“Aquarius”: protesto e aclamação em Cannes

aquarius_2Thiago Stivaletti*

Foi uma daquelas conjunções inexplicáveis. Enquanto o Brasil vive o seu momento político mais grave dos últimos anos, com o impeachment de Dilma Rousseff e a extinção do Ministério da Cultura, a direita assumindo o poder do país e botando em prática as políticas recessivas de sempre, o pernambucano Kleber Mendonça Filho, opositor ferrenho da nova situação, exibia nesta última terça-feira (17) no Festival de Cannes seu novo longa, “Aquarius”, que tem como um dos seus temas principais a luta surda e cotidiana entre a força do mercado e as pequenas resistências humanas a essa força.

Tudo se passou em menos de três horas. Por volta das 14h30, produtores brasileiros percorriam o tapete vermelho e a escadaria do Palácio dos Festivais empunhando faixas com dizeres como “O mundo não pode aceitar este governo ilegítimo” e “Queremos nossa democracia de volta”. Minutos depois, o diretor e todo o seu elenco empunhavam outros cartazes no alto da escadaria. Dentro da sala, antes da curta apresentação do diretor do festival, Thierry Frémaux, a TV do festival filmava a maior faixa de todas, com os dizeres “Stop the coup” (“Parem o golpe”). A sala inteira aplaudia.

Em seguida, começaram as duas horas e vinte minutos de “Aquarius”. Clara, a professora de música vivida por Sonia Braga, é a última moradora do edifício que dá nome ao filme, cujo terreno foi comprado por uma construtora. A empresa quer derrubar o prédio para construir ali mais um arranha-céu na praia da Boa Viagem, no Recife. Contra tudo e contra todos – o engenheiro do projeto (Humberto Carrão) e até a filha (Maeve Jinkings), que defende a venda por um alto valor –, Clara resiste. Mantém sua rotina de mergulhos no mar, a amizade com o salva-vidas local (Irandhir Santos), as saídas para dançar com as amigas.

Não é preciso muito tempo de filme para perceber que Kléber retoma muitos dos temas de O Som ao Redor, seu primeiro longa de ficção, premiado e exibido no mundo todo – e que fez os franceses ouvirem falar da capital pernambucana com o título “Le Bruits de Recife” (Os barulhos do Recife). Estão ali a especulação imobiliária; a guerra surda de disputa entre os espaços de convívio; o sexo como agente perturbador da ordem social e do inconsciente; a relação ao mesmo tempo afetuosa e conflituosa entre patrões e empregadas domésticas; o peso inconsciente do passado e da memória no cotidiano presente.

Por algumas razões, no entanto, “Aquarius” dá um passo à frente na filmografia de Kleber e na investigação estética e social que o cinema pernambucano tem empreendido nos últimos anos. A primeira (e talvez mais forte) é a incorporação a esse imaginário de Sonia Braga, a última grande estrela do cinema nacional. A troca não podia ser mais rica: se o diretor dá a ela a chance de voltar a ser estrela em seu próprio país após longos anos de uma questionável carreira internacional, ela traz ao filme toda uma carga histórica, carrega ao mesmo tempo a força de sua presença no imaginário brasileiro e sua própria vivência aos 65 anos.

Clara, sua personagem, é o exemplo acabado de uma elite rara no Brasil: bem educada, bem instruída, de grande senso crítico, amante da boa cultura, ciente dos seus direitos – sem que com isso deixe de carregar os traços de um Brasil ainda patriarcal, na relação com a empregada e outros funcionários à sua volta. A escolha de Maeve Jinkings, estrela de “O Som ao Redor”, como sua filha marca uma curiosa passagem de bastão, Maeve despontando nos últimos anos como a musa do cinema brasileiro independente em filmes como “Boi Neon” e “Amor, Plástico e Barulho”.

A segunda razão: se, como indica o próprio título, O Som ao Redor já fazia um uso original dos sons e ruídos na construção de sua atmosfera, Aquarius incorpora além dos sons uma rica gama da música brasileira dos últimos 50 anos. Clara, a crítica de música, escuta um repertório que inclui pérolas como O Quintal do Meu Vizinho, de Roberto Carlos; Pai e Mãe, de Gilberto Gil; O Ar, de Vinicius de Moraes; Hoje, de Taiguara; Meu Jeito Estúpido de Ser, de Maria Bethânia; além de uma citação de Nervos de Aço, de Paulinho da Viola.

Ao final da sessão, a luta de Clara contra as forças ocultas do mercado ganhou ressonância num festival em que a imprensa do mundo todo acompanha com atenção os próximos capítulos de nosso desastrado processo democrático. O barulho será ainda maior se o júri presidido pelo australiano George Miller, de Mad Max – Estrada da Fúria, captar essa mensagem e der um grande prêmio ao filme no próximo domingo. Sonhar com a Palma de Ouro não é delírio – “Aquarius” tem méritos estéticos e políticos para tanto.

* crítico de cinema e editor assistente no Portal Filme B; texto originalmente publicado no site da Revista Continente

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