Crítica ou afetação?

Curta "Dá licença pra contar" (SP), de

Curta “Dá licença pra contar” (SP), de Pedro Serrano

Por Edu Fernandes

O plano original era usar esse espaço para discutir as críticas sociais nos subtextos dos filmes latinos do 43º Festival de Gramado. Contudo, uma questão mais urgente surgiu durante a transmissão televisiva da cerimônia de premiação, quando os comentaristas do Canal Brasil (os abraccineiros Luiz Zanin e Roger Lerina) demonstraram suas insatisfações acerca da decisão do júri da crítica.

Diz o estatuto da Abraccine que devemos levar em conta os filmes que desafiam os padrões quando fazemos parte de um júri. Concordo, contanto que a ousadia do filme avaliado seja triunfante e não apenas uma afetação gratuita. Se a tarefa fosse apenas apontar qual o filme mais ousado sem considerar seus outros valores, não seria necessária uma comissão julgadora (e suas acaloradas discussões). Bastaria eleger uma pessoa com o mínimo de bom senso que ela apontaria qual o filme mais desafiador.

Mais adiante, pelas redes sociais, Zanin classificou a decisão do júri como “incompreensível”. Há, portanto, uma necessidade urgente de jogar luz sobre o assunto para que se entenda o raciocínio por trás das escolhas.

“Dá Licença de Contar” foi o melhor curta e isso não foi questionado, apesar de outros títulos da competição serem muito mais desafiadores. O gaúcho “O Corpo” é um bom exemplo, mas foi classificado como um ótimo prólogo, mais do que uma obra fechada em si.

Quando “La Salada” foi consagrado o favorito entre os latinos, Zanin falou que “não se pode premiar apenas pelo tema”. Felizmente, para isso há a justificativa do júri, lida no palco do Palácio dos Festivais momentos antes da declaração acima. Destacamos sim o tema, mas principalmente pelo filme discutir a imigração pela voz do migrante. O discurso ouvido pelo viés do oprimido é o trunfo de longa nacionais elogiados, como “O Prisioneiro da Grade de Ferro” (2003) e “Doméstica” (2012). Além disso, valorizamos a narrativa-painel do longa argentino.

É óbvio que “En la Estancia” – escolhido por Zanin e outros colegas para o prêmio Dom Quixote em “uma das reuniões de júri mais tranquilas”, como o próprio relatou – era o filme mais ousado da competitiva. Entretanto, o júri considerou que o longa mexicano foca demais nos maneirismos e esquece de colocar energia para construir um conjunto mais harmonioso.

Finalmente, entre os longas nacionais havia o gaúcho “Ponto Zero”, inegavelmente o mais limítrofe de todos em concurso. Para o júri, a apatia de seu protagonista combina mais com a primeira metade do enredo do que com o final frenético. Também havia o brilhante “Que Horas Ela Volta?”, desclassificado poucos dias antes do começo do festival. Outra opção seria “Ausência”, que não poderia ser premiado por já ter sido o favorito da crítica no festival Aruanda.

Assim, escolhemos “O Último Cine Drive-In”, um filme com narrativa simples, mas que valoriza o cinema como linguagem, paixão e ritual. Para não premiar apenas pelo tema, também destacamos em nossa justificativa a forma orgânica como o longa brasiliense transita de seu início dramático para seu desfecho mais cômico. Assim como o ousado “Ponto Zero”, há uma mudança de tom, mas o longa de Iberê Carvalho foi escolhido por ter sido mais bem-sucedido nesse quesito.

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