La Salada

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Por Rodrigo de Oliveira

Vencedor dos prêmios de Melhor Filme Latino pelo Júri Oficial e pelo Júri da Crítica na 43ª edição do Festival de Cinema de Gramado, La Salada é um interessante mosaico a respeito da situação de imigrantes na Argentina. Ganha mais peso o fato de o diretor e roteirista do longa-metragem, Juan Martin Hsu, ser filho de uma mãe taiwanesa e de um pai chinês, contando portanto experiências de imigrantes que lhe são familiares. A produção argentina é bastante plural, com personagens cativantes e situações que devem causar reflexão ao espectador mais atento.

La Salada é o nome de uma grande feira na Argentina, não muito diferente dos camelódromos que temos no Brasil, local onde diversos imigrantes conseguem seu ganha pão. Neste cenário, somos apresentados a três histórias, costuradas em paralelo. Em uma delas, o protagonista é Huang (Ignacio Huang). Taiwanês, trabalhando com gravação de DVDs piratas, ele é um imigrante solitário que tem nas ligações telefônicas para sua mãe, que ainda mora em seu país de origem, um momento único de afeição. Ela cobra do filho uma namorada e Huang enxerga na argentina Angeles (Paloma Contreras) uma ótima candidata. Pena que ela não veja o mesmo em relação ao rapaz.

Nesta história, mais do que nas demais em La Salada, a solidão é parte importante para entendermos o personagem interpretado com segurança por Ignacio Huang (conhecido por ter feito Um Conto Chinês, em 2012, com Ricardo Darín). Curiosamente, o astro argentino aparece em determinada cena, enquanto Huang assiste a um longa-metragem argentino na televisão. Ele faz disso um hábito, inclusive. Para conseguir maior contato com a cultura do país em que agora vive, o imigrante passa seu tempo livre assistindo à produções locais. Chega até a copiar o corte e a cor de cabelo do personagem de um filme que conferiu, na tentativa de mudar de atitude. Como se este movimento o transformasse aos olhos de todos. Não é o que acontece, ainda que sua jornada lhe ensine algumas lições valiosas. Exemplo disso é a última cena que divide com Paloma Contreras, quando vemos a desistência do rapaz em tentar qualquer coisa com sua pretensa pretendente. É o segmento mais cativante, por encontrarmos personagens relacionáveis e completamente perdidos.

Em outro núcleo, conhecemos o coreano Kim (Chang Sung Kim), empresário com um espaço representativo dentro de La Salada. Pronto para casar sua filha Yunjin (Yunseon Kim) com o filho de um parceiro comercial também vindo da Coréia, ele se verá em maus lençóis quando perceber que ela está se envolvendo com um rapaz argentino, Luciano (Nicolas Mateo). Neste segmento, são igualmente importantes os problemas do pai e da filha. Ele em manter as raízes da sua família intactas. Ela em experimentar o desconhecido antes de pular em um casamento arranjado e potencialmente infeliz.

Aqui, o isolamento é mais preponderante. Diferente da história de Huang, em que a solidão era uma situação a ser vencida, neste segmento é vontade de Kim manter-se distante. Ele é um homem de outro país, sem real interesse em conhecer a cultura argentina ou o seu povo. Só de pensar em um romance entre sua filha e um rapaz local o sangue lhe ferve. Kim começa a se transformar quando consegue enxergar no outro qualidades que lhe são caras. Quando contrata um imigrante latino para trabalhar consigo e observa características positivas, seu pensamento começa a modificar. Chang Sung Kim vive, ao lado de Yunseon Kim, o personagem com a maior mudança na trama. Curiosamente, o diretor pontua isso iniciando e terminando seu longa-metragem no mesmo cenário, um campo de treinamento de golfe. O cotidiano não muda, ainda que as pessoas passem por transformações. Por sua vez, Yunseon Kim vive uma personagem que tem curiosidade. Sua juventude a coloca em um romance improvável com um jovem argentino que teria tudo para pôr a perder o destino escrito por seu pai. Ela vive uma grande transformação, ainda que – de novo – a sua vida não acompanhe esta mudança.

Na terceira história, com menor destaque entre todas de La Salada, somos apresentados a Bruno (Limbert Tacona) e a seu tio (Percy Jimenez), vindos da Bolívia. Começando a trabalhar em um restaurante, o rapaz logo se mostra incapaz de servir mesas, na função de garçom. Existe nele uma vontade muito grande em acertar, mas a ansiedade e o nervosismo não permitem qualquer sucesso nesta empreitada. Quando consegue uma vaga em outro local, finalmente suas qualidades conseguem ser exploradas. A participação de Bruno dentro da história não tem grande expressividade a não ser quando seu destino cruza com um personagem de outro núcleo. Desta forma, sua relevância aumenta e existe uma justificativa para sua aparição.

Juan Martin Hsu não tem pressa alguma em desenvolver a história destes personagens. Por isso, La Salada demora a engrenar e envolver o espectador. Mas quando as tramas começam a se desenrolar e entendemos a motivação e o problema de cada um dos protagonistas, somos sugados por aquela história cheia de solidão, distanciamento, mas também de sonhos e esperança. O cineasta se mostra hábil em comandar esta narrativa plural – do segundo ato em diante, principalmente – construindo um filme que nos mostra outro lado da Argentina, não tão presente nas demais produções vindas daquele país.

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