“Aquarius” celebra, acima de tudo, o valor existencial da memória

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Foto: Victor Jucá

Claudia Laitano*

Clara, protagonista do novo filme do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, é aquele tipo de personagem que marca a vida e a carreira de uma intérprete para sempre. Aos 65 anos, a atriz que ficou célebre mais pela beleza arquetipicamente brasileira do que pela amplitude dos recursos dramáticos conseguiu transmitir à personagem toda a maturidade e energia necessárias — sem que a sensualidade à flor da pele de ouro marrom tenha sido posta de lado.

Mais do que um detalhe na escalação do elenco, era essencial para “Aquarius” que Clara fosse vivida por uma mulher bela e vital como Sônia Braga, com seus cabelos negros (ainda que tingidos) e selvagens como nos tempos de “Hair”. O segundo longa-metragem do cineasta tem como eixo central o embate de uma crítica musical aposentada e viúva, filha de uma família “de posses” pernambucana, com uma grande construtora interessada em comprar seu apartamento em um charmoso edifício dos anos 50 — o Aquarius do título — para erguer no local um condomínio de “alto padrão”.

A relação, que começa cordial com uma proposta de negócio “irrecusável”, vai evoluindo gradativamente para o constrangimento e o banditismo, sem que Clara aceite arredar o pé de casa e de suas memórias — contrariando o desejo dos filhos, dos ex-vizinhos e, aparentemente, também o bom senso.

A especulação imobiliária é particularmente violenta e predatória em Recife — cenário do movimento Ocupe Estelita, reação da cidade a um empreendimento que prevê a construção de 12 torres de até 40 andares à beira-mar — o que talvez ajude a entender a abordagem um tanto esquemática do assunto.

O filme, porém, não se limita a ser mais um panfleto sobre o velho confronto entre lógica econômica privada e os interesses coletivos. Em um nível político mais profundo, Aquarius celebra, acima de tudo, o valor existencial da memória. Memória política, memória dos objetos (como uma coleção de vinis ou a cômoda antiga que Clara herda de uma tia querida), memória cultural (são muitas as referências musicais ao longo do filme, de “Another One Bites the Dust”, do Queen, a “Nervos de Aço”, de Lupicínio), memórias familiares, memórias urbanas e até mesmo a memória do corpo e do desejo — o filme insiste em mostrar que mulheres maduras, ao contrário do que o senso comum e o cinema hollywoodiano parecem acreditar, não deixam de fazer ou gostar de sexo.

Narrado de forma mais convencional do que o longa de estreia do diretor, o elogiado “O Som ao Redor”, “Aquarius” tem em comum com o primeiro filme a crítica a uma elite que não parece ver contradição alguma em manter a cabeça nas business school de Chicago enquanto os pés permanecem atolados nos métodos mais primários do cangaço (Chicagaço?), uma espécie de atualização das “ideias fora do lugar” descritas por Machado de Assis já no século 19.

Se o filme peca pela falta de sutileza e adensamento dos conflitos— empresários sem escrúpulos versus intelectuais politizados e de bom coração que comemoram o aniversário da empregada — isso talvez reflita o momento brasileiro, notadamente pouco inclinado a sutilezas.

“Aquarius” é melhor e mais político onde é menos óbvio: na celebração da memória, da história, da experiência, das rugas, do que permanece em contraposição ao que é descartável. É o que nos resta, e não é pouco, em uma época em que a “era de Aquarius”, de harmonia e entendimento, sem falsidade ou escárnio, caducou até mesmo como utopia lisérgica.

* texto originalmente publicado no jornal Zero Hora.

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