Deserto

deserto-1-18-2-2

Humberto Pereira da Silva*

O paranaense Guilherme Weber se tornou conhecido do grande público pela presença na televisão. Ator global, firmou sua imagem para espectadores do Brasil inteiro ligados na tela da Rede Globo. Ao contrário de muitos de sua geração, contudo, Weber migrou do teatro para a TV e o cinema. Conhecido, agora uma nova experiência em seu trajeto: a direção de cinema. “Deserto”, que antes da 40ª Mostra de Cinema de São Paulo foi exibido no Festival de Brasília, assinala sua estreia no metiê.

Para além de ator global, “Deserto” dá oportunidade a que o público conheça melhor a trajetória, as inquietações e ambições de Weber. De fato, do que declarou em entrevistas para promoção do filme, se trata de uma personalidade que busca experiências renovadas no campo artístico. Sob esse prisma, a livre adaptação do romance do escritor mexicano David Toscana é um desafio que revela sua faceta de diretor de cinema.

Nesse empreendimento, a se notar, Weber carrega um tanto de sua formação teatral para mostrar uma trupe de atores mambembes isolada numa cidade abandonada no interior da Paraíba. Um aspecto destacável em Deserto, já nas primeiras cenas, é que se trata de um filme que dialoga com a encenação teatral, mais precisamente com a questão da representação.

Assim, “Deserto” exibe a trupe que cruza o sertão para exibir seu espetáculo a espectadores presos à realidade crua e caustica do sertão. O ideário do grupo, de fundo quixotesco, é declamado pelo líder nas cenas iniciais. Mas o movimento itinerante da trupe é interrompido quando chegam a uma cidade deserta e, com a morte do líder, nela se detém.

O que restou do grupo ocupa a cidade vazia e ensaia uma peça final para ninguém… Nessa encenação, os papeis de cada um é modificado. Novos papéis são escolhidos em sorteio e tem início uma alternância de acontecimentos com fronteira indefinida entre o que cada ator era e o que passa a ser. Ou seja, Weber joga com a ambiguidade de sentidos entre a representação e a representação na representação.

O pressuposto básico de “Deserto” é bem interessante. Envolve preocupação antiga – basta pensar na tela “Las meninas” de Velasquez – sobre as diversas formas de interpretação quando da imprecisa fronteira entre representação e representação na representação frente ao público; quer dizer: o quadro e o quadro dentro do quadro. Esse pressuposto se torna mais interessante quando – com a cidade vazia a trupe não tem espectador – o cinema, pois, coloca a encenação para o vazio para, pela repetição das imagens, infindos potenciais espectadores…

Com isso, inegável, Weber realizou um filme com pressupostos que exigem atenção do espectador. A realidade mostrada na representação e na representação da representação é cruel, triste, absurda, desolada e reflete simultaneamente um país com problemas crônicos e as artes cênicas isolada deste. As artes cênicas, por meio da simbologia, clamam no deserto, isoladas da realidade de um país que não superou contradições de classes, gêneros e raça.

Assim exposto, a estreia de Guilherme Weber na direção gera expectativa bem positiva. Deserto, no entanto, é um filme que frustra as expectativas. Trata-se de um filme que, justamente, carrega um peso de que muitos outros similares não conseguem se livrar: a presunção. O que se ambiciona, o que se pretende, é mais do que se oferece com as imagens. A ambição, no caso, de oferecer uma alegoria do país por meio da encenação teatral.

O caso é que, suponho, Weber não consegue dar consistência ao fluxo narrativa e à dicção cinematográfica. A encenação e a encenação na encenação não surpreendem, não geram desconforto ou desafios interpretativos. O andaime se exibe como andaime, sem deixar suspeitas. Assim sendo, o espectador é alertado de que a falsificação é falsa; algo na linha: não direi o que acabo de dizer que não diria…

No filme, ao mostrar que mostra o andaime, do espectador é retirada a possibilidade de indagar, de se inquietar, de se incomodar com o sentido do que vê. Presunçoso, Deserto acaba preso na armadilha da representação na representação. De posse da senha, o espectador está diante do que outrora era chamado pejorativamente de “filme cabeça”. De filmes sem fronteiras definidas, em que se joga com sentidos da representação – lembro a obra de David Lynch –, o espectador sai do cinema com a cabeça cheia. Com a senha de antemão, isso não ocorre com “Deserto”.

*Humberto Pereira da Silva escreve regularmente para a Revista de Cinema, a Revista Orson e o site Cinequanon.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s