Memória viva de Abbas Kiarostami

Abbas Kiarostami em Porto Alegre, 2004 - Foto: Ivonete Pinto

Abbas Kiarostami em Porto Alegre, 2004 – Foto: Ivonete Pinto

Ivonete Pinto*

Na segunda-feira, dia da morte de Abbas Kiarostami, recebi mensagens e falei com algumas pessoas sobre o cineasta iraniano. Em dois desses contatos havia choro: um curador de uma mostra sobre Kiarostami e um cineasta gaúcho. O fato desses dois homens, que se relacionavam com os filmes do diretor iraniano de forma distinta, chorarem a sua morte exemplifica o poder de seu cinema.

Anos atrás, conheci um jovem documentarista em Teerã. No lançamento do curta “Sea egg” (sobre esse evento, ligado à situação do cineasta Jafar Panahi, publiquei artigo na edição impressa de Zero Hora em 8 de janeiro de 2010), ele me contava que em momentos de depressão ia até a frente da casa de Kiarostami e ficava sentado na calçada. Simplesmente ficava ali, sabendo que provavelmente o diretor não estaria em casa, talvez nem no país. Mas aquilo o aliviava.

Se, para cinéfilos e estudiosos da obra de Kiarostami, a tristeza se traduz em choro, imagine-se a dor de uma legião de fãs no Irã a quem ele representava tudo.

Kiarostami conseguiu ser criativo mesmo na difícil situação de trabalhar para o governo, no caso, o regime do xá Reza Pahlevi, nos anos 1960 e 70, através do Instituto Kanun que produzia filmes para crianças e adolescentes; conseguiu driblar a censura quando instalada a República Islâmica em 1979 e, mais do que isso, conseguiu surpreender a cada filme. Há quem possa não se envolver nos enredos minimalistas, nos enigmas narrativos, mas não há como negar sua inventividade.

Kiarostami nunca se repetiu, nunca se acomodou em modelos. Não há, entre seus mais de 40 títulos entre curtas e longas, um só filme parecido com outro, mesmo que os temas envolvendo a morte e a natureza sejam recorrentes. Não é à toa que conquistou dezenas de prêmios internacionais e que nomes como Godard, Scorsese e Kurosawa emitiram opiniões retumbantes sobre sua importância.

Em um jantar durante o Farj Film Festival, na capital iraniana, antes ainda de me decidir pelo tema do meu doutorado, que acabou sendo sobre “Close-up” (doc-fic do cineasta que está entre os 50 melhores filmes de todos os tempos de acordo com o British Film Institute), pude perceber pela primeira vez uma característica fundamental de Kiarostami: o gosto pela observação. Ele era o que menos falava; apenas ouvia. Em outros encontros, em Teerã e na Mostra de São Paulo, era sempre elegantemente monossilábico nas respostas e generoso nas perguntas sobre a tese, sobre o orientador, sobre o Brasil.

Esta pode ser uma chave para compreender o humanismo dos seus filmes. Kiarostami era alguém que ouvia, que se interessava em saber do outro. Fazer um close em um personagem tem esse sentido também.

Outra chave importante é a poesia. No prefácio que escrevi para o seu livro de poemas a ser lançado pela Rocco, As rosas e a lua, chamo a atenção que é como poeta que Kiarostami faz seus filmes, e como poeta observa o mundo. Esses verbos agora precisam ir para o tempo passado, mas com a certeza de que sua obra permanece.

* professora e crítica, autora do livro “Descobrindo o Irã” e de tese de doutorado sobre o filme “Close-up”, de Kiarostami; publicado originalmente no jornal Zero Hora, em 8 de julho de 2016, na semana da morte de Kiarostami.

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