Farraj, Anna, o cinema e a democracia

I am the people, de Anna Roussillon

I am the people, de Anna Roussillon

Carlos Eduardo Lourenço Jorge*

Carente de outras informações colaterais além das poucas linhas da sinopse no catálogo oficial do 4º Olhar de Cinema (10 a 19 de junho), e sem saber muito bem quem diabos é Anna Roussillon, confesso que entrei na sala do Espaço Itaú em Curitiba meio ressabiado. E desanimado, achando que ia ver aquele Egito politicamente primaveril já radiografado e documentado ene vezes, de novo em cena as diatribes democráticas árabes que já nem mais queria, por desconsolo e descrença. E ainda por cima meio cabisbaixo, sob certa preguiça sonolenta temperada pelo cansaço da recente maratona meio madrasta de Cannes. De qualquer maneira, injustificada, inadmissível e indesculpável dose de má vontade diante do objeto a ser obrigatoriamente considerado para posteriores avaliação e deliberação do júri da Abraccine, do qual fui membro. Mas, apesar dos pesares, e o tempo ensina, nunca é tarde para arrependimentos cinéfilos. Ainda mais quando ele chega de imediato, e com o peso esmagador de uma pirâmide.

Ao contrário de outros documentários sobre a Primavera Árabe – movimento político-social que sistematicamente a barbárie promovida pelas facções do terror multifundamentalista insiste em varrer da face da Terra –, Je Suis le Peuple observa aquele renascimento democrático a partir de uma escritura fora dos padrões convencionais – nenhum falatório de cientistas e analistas políticos, nenhuma entrevista formal programada. O que faz a realizadora Anna Roussillon, ao contrário, é abastecer substancialmente o espectador com belo, sensível e inestimável mergulho na alma do povo egípcio. Pelos olhos, pela conversa e pelas reações de uma família de agricultores simples do vale do Nilo, no sul do país, vivendo seu cotidiano de povo sofrido, mas cheio de esperança, distante do viciado centro do poder político com sede na hoje histórica Praça Tahrir (ou Trair: o trocadilho bilíngue é tristemente irresistível ao sabor das infiltrações, reviravoltas e manipulações dos protestos), a cineasta conta a história daquilo que foi a revolução no Egito de 2011 a 2013. Mas conta diferente. De baixo para cima. Do povo para o povo (mas não é isto a democracia ?!)

(Por fatal coincidência, no dia 16 de junho, durante o Olhar de Cinema em Curitiba, saiu a sentença formal confirmando a condenação à morte de Mohammed Mursi, líder da Irmandade Muçulmana e efêmero presidente (eleito) do Egito entre 2012 e 2013. A noticia, em que pese a extensão da tragédia, não poderia ser mais adequada e se encaixar melhor no magnífico plano com o qual Roussillon fecha seu filme, quando as manifestações começam a apertar o cerco em torno das suspeitas sobre Mursi. Há um corte de energia na casa do camponês, a transmissão de tevê que mostra o novo momento na Praça Tahrir é cortada, e sobre a tela escura ouve-se as vozes de Farraj e de seus familiares – uma vez mais, e sempre ? –, perplexos, perguntando perguntas sem resposta. Metáfora para um presente-futuro habitado por buracos negros.)

A diretora utiliza uma construção orgânica dos fatos. O suporte para essa engenharia são as transmissões de tevê assistidas pela família do muçulmano Farraj Abdelwahid, a leitura de jornais com as últimas do imbróglio politico-religioso nacional, as discussões entre os familiares sobre as ocorrências e alternâncias, e as reações da comunidade vizinha. As conversas de cunho político são conduzidas e misturadas com humor às diferentes situações familiares, como a aquisição de uma moenda, que vai significar dinheiro extra com o aumento da produção da farinha. Ou o nascimento de um novo bebê. Diante deste quadro, que se desenrola em ritmo quase contemplativo, ao espectador é permitido apreender quais inclinações políticas fazem parte daquele cotidiano. São também dadas a conhecer as motivações familiares, como prover um futuro para as crianças e almejar uma vida pacífica e estável. A interação entre o publico e esses personagens é facilitada pelo espirito sagaz dessa gente extremamente empática, com quem é imediatamente possível estabelecer afinidades. Gente indispensável para alimentar continuamente a vida que emana do filme.

Sabidamente – e nem sempre tão sabidamente assim – lugar comum para caracterizar o gênero, um bom personagem é capaz de elevar um documentário a alturas insuspeitadas. Há dogmáticos que juram mesmo que, não havendo tal peça no tabuleiro, simplesmente não há jogo. Em “Eu Sou o Povo” ele existe de fato, e por direito assume este papel central com natural e extrema competência. Farraj, enxugado de qualquer exotismo, é o homem do campo de boa índole, bem humorado, espirituoso e de princípios. Acredita em mudanças, e em sua lógica simples, mas nunca simplória, ele se debate entre a ideia de uma revolução para resolver os problemas do país ou dar mais crédito a quem está no poder.

I am the people, de Anna Roussillon

I am the people, de Anna Roussillon

Anna Roussillon, 35, nascida em Beirute, mas criança criada no Cairo e atualmente vivendo na França, desde logo estabelece um laço interativo com Farraj. E esta ligação, facilitada por sua fluência em árabe, parece o ponto crucial do filme, como fica demonstrado na longa, racional-emocional sequencia em que os dois travam um embate verbal acerca do significado de democracia no primeiro e no terceiro mundo. A presença dela no filme é tanto invisível quanto onipresente; ela é sentida mas nunca é vista, e esta quase materialização na primeira pessoa se deve ao longo tempo que passou convivendo com os personagens, três anos. E justamente por causa dessa aproximação e dessa intimidade (“você poderia fazer campanha contra a fome na Somália”, diz a divertida mulher de Farraj, Harajiye , sobre sua aparência magra e franzina), Anna obteve muitos momentos e conversas, sem no entanto contaminar o entorno com a presença dela – é raro assistir uma tal permuta assim, tão direta e constante entre tema e documentarista como se vê em “Je Suis le Peuple”. A rigor não há entrevistas, mas troca de ideias entre personagens, diálogos a câmera (o espectador) e quem está por trás delas (Roussillon). Os momentos vão desde intervalos de descanso entre o trabalho rural e as sessões de tevê. Vez ou outra, o olho da câmera rende homenagem ao entorno egípcio onde se movimentam Farraj e família, fazendo deste conjunto uma radiografia altamente positiva da cultura árabe, com frequência percebida negativamente pelo Ocidente.

Anna poderia ter focado a revolução que depôs a ditadura de Hosni Mubarak ao vivo e à quente. Mas isso seria fácil demais, tudo praticamente mastigado e burocratizado e entregue pela cobertura da tevê. Tudo igual. Ela, no entanto, preferiu a observação e a experimentação daquele momento pelos protagonistas essenciais, longe dali, mas ali mesmo, apartados da violência imediata na praça, mas portadores da mesma apreensão do resto do país. O real enfoque político de “Je Suis le Peuple” vai pouco a pouco sendo demonstrado e percebido: não se trata aqui de patinar em e sobre disputas ideológicas repetitivas, ou da emancipação politica pela cartilha; mas de dar conta da potencialidade dos anônimos como seres valiosos no processo de transformação da realidade. Nesse sentido, “Je Suis le Peuple” se engaja num tom universal e progressista, e ensina (sem didatismo panfletário), racional e emocionalmente, como seria possível um despertar objetivo após deixada de lado a apatia. Um despertar também de esperanças, já que o filme demonstra como a democracia pode nutrir aquelas pessoas comuns de boas expectativas. Ainda que elas saibam que manobras políticas em altas esferas persistam no trabalho subliminar de atingir negativamente suas identidades e suas convicções.

* Crítico de cinema do Jornal de Londrina

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