O vento nos levará: recordações de um amigo

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Imagem do longa “O vento nos levará” (1998)

Renata de Almeida *

No dia 4 de julho, tivemos a triste notícia da partida de Kiarostami. Muito se falou e se escreveu nestes dias sobre o grande artista que Abbas foi, reconhecido por críticos e admirado por cineastas como Akira Kurosawa, Jean Luc Godard e Martin Scorsese. Abbas, O Magnífico, como estampou a capa da Cahiers du Cinema há alguns anos. Já que tanto foi dito sobre o poeta que veio do Irã e deslumbrou o mundo, aqui irei apenas recordar-me do amigo.

Abbas veio ao Brasil pela primeira vez em 1994, durante a 18ª edição da Mostra. Ele faria parte do nosso primeiro júri, que também contava com Maria de Medeiros, Chris Sieviernich, Patrick Bauchau e Carlos Reichenbah. Leon Cakoff e eu estávamos no escritório imaginando se o Abbas já deveria ter chegado ao hotel, quando alguém tocou a campainha: era ele próprio, que, não tendo encontrado ninguém no aeroporto, seguiu o endereço do fax que tinha em mãos.

Ficamos arrasados com o erro, mas Abbas, com a sua elegância característica, mesmo depois de 22 horas de viagem, apenas disse que estava cansado e queria dormir um pouco. A compreensão dos nobres de espírito.

Já sabíamos que Abbas tinha uma simpatia pelo Brasil por causa do filme “Vida e nada mais” (1989), no qual desabrigados do terremoto veem um jogo do Brasil em uma tela improvisada, mas depois dessa primeira visita o que era apenas simpatia virou uma amizade verdadeira. Mais de uma vez Abbas disse que, depois do Irã, o Brasil era o lugar onde se sentia mais confortável e só lamentava o empecilho da língua, mas, como era um observador muito perspicaz e sensível, acredito que o empecilho não era tão grande assim.

Ainda em 1994, estávamos com o júri em um restaurante na Liberdade quando o Abbas chega atrasado e um pouco abalado. Emocionado, contou que tinha seguido uma menina que abria lixeiras pela Avenida Paulista. Descreveu como comprou um sanduíche e como correu para deixá-lo na próxima lixeira, sem que a menina percebesse.

Essa história virou um lindo conto que foi publicado na Cahiers du Cinema, na Film Comment e na Folha de S. Paulo. Só entendi a amplitude da sua emoção depois de ler o conto – a menina o fez lembrar-se da primeira paixão que teve quando ainda estava na escola. Muito conversamos sobre a possibilidade de filmar esse conto e ele dizia que não estava muito certo se a história seria boa para um filme, mas queria muito achar um projeto para o Brasil. Repetiu isso na última vez que esteve em São Paulo, em 2012.

No ano seguinte, em 1995, a TV Cultura nos convidou, Leon (Cakoff) e eu, para fazer uma matéria assinada para o Metrópolis. Por causa do conto e da recente visita, fizemos uma carta visual para o Abbas, que virou o curta metragem “Volte sempre, Abbas”. Vimos o curta ao lado do próprio Abbas, no Festival de Veneza. Foi uma noite bonita, na qual ele disse que jamais alguém havia recebido um convite tão original e carinhoso. Naquele mesmo ano, Abbas faria a arte da 19ª Mostra, inspirada na Avenida Paulista e em seus prédios.

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Encontramos o Abbas muitas vezes em festivais e em outras cidades. Mas ele só viria a São Paulo novamente em 2004, para uma retrospectiva e homenagem que realizamos na 28ª Mostra. Naquele ano a estadia foi bem mais longa porque, além da retrospectiva, organizamos também uma exposição de fotos, o lançamento do livro “l Kiarostami” e uma oficina na FAAP. Até hoje encontro pessoas que comentam sobre o privilégio que tiveram em ter o Abbas como professor.

A última vez que Abbas esteve em São Paulo foi em 2012, na 36ª Mostra, a primeira depois da morte do Leon. Nós tínhamos nos encontrado em Cannes e, acho que percebendo a fragilidade do momento, Abbas prometeu que voltaria a São Paulo com o seu filme Um alguém apaixonado. Eu disse que seria uma ótima ocasião para homenageá-lo com o Prêmio Leon Cakoff, criado naquele ano.

Em São Paulo, me contou que estava com problemas de coluna, mas que quando o médico perguntou porque ele teria que ir a um festival, respondeu; “Não é um festival, é minha família e ela está precisando de mim”. Completou dizendo que eu era a sua irmã e que tinha o sentimento de me conhecer desde sempre. Então, muito feliz com a nova família, nos adotamos como irmãos a partir desse dia.

Abbas fez questão de me acompanhar ao prêmio Bravo, para o qual eu tinha sido indicada. No caminho me contou sobre as filmagens no Japão e uma história sobre o ator principal do filme, Tadashi Okuno. Disse que era o primeiro papel do Sr. Okuno como protagonista, antes ele trabalhara apenas como extra ou coadjuvante. Mas, no final da filmagem, o Sr. Okuno disse que chegou à conclusão que queria mesmo era continuar a ser extra. Não era feito para ser protagonista e não aceitaria outro papel com tanto destaque. Pena, por que Abbas estava pensando nele para um outro projeto.

Enquanto estávamos no Auditório, Abbas contou algo sobre a cerimônia do Festival de Cannes do ano em estava concorrendo com “Através das oliveiras” (1994). Como a maioria dos jornais dizia que o filme era o favorito à Palma de Ouro, a câmera que transmitia a cerimônia começou a se direcionar na direção do Abbas na hora do anúncio do prêmio. Mas, para a surpresa do operador da câmera, o filme anunciado foi “Pulp Fiction”, e a câmera teve que fazer uma curva acentuada em busca de Quentin Tarantino. Abbas disse que ele estava tão apreensivo que a única coisa que sentiu foi um grande alívio. Dois anos depois, ganharia a Palma de Ouro por “Gosto de Cereja”. Já estava mais preparado para discursos.

Hoje, acho que o Abbas, vendo o meu constrangimento com a situação, tentava me tranquilizar. Ou estava me preparando caso não ganhasse prêmio algum. No final, quando recebi o prêmio Bravo, disse que o dividia com o Leon aonde quer que ele estivesse. E dediquei o prêmio a uma pessoa que provava que amizade vence distâncias, vence nacionalidades, tempo, cultura ou costumes. Que mesmo que se ausente, se torna presente quando mais precisamos.

Como foi em português acho que o Abbas nunca soube o que eu disse, mas levantou quando foi ovacionado pela plateia que ouviu o seu nome. Ou entendeu tudo, porque ele não precisava de legendas.

A última vez que me encontrei com o Abbas pessoalmente foi em 2014, novamente no Festival de Cannes. Ele era presidente do júri da Cinefoundation, do qual fazia parte Daniela Thomas. Numa roda do seu júri, disse a todos que eu era a sua irmã e eu comentei que a Daniela também era minha irmã. Ele aceitou, mas disse que se eu tivesse outro irmão não valia, eu garanti que não, que ele era o meu único irmão.

Em fevereiro de 2016, combinamos que ele voltaria a São Paulo para os 40 anos da Mostra. Abbas faria uma oficina de fotografia e uma exposição com os seus novos trabalhos. Estava feliz, disse que tinha voltado de Cuba e falado de mim, do Leon e da Mostra com o embaixador brasileiro. Iria filmar em abril, mas reservaria as datas da Mostra.

Depois de um tempo sem respostas, recebi a notícia de que ele estava internado. Mandei uma mensagem e flores por meio da família de um amigo iraniano. Alguém agradeceu em seu nome dizendo que a minha mensagem e flores encheram o seu coração de alegria. Foram as últimas palavras que recebi do Abbas.

Nesta semana vi algumas entrevistas do Abbas na internet. Numa delas ele diz que é importante ver filmes para alguém que quer fazer cinema, mas que o mais importante é viver e usar as suas experiências e sentimentos. Afirma que gostava de viver, que não se importava muito com o que iria deixar e, que se tivesse que escolher, viveria mais e não deixaria nada. Mas não deu, ele se foi e nos deixou uma obra magnífica.

Só com o tempo aprendemos a não nos lamentar pelo que perdemos e sim a ser gratos pelo que tivemos. Então, só tenho que agradecer a este irmão de última hora e dizer: ainda bem que ele nos deixou tanto.

* produtora e curadora, dirige a Mostra de Cinema em São Paulo, que por diversas vezes trouxe o cineasta iraniano ao Brasil; versão ampliada de artigo publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo de 10 de julho de 2016, na semana da morte de Kiarostami.

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