O ato de filmar, ou uma pessoa não é uma árvore

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Daniel Oliveira*

Exibido na noite de quinta na competitiva do 28º Cine Ceará, “Senhorita Maria, a Saia da Montanha” tem uma premissa interessante. No atual momento de visibilidade trans, o documentário colombiano retrata a protagonista do título, que nasceu homem, mas se veste e se identifica como mulher, só que num pequeno povoado rural no interior do país. Ali, ela é ostracizada por quase todos, ridicularizada por muitos, mas resiste e sobrevive quase sozinha, cuidando de seu pequeno rancho.

Os problemas do longa começam, no entanto, quando essa premissa se revela bem mais complexa do que parece. À medida que o cineasta Rubén Mendoza se aproxima e conhece a história de Maria (e pare aqui se não quiser saber spoilers), o público descobre que – aparentemente – ela foi criada pela avó, que a vestia de menina desde criança, e que ela pode ter sido fruto de um estupro incestuoso entre um casal de irmãos.

Essas revelações são feitas, inicialmente, por moradores do povoado – que a tratam como uma espécie de animal exótico/lenda urbana local – e depois confrontadas por Rubén com a própria protagonista. O cineasta conta que sabia da existência de Maria porque seu avô, de origem árabe, se estabeleceu no povoado quando chegou na Colômbia. E em 2011, quando estava em busca de uma ideia para um edital de desenvolvimento, decidiu pesquisá-la mais a fundo. Segundo Rubén, a protagonista “fugiu” dele e de sua equipe por dois meses, mas eventualmente concordou em ser filmada. E foi só durante o processo de produção que o diretor foi surpreendido pelas revelações sobre as origens e a família dela.

O problema é que, como o próprio filme mostra, Maria é uma pessoa sozinha, sem ninguém para ampará-la ou defendê-la. Numa das cenas mais doídas do longa, uma das únicas mulheres locais que conversa com ela diz que faz isso “por caridade” e que não gosta da protagonista porque “ela tem um temperamento ruim”, enquanto Maria chora copiosamente ao seu lado.

E é aí que o espectador começa a se sentir inevitavelmente desconfortável, questionando qual o direito de Rubén de contar aquela história e expor Maria ali, na tela enorme do Cine São Luiz, dessa maneira. Em primeiro lugar porque, no nível micro, a protagonista nunca havia visto um filme na vida – e é difícil saber o que ela imaginava quando aceitou fazer o documentário. E no macro, “Senhorita Maria, a Saia da Montanha” resvala em uma série de questões extremamente perigosas, da transexualidade como algo exótico, associada a distúrbios psiquiátricos (Maria sofre de epilepsia), ou como possível resultado de abusos físicos ou psicológicos na infância – preconceitos que a comunidade LGBTQ+ tem lutado há anos para desconstruir.

Questionado sobre isso no debate, Rubén afirmou, com relação ao primeiro item, que “a fragilidade é uma forma de força subestimada”, e que sempre teve uma preocupação de que o filme tivesse algum retorno positivo para Maria. Segundo o cineasta, ela recebeu um cachê pelo longa, e a produção conseguiu ainda um tratamento para sua epilepsia, e que o terreno onde ela mora fosse colocado em seu nome. Além disso, a protagonista viu e gostou do longa, e Rubén argumenta que, caso contrário, não o teria lançado. “Se o filme não tivesse sido o início de uma forma de reparação para ela, não teria feito”, pontifica.

Quanto ao segundo item, Rubén considera que Maria “é um animal raro” e retratá-la de outra forma seria desonesto. Ele defende que se aproximou dela “como um indivíduo, e não como uma representante LGBTQ” – nas palavras dele, como “uma árvore” que ele queria conhecer e estudar. Só que uma pessoa não é uma árvore. Ela tem sentimentos e fragilidades – e tudo que está sendo ali tem repercussões sobre sua vida.

E por mais que Rubén tente se ater a seu relacionamento individual com Maria, ao ser lançado, seu filme não existe descolado da realidade. Tratá-la como algo exótico, e em alguns momentos patológico, pode reforçar no público uma série de preconceitos que a comunidade trans vem lutando há anos, com muito sangue, suor e lágrimas, para derrubar. Quanto a isso, o diretor afirma que não tem controle sobre como o espectador vai receber seu filme. E que se se limitasse por esse medo das consequências, faria outra coisa que não cinema.

Ele não está totalmente errado. Mas “Senhorita Maria” é um filme que coloca em xeque, o tempo todo, a responsabilidade de um cineasta ao contar uma história – tanto com seus personagens quanto com o mundo que vai recebê-los. E a resposta e a atitude de Rubén – um homem, hétero, cis, branco – diante disso (nada incomum, por sinal) só reforçam o discurso do famigerado “lugar de fala”: que uma história como a de Maria talvez devesse ser contada por outra pessoa trans, que entendesse e tivesse um senso de empatia mais universal pela experiência daquela pessoa, e seu impacto ao ser filmada e explorada.

* Daniel Oliveira foi presidente do júri Abraccine no 28º Cine Ceará.

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