, especialmente o da comunicação com a plateia. Já o júri oficial elegeu melhor filme justamente o mais distante de uma possível aproximação do público.

Exilados do Vulcão, de Paula Gaitan, viúva de Glauber Rocha, é uma produção de 125 minutos, muito bem fotografada em suas locações de Cataguases no interior de Minas, mas sem qualquer diálogo. É como se fosse um filme mudo, só que sem letreiros. Nem é possível dizer se a história tem algum interesse, por que é bem difícil descobrir qual seja ela. Já os curtas de ficção eram todos sofríveis e o escolhido foi justamente um dos piores, feito por dois estudantes de cinema, como um trabalho escolar. O mesmo acontece com os de animação, em que o premiado foi Faroeste, um dos mais confusos e tecnicamente primários da competição.

A Arte do Renascimento – uma cinebiografia de Silvio Tendler compensa certa carência de recursos com o entusiasmo por parte de direção de Noilton Nunes, com a importância dos filmes focalizados e com a simpatia temperada pelo bom humor do próprio personagem central – Silvio Tendler uma das figuras mais respeitadas do ambiente cinematográfico. Já Hereros Angola do fotógrafo e publicitário pernambucano Sérgio Guerra se mostra extremamente bem produzido, com uma fotografia requintada e uma pesquisa que parece ter sido profunda e intensa. Focaliza uma etnia nômade angolana até então desconhecida por aqui, repleta de aspectos curiosos e até desconcertantes. Como é o caso de seus hábitos sexuais peculiares e o fato de o banho não fazer parte de seus costumes cotidianos, sem falar de uma estética bem singular, que inclui determinadas mutilações corporais. O problema é a escolha de um formato clássico e relativamente costumeiro para a abordagem do tema, que lembra o convencionalismo editorial dos canais estrangeiros de TV a cabo, como Discovery e National Geographic.

Por sua vez Morro dos Prazeres, da brasilense formada na Holanda Maria Augusta Ramos – consagrada por Juízo (2007), analisa com ritmo e grande competência a intervenção das Unidades Policiais Pacificadoras numa das principais favelas do Rio de Janeiro. Do ponto de vista da investigação, o filme mais impressionante foi Outro Sertão sobre a atuação humanitária de Guimarães Rosa, entre 1938 e 1949, quando o escritor foi vice-cônsul do Brasil em Hamburgo, durante o nazismo. As pesquisadoras Adriana Jacobsen e Soraia Vilela descobriram documentos inéditos que informam sobre diversos judeus que fugiram para o Brasil por meio de Guimarães Rosa e um programa de TV em que ele é entrevistado – registro único nesse gênero. Reiterando a impressão inicial, todos os documentários participantes do 46º Festival de Brasília se revelaram interessantes, cada um a seu modo, o que representa uma excelente contribuição para o crescimento desse gênero.

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Um comentário sobre “46o Festival de Brasília (II)

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