O valor da memória

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Foto: Victor Jucá

Francisco Russo*

Você com certeza conhece a frase “o Brasil é um país sem memória”, legado de décadas de incompetência administrativa na manutenção de documentos e construções. Com a velocidade dos dias atuais e o avanço da tecnologia, pode-se dizer que tal conceito ficou ainda mais amplo com a inevitável transferência de CDs, DVDs e outros objetos em matéria digital. Consciente desta época em que o novo é glorificado e o velho deixado de lado por muitos, o diretor Kleber Mendonça Filho fez deste o mote principal de seu novo filme: “Aquarius”, selecionado para a mostra competitiva do Festival de Cannes.

O confronto entre o velho e o novo surge na figura de Clara, personagem entregue a Sonia Braga. É ela a dona de um apartamento cobiçado por uma imobiliária, que já adquiriu todos os demais imóveis do prédio. O objetivo é pôr tudo abaixo e construir um prédio novo, mas Clara se recusa a vendê-lo. É seu lar há décadas, foi onde criou seus filhos e, ainda hoje, vive bem. Daí surge o conflito, que resulta em ameaças veladas e provocações.

Mais do que simplesmente criar opostos, “Aquarius” quer tratar do valor da memória através da compreensão do que é antigo, sem que seja necessário descartar o novo. Tal imagem está representada na própria protagonista, escolhida a dedo. Estrela maior do cinema brasileiro nos anos 1980, Sonia Braga andava meio sumida. Seu resgate é não apenas uma imensa homenagem a tudo que fez pelo cinema nacional como também uma quebra de expectativa em relação ao que representou como símbolo sexual, potencializando o próprio conceito explorado pelo longa-metragem. Só que Sonia não se contenta apenas com este simbolismo automático e entrega uma das maiores atuações de sua carreira, fruto de uma complexidade emocional e ética impressionantes.

O público tem a chance de conhecer Clara ainda nos anos 1980, no flashback que abre o filme. A partir de suas origens, é construída a personalidade desta mulher independente e decidida, apaixonada por música e liberal, afetuosa e que mantém o desejo carnal em dia. Entretanto, é através das relações que Clara mantém com os demais personagens que se entende melhor o carinho e o respeito com os quais trata e exige ser tratada. Porque ela não é mulher de engolir desaforo, muito pelo contrário, e deixa isto bem nítido. Trata-se de uma personagem fascinante que, além de possibilitar a explosão do talento de Sonia, ganha relevância ainda maior por ser um papel feminino tão intenso, de alguém que não depende da ajuda de homens para seguir em frente.

Só que “Aquarius” não se resume apenas ao talento de Sonia e à valorização da memória. Assim como fez em “O Som ao Redor”, o diretor espalha vários comentários e situações ácidas que tão bem representam a hipocrisia existente na convivência diária entre classes sociais no país. O próprio conceito de ética é também trabalhado em relação ao mercado, pela forma como os representantes da construtora se comportam a partir das seguidas recusas de Clara. Há ainda o olhar absolutamente natural sobre a sexualidade, como algo decorrente da existência humana. Inclusive, chama a atenção o contraponto criado da primeira memória sexual surgir justamente durante uma pacata reunião familiar.

Com um olhar extremamente afetuoso em Clara e a partir dela, “Aquarius” ainda brilha pela trilha sonora, repleta de referências emocionais e históricas ao que é ser brasileiro. A fotografia solar também merece destaque, ressaltando as várias fases e a beleza da praia de Boa Viagem, e também a amplitude do apartamento em que Clara vive. Além disto, há certos enquadramentos que impressionam, seja por criar falsas expectativas sobre o que está por vir ou simplesmente pela sequência de eventos tão díspares exibidos com um mero movimento de câmera.

Lidando com a linha tênue entre a nostalgia e a memória, “Aquarius” é um belíssimo estudo sobre o Brasil atual e suas idiossincrasias, apontadas com olhar clínico e sem lantejoulas pelo diretor, muitas vezes de forma bastante política. O melhor exemplo é a discussão ocorrida sobre a falta de caráter humano, de uma importância abissal para a própria vida e que poderia ser facilmente encaixada em vários outros absurdos cotidianos do nosso país. Um filme marcante e necessário, especialmente para uma época sombria de relações humanas tão degradadas.

* crítico de cinema; texto originalmente publicado no site Adoro Cinema

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