Kiarostami: ‘Estamos acostumados a ver só campeões, mas não somos isso’

kiarostamiInácio Araujo*

Convém não abusar da palavra gênio. Mas, quando se trata de Abbas Kiarostami, 54, ela é quase incontornável. O diretor iraniano é mais que uma moda.

Seus oito filmes que estão sendo exibidos na 18ª Mostra de Cinema dão conta, ao menos parcialmente, de um trabalho em que se encontram o realismo radical do italiano Rossellini, a poesia do dinamarquês Dreyer, o rigor do francês Bresson, a simplicidade misteriosa do japonês Ozu.

Referências que formam um conjunto originalíssimo, sobre o qual Kiarostami falou à Folha.

Seus filmes parecem ser, antes de tudo, uma maneira de conhecer as pessoas e gostar delas. É isso mesmo?
Exatamente. Eu faço filmes porque essa é minha língua, minha expressão.

Em seus filmes também é muito importante o acaso, as coisas que vão acontecendo ao longo da realização.
Eu tento fazer filmes que sejam, ao mesmo tempo, a representação de uma coisa e um acontecimento. As duas coisas ao mesmo tempo, sem ser nem uma nem outra.

Aconteceu agora uma coisa: a pilha do meu gravador está falhando e eu preciso de um minuto para fazer a troca. É muito estranho, porque sempre há isso em seus filmes: alguma coisa acontece que interrompe a ordem normal das coisas.
Esses momentos são muito importantes. São detalhes. Coisas que acontecem, e as pessoas que estão na platéia, vendo o filme, participam junto. Nós estamos acostumados a sentar na cadeira e ver sempre campeões, super-homens. Nós não somos isso. Nesses momentos é que a tela se torna um espelho. A tela de cinema é um espelho onde vemos a nós mesmos.

Retomando. Em certos filmes seus, como “Através das Oliveiras” ou “E a Vida Continua” parece que o filme nasce do próprio filme.
É a simplicidade do filme que determina isso. Meus filmes são diferentes de outros em que a imaginação tem mais importância. O filme é muito simples e muito real, trata da vida cotidiana.

Mas você já disse que a cegueira é até mais fácil de aceitar do que a ausência do sonho. E em seus filmes o próprio olhar cria o sonho.
O sonho não é toda a vida. A realidade vem primeiro. O sonho sem realidade não tem valor nenhum. Nós vivemos na realidade. Mas, para aguentar o peso da vida, é preciso sonhar.

Em “Através das Oliveiras” a palavra “salam” é repetida muitas vezes. Por quê?
“Salam” é um cumprimento. Mas no filme também é uma chave de comunicação, uma palavra que provoca um contato mais forte entre as pessoas.

Você é considerado o herdeiro do realismo de Roberto Rossellini. Como vê essa aproximação?
Essa comparação é uma honra. Mas, enfim, cada um faz seu filme.

Sim, há essa relação com o real. Mas “Através das Oliveiras” me lembrou muito Yasujiro Ozu, que fez um filme em que a expressão “bom-dia” também é retomada todo o tempo, inclusive no título. E me parece que seus filmes são muito próximos desse cinema essencial, de Ozu e de Dreyer.
São provavelmente os cineastas que eu mais admiro. Sobretudo Ozu me deixou uma impressão muito forte.

Há dois outros diretores que seus filmes me fazem lembrar: os franceses Robert Bresson e Eric Rohmer.
Aí você citou os quatro que eu prefiro.

Dreyer era protestante. Ozu era budista. Você é islamita. Mas os três transmitem uma profunda espiritualidade em seus filmes.
Essas três religiões estão ligadas a algo que vai além da vida material. Mas eu procuro transmitir algo que vai além da própria religião. Porque as religiões ficam até pequenas diante desse além. Agora, o cinema não é uma coisa para fazer propaganda de religião. Esse contato não material é mais do que a religião.

É o cinema, em um certo sentido.
Sim.

Eu fiz a pergunta porque em filmes como “Através das Oliveiras” a função do diretor de cinema parece ser unir as pessoas. No caso deste filme, aproximar o casal.
Isso não é uma coisa em que eu penso antes. É uma coisa que acontece durante a filmagem, que eu não controlo. Agora, como espectador, sinto também que meus filmes existem para aproximar as pessoas.

Em “Close Up”, há no início um marginal que se faz passar por diretor de cinema e é preso. Aqui também o filme trabalha aproximando as pessoas.
Em “Close Up”, a ideia é que, quando você se aproxima das pessoas, você as conhece realmente. Esse é o sentido do título. O “close up” é um plano em que a câmera fica próxima do personagem. De longe, as pessoas desconfiam umas das outras. O “close up” cria outra ideia, real, do personagem.

Nesse filme, o jornalista tem uma noção utilitária do fato; o cineasta busca a pessoa.
Não existe essa oposição. Na vida, todos nós somos às vezes o jornalista. Mas, ao nos aproximarmos das pessoas, perdemos o preconceito, passamos a conhecê-las de fato.

Em vários de seus filmes as flores têm uma função muito marcante. Por quê?
A flor é um sinal. A natureza ajuda os homens a se aproximarem uns dos outros. Por isso prefiro filmar no campo. Lá as pessoas estão mais perto da natureza e da natureza delas mesmas.

Seus filmes geralmente se passam em lugares muito tranquilos, onde a vida parece correr calma. Mas, de repente, a questão do tempo, a urgência, se introduz de maneira dramática, cria um suspense muito forte.
Eu diria assim. Você está em um lugar. E, por mais silêncio que exista, sempre há algo acontecendo. É isso que eu tento captar.

Você trabalha sempre com atores amadores. É difícil dirigi-los?
Não. É preciso conhecer muito bem as pessoas. O trabalho prévio é grande. Mas na filmagem tudo fica fácil. É importante saber que, algumas vezes, você os dirige. Outras, eles é que vão dirigi-lo. É preciso saber ser dirigido também.

Por serem amadores você gasta muito filme?
Ao contrário. Eu gasto pouquíssimo.

Em “E a Vida Continua” há uma conversa sobre futebol, onde o Brasil é muito citado. Você gosta de futebol?
Eu gosto de futebol. O valor social do futebol é muito grande. Basta uma bola e você já tem um jogo. E por onde quer que você vá, o futebol está ligado ao Brasil. Agora, nesta Copa do Mundo, eu estava na Alemanha. E, quando o Brasil ganhou, houve uma grande comemoração. Eu pensei: devem ser brasileiros. Mas eram alemães que comemoravam. A identidade entre o Brasil e o futebol é muito forte.

Como explica o fenômeno Irã no cinema?
Existe uma indústria organizada, que produz cerca de 60 a 100 filmes por ano. É claro, desses você tem cinco ou seis que são bons. Mas acho que isso é normal. Hoje há uma geração nova que faz muito sucesso no Irã, pessoas que estão com cerca de 30 anos, e isso é muito importante.

* crítico e professor de cinema; entrevista originalmente publicada na Folha de São Paulo, em 2 de novembro de 1994.

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