Aquarius: inventário da memória

O filme de Kleber Mendonça, mesmo com paradoxos, apresenta-se como peça de resistência a certos efeitos do crescimento econômico
Foto: Victor Jucá

Ivonete Pinto*

Fora temer que o cinema pernambucano diminua o número de produções, em função da possível futura falta de políticas públicas para o audiovisual, a qualidade segue como seu diferencial. “Aquarius”, o terceiro longa de Kleber Mendonça Filho, desde antes de seu lançamento ─ e turbinado pela seleção de Cannes ─, desponta como um dos filmes que mais serão discutidos este ano. Somando-se à fortuna crítica que O Som ao Redor (2013) amealhou, teremos diversificadas visões sobre o Brasil, a partir do exposto no filme. Um recorte do país, através do qual podemos pensar sobre nosso tempo. Sobre como enfrentamos o progresso.

Existem em “Aquarius” claramente algumas linhas temáticas, todas conexas: o feminismo (há falas explícitas, como a interpelação à personagem que pede permissão do marido para dançar, e toda independência nas atitudes afirmativas da protagonista Clara); há a crise moral por que passa o País (à mesa de um restaurante, o dono de jornal diz à Clara que o irmão dela é acusado de corrupção e ela firmemente recomenda que se espere pela comprovação dos fatos; sem contar a descoberta de Clara sobre as falcatruas da construtora); há a crítica irônica à invasão das igrejas pentecostais, que no filme transforma-se em invasão real quando a construtora cede um apartamento do edifício Aquarius para uma delas, e a menção ao poder dos maçons para explicar certas relações de poder.

Há o sexo, relacionado ao feminismo, mas que pode ter papel autônomo. Neste item, convém nos determos um pouco mais, pois condensa posturas políticas e filosóficas importantes. Clara (Sonia Braga), tem 65 anos, fez uma mastectomia na juventude e possui uma cicatriz bem visível. Um plano cuidadosamente enquadrando os seios de Clara nos diz que eles se configuram em uma questão para a personagem – e para o filme. A retirada de um dos seios é feita entre 1979 e 1980, como a parte inicial do enredo sugere, por isto compreende-se o tamanho da cicatriz, uma mutilação de aparência chocante até. À época, a reconstrução de mamas não devia ser como é hoje, no entanto, uma mulher com dinheiro, esclarecida e sexualmente ativa não teria feito uma plástica mais tarde? Seria uma contradição interna da personagem?

Numa leitura de outra ordem, porém, podemos pensar que o câncer para Clara foi uma batalha tão extrema de vida ou morte que ela prefere conviver com a falta do seio, mesmo que isto lhe cause constrangimentos nas relações com os homens. A cicatriz no lugar do seio é a sua história de vida, assim como a história daquele apartamento. Outro aspecto do sexo no filme está ligado à memória afetiva através de um móvel ─ a cômoda da sala ─, que aparece nas lembranças da tia. A cômoda tem direito a enquadramento em close como se personagem fosse. Curioso é que sabemos do papel desta cômoda pela memória da tia, na primeira parte da história. Clara, em princípio, não sabe que esta cômoda já serviu para outros fins. Trata-se de uma conversa do filme com o espectador, que se estende a outros filmes de Kleber, notadamente a O Som ao Redor. Assim, o diretor faz uma espécie de censo da cidade, revelando um mapa de afetos, fazendo emergir a memória das pessoas e das casas. Um delicado inventário da cidade do Recife.

A classe – Alguns críticos apontaram que este seria um filme mais conservador de Kleber Mendonça em relação ao “O Som ao Redor”, ao documentário “Crítico” (2008) e aos curtas “Eletrodoméstica” (2005) e “Recife Frio” (2009). Mas é preciso observar, principalmente no cotejamento com os dois longas ficcionais, as entrelinhas de “Aquarius” (como o papel da cômoda) para vermos que talvez não se trata de conservadorismo, mas do emprego de mais sutilezas. Se em “O Som ao Redor” a violência é apresentada como resultado de um processo histórico, colocando em lados opostos indivíduos lineares (o dono de engenho e o segurança da rua), em “Aquarius” esta violência é perpetrada por personagens mais sofisticados, como o jovem herdeiro da construtora, de fala mansa mas capaz de atos bárbaros para tirar Clara do edifício.

As amarras aqui são mais complexas, inclusive porque Clara e o empresário têm mais em comum do que o senhor de engenho e o segurança tinham. Também em “Aquarius” o diretor se expressa através de opções de linguagem. Se os sonhos/pesadelos estão presentes como recursos de filme de gênero no longa anterior ─ e funcionam para revelar o medo da classe média pela invasão/ascensão das classes C e D ─, em “Aquarius” se desvinculam da atmosfera do terror, e igualmente têm o poder de expor o subconsciente dos personagens. Clara teme perder o apartamento para a construtora. Teme perder uma luta para o mais forte. A vitória da construtora é a volta do câncer, é a metástase para Clara.

Por fim, a questão social, mais uma vez ocupando espaço prioritário no debate que o diretor propõe através de seus filmes. Em Aquarius ela se infiltra novamente nas relações com os empregados e nos diálogos nada sinuosos (Clara, lembrando a extensão dos vínculos familiares aos círculos sociais: “isto é bem pernambucano, bem brasileiro”). Em várias ocasiões já foi explorada a própria condição do diretor como afeito a este cenário ligado às oligarquias nordestinas, às famílias tradicionais. E esta informação não está em nota de rodapé porque de fato pertence à constituição da obra. O diretor critica “de dentro”, tendo uma visão, digamos, autorizada para falar do assunto. Condição esta que inclusive corrobora a importância de seus filmes para uma cinematografia, a nacional, pobre em visões “de dentro”, pobre no enfrentamento de temas relacionados à elite, como tantas vezes vem afirmando Jean-Claude Bernardet, desde “Brasil em Tempo de Cinema” (1967), mas principalmente em “Cineastas e Imagens do Povo” (1985-2003).

Sérgio Bianchi foi mais contundente sobre a formação do brasileiro, incluindo juízos sobre raça em “Quanto Vale ou É Por Quilo?” (2005). Na comparação, Mendonça apresenta o problema de maneira mais aprofundada. Quando já tínhamos o perfil de Clara desenhado (branca, rica, educada), vem a cena do restaurante e joga luz nas origens de sua família. O já citado diálogo travado entre Clara e o dono do jornal é até bem didático para que o espectador perceba os meandros da formação da elite pernambucana. Lá pelas tantas, o empresário/jornalista diz afavelmente à clara: “você vem de família de pele mais morena, que deu duro para chegar aonde chegou.” Metros de livros de antropologia (os novos ricos, aconselhados pelos decoradores, compram livros por metro), incluindo “Casa Grande e Senzala”, são sintetizados nesta cena, nesta fala. E o senhor de engenho, cuja personificação na figura do avô domina a gênese de “O Som ao Redor”, em “Aquarius” migrou para o ramo imobiliário. Mas supomos que estejam valendo as mesmas regras de comportamento, baseadas na ferocidade (“afável”), e tendo como aliadas a imprensa. Ciente desta lógica, Clara não perde a oportunidade de expor o peso do sobrenome do empresário/jornalista com ironia e desprezo: ele é um “Cavalcanti”.

Tensão – A representação de classe está posta a todo instante no filme. E neste sentido, “Aquarius” apresenta uma tensão. Tensão – se pensada no âmbito da filosofia – entre o discurso de Clara quanto à preservação da memória, através do apartamento, e o modo como vive, usufruindo os bens resultantes de sua condição econômica. Primeiro, porque em uma cena do filme Clara é confrontada pela filha que a acusa de ter apenas herdado apartamentos. Conforme a filha (Maeve Jinkings), a profissão de jornalista especializada em música não seria suficiente para a mãe ter os imóveis que tem. Segundo, ampliando as instâncias, igualmente haveria uma tensão entre Clara, com seus desejos e crenças, e a direção do filme, que trabalha num meio – o cinema de Pernambuco – que cresceu consideravelmente durante o Governo Lula. O mesmo que fez alianças com o empresariado da construção civil que fabrica arranha-céus, formando-se aí um potencial paradoxo.

Avançando um pouco neste pensamento que pode parecer extrafílmico, mas não é. Não é porque a recusa da personagem Clara ao não vender o apartamento para a construtora, é a recusa do filme (do diretor) a um crescimento econômico desmedido, desumano, denunciado pelo desaparecimento de casas, de habitus, de memórias, de patrimônios imateriais. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A consciência (da classe, da personagem, do diretor) sobre o que acontece resulta em um NÃO. A propósito, a música escolhida para a abertura do filme, é perfeita. “Hoje” (1969), de Taiguara, fala das marcas do tempo no corpo e homens sem medo que aportam no futuro. A arrancada já se dá num registro alto, já provoca uma agitação de sentimentos no espectador. O cantor e compositor é tido como o mais censurado no tempo da ditadura militar. Suas músicas eram uma forma de dizer não ao regime.

Na literatura, nos faz lembrar a mesma recusa de “Bartebly, o escrivão”, de Herman Melville, ao dizer não para as tarefas que lhe são exigidas no escritório. Difícil alcançar esta lógica de Bartleby, pois ao mesmo tempo em que ele está no emprego, que recebe salário, e que assume as regras do jogo, diz que não concorda com as regras do jogo e diz não para as tarefas com a frase “eu preferia não fazê-lo” . Naturalmente, no livro de Melville há uma carga de nonsense provocador, metafórico, pela simples ausência de explicações para a atitude. Ele prefere não fazer o que lhe pedem e ponto final. Já no filme, a personagem tem o domínio intelectual (a consciência) sobre o que acontece; “se explica” com argumentos bem razoáveis. E esta atitude não é uma contradição exatamente, mas gera uma tensão, ou seja, uma força que ameaça se romper. Este rompimento, ao nosso ver, está na existência mesma do filme, que se configura como uma consciência crítica do modelo de desenvolvimento, sem deixar de ser um espelhamento entre o ambiente da personagem e do diretor.

São Paulo S/A – “São Paulo S/A”, de Luiz Sérgio Person (1965), já fazia este papel ao retratar o desenvolvimentismo calcado na indústria automobilística. Cineasta imbricado no meio em que vivia (família rica, estudou na Itália, dirigia comerciais para a TV), Person ajustava a lente para ver melhor as transformações do País. O personagem Carlos (Walmor Chagas) pode ser percebido como filho do existencialismo francês no quesito tédio, na falta de sentido para a vida. Em “Aquarius”, a personagem tem um viés luminoso: Clara também vai à praia, como Carlos, mas não tem o niilismo e o enfado dele. Ambos, porém, dizem não.

Carlos é um personagem mais intrincado, porque desafia o espectador sobre as razões de suas recusas e não tem empatia alguma. Já Clara é o retrato da sedução, da simpatia e, como o João (Gustavo Jahn) de “O Som ao Redor”, tem afeto declarado pelas pessoas que trabalham para ela. Clara diz não à construtora para não perder um pedaço de si (o que significa o apartamento) e o filme nos diz através das imagens que Clara deve dizer não para que a especulação imobiliária não desumanize mais ainda Boa Viagem, com seus edifícios que fazem sombra na praia. Clara vive no mundo dos afetos, Carlos no da indiferença. Assim, a comparação com “São Paulo S/A” também funciona para somar à questão do paradoxo “fazer parte do esquema e ser contra o esquema”. O fato de Person, através de Carlos, criticar o sistema de trabalho na indústria automobilística, não quer dizer que ele devesse andar de carroça. Criticar a verticalização como uma doença arquitetônica no Recife e se beneficiar do crescimento econômico do Estado podem andar juntos. Ou não?

Neste processo de resistência, “Aquarius” faz coro, diretamente, com o trabalho de outros dois diretores pernambucanos: “Um lugar ao Sol” (Gabriel Mascaro, 2009) e “Brasil S/A” (Marcelo Pedroso, 2014). O primeiro, um documentário, direciona a rejeição aos novos ricos e suas coberturas; o segundo, um filme-ensaio, ao acúmulo de automóveis que obstrui as ruas. Em conjunto, tem-se a reflexão um tanto distópica sobre progresso. E, na base de tudo, a discussão sobre classe social a partir dos “herdeiros” que, detentores de uma visão (auto) crítica, podem contribuir para um pensamento mais comprometido com o destino do País. Fato simbólico, e relevante, é que em “O Som ao Redor” o protagonista, no universo doméstico, é afetuoso com a empregada e seus filhos; em “Aquarius”, a protagonista faz mais: atravessa a fronteira e vai à casa da empregada. No futuro, quando os filhos das empregadas dirigirem filmes, as áreas de serviço dos apartamentos terão mais destaque e os iguais não serão tão desiguais.

*Doutora em Cinema pela ECA/USP, professora no curso de Cinema da UFPel, editora da revista online Orson; texto originalmente publicado na Revista Teorema nº 27

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