O idílico mundo de Jarmusch

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Luiz Joaquim *

A 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo apresenta ao seu público Paterson, o mais novo filme de Jim Jarmusch que, a propósito, tem uma micro retrospectiva exibindo também dois de seus clássicos, Estranhos no paraíso (1984, que reestreia no Brasil dia 02/11) e Daunbailó (1986), além de Férias permanentes, seu primeiro longa-metragem (1980).

Paterson é um daqueles filmes que você nunca irá esquecer, pois ele vai rápido e direto para caixinha de carinho e beleza simples que todo espectador carrega consigo, e lá se instala.

Entre outros motivos para que isso seja um fato, Jarmusch muito rapidamente faz de você um amigo íntimo do protagonista Paterson (Adam Driver, conhecido como o Kylo Ren de Star Wars ou, como já vem sendo chamado, o “neto de Darth Vader”). Não apenas dele, mas dele e de tudo que o cerca.

Principalmente a sua namorada Laura (Golshifteh Farahani, de Êxodus: deuses e monstros; Éden; À procura de Eli e Dois amigos, dirigido pelo ex-marido Louis Garrel) e do cachorro dela Marvin (Nellie, a quem o filme é dedicado in memoriam). Nellie, a propósito, foi o único do filme que saiu premiado no Festival de Cannes, com o troféu Palm Dog.

São raros… ou melhor, raríssimos os filmes que conseguem agregar a sutileza da beleza de um poesia pela linguagem cinematográfica. Normalmente incorrem no erro da pressa da montagem, ou basicamente cobrindo o texto da poesia com imagens correspondentes.

O Paterson do filme é um motorista de ônibus e também poeta (bom poeta – os poemas são, na verdade, de autoria de Ron Padgett), que vive uma rotina modesta ao lado da namorada. Paterson acorda, faz um carinho em Laura, dirige seu ônibus na pacata cidade também chamada Paterson (em Nova Jersey), observa os muitos gêmeos que ali vivem, passeia com Marvin à noite (com quem tem uma relação cômico-conflituosa), toma sua cerveja enquanto conversa sobre amor com Doc (Barry Shabaka Henley) e traduz em palavras as coisas mais delicadas e, aspas, banais do mundo.

Jarmusch introduz sua estratégia de dizer ao espectador que todo o filme será a construção de um poesia, ou da perspectiva poética de Paterson, com a repetição e a repetição e a repetição das linhas escritas pelo protagonista em seu caderninho, antes de pegar no batente.

Aquilo que parecerá estranho, como reflexões sobre a embalagem de um caixa de fósforo de Ohio, vai ganhando corpo até desaguar numa tocante expressão de amor profundo.

Essa habilidade, de administrar a repetição – sem cansar o espectador – para fazermos chegar na contemplação de algo lindo, não é algo que principiantes consigam, ao menos não com facilidade.

Dessa forma, Paterson, o filme, vai traduzindo pelo cinema, não apenas a ideia de uma poesia, mas a ideia por trás de sua construção.

Em meio a tudo isso, Jarmusch constrói uma gama de personagens tão fortes e e belamente dramáticos quanto o seu protagonista. A começar pela linda Laura, cheia de vida e feliz com seus bolinhos, seu sonho de tornar-se uma cantora country, e sua fixação pela estética pautada pelo preto e branco.

O universo da rotina e da simbiose do casal é invejável. Paterson encoraja Laura em suas invenções, e Laura cuida de Paterson, para que possa trazer a público seu talento como poeta. Numa conversa com Doc, no bar, este pergunta a Paterson porque ele nunca comprou um celular. “Não acho que preciso”, responde ele. “E sua mulher não reclama?”, questiona Doc. “Não. Ela na verdade me entende muito bem”, diz Paterson. E Doc. “Rapaz de sorte”.

E não é apenas na vida íntima do casal que temos essa ideia idílica de um mundo cordial e harmonioso. Jarmusch rodeia o motorista de figuras muito carregadas de humanidade. Como as histórias que ele escuta de seus passageiros enquanto dirige seu ônibus.

Na verdade, tudo se resume a perspectiva desse poeta despretensioso e potente, que vai nos carregando para dentro de seu mundo suave e delicado. Paterson, o filme, deveria ser obrigatório de ser visto, mesmo que para termos só uma ideia de como a beleza pode ser encontrada até na embalagem de uma caixa de fósforo.

* Luiz Joaquim é jornalista e crítico de cinema; edita o site http://www.cinemaescrito.com

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