Anjos de Ipanema, ou crítica ao afeto

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Bruno Carmelo*

Entre todos os longas-metragens exibidos no 28º Cine Ceará – Festival Latino-Americano de Cinema, talvez nenhum deles tenha despertado comentários tão díspares quanto Anjos de Ipanema, documentário dirigido por Conceição Senna.

A cineasta decide revisitar o começo dos anos 1970, quando a juventude carioca se reunia em torno do novo píer criado em Ipanema. A experiência comunitária serviu para descobrirem as drogas, o sexo livre, e protestarem pacificamente contra o autoritarismo do regime militar. Décadas mais tarde, Senna reencontra os amigos da época, e pede para que resgatem as principais passagens, anedotas, o dia em que consumiram drogas demais, ou outro em que quase foram presos. Os risos e as lágrimas aparecem com frequência ao longo dos depoimentos.

“É só um filme de amigos, para amigos”, protestaram diversas vozes dentro do Cineteatro São Luiz. Méritos técnicos e narrativos à parte, um dos aspectos que parece mais ter incomodado os espectadores foi a impressão de ser colocado fora do jogo, de testemunhar algo que não foi feito para ele, mas apesar dele. Para as vozes descontentes, a projeção se assemelhou à experiência voyeurista de testemunhar a vida íntima alheia. Sentiram-se intrusos, como quem folheia escondido o diário de outra pessoa.

Mas não dizia a máxima da escrita cinematográfica – e literária, antes dela – que a história se tornaria mais universal à medida que fosse mais particular? “Fale de seu vilarejo e falará do mundo?”. Para além da dificuldade de imersão neste contexto histórico, talvez o incômodo tenha vindo do fato de que os afetos constituem a matéria-prima do filme. Não os dados, documentos, números, e sim uma nostalgia de pessoas idosas relembrando aqueles bons tempos que não voltam mais – não a ditadura militar, deixe-se claro, e sim a resistência à mesma.

Anjos de Ipanema soou como um projeto ingênuo, por tocar numa ferida tão aberta quanto a ditadura através de anedotas pessoais, de um desejo neohippie que parece deslocado no século XXI. Onde ficaria a responsabilidade social, o discurso político, o engajamento? As reuniões no píer serviram apenas como festa, bons encontros, que poderiam ter ocorrido em qualquer outro momento? No ano de 2018 em que a política se torna mais violenta e urgente, evocar o passado histórico com tamanho despojamento equivaleria a uma forma de desprezo pelas dificuldades contemporâneas. Mais do que uma oportunidade perdida, seria uma alienação.

Ao término do 28º Cine Ceará, o documentário não levou prêmios do júri oficial. Não se sabe quais argumentos foram elencados pelos jurados para privilegiar outras obras em detrimento desta. No entanto, no período em que as discussões sobre nosso passado se tornam fundamentais, o projeto soou anacrônico. Algumas décadas atrás, talvez o saudosismo fosse bem-vindo. Ora, hoje cobra-se posicionamento, representatividade, erudição, politização do discurso, como formas essenciais de combate ao desprezo pelos fatos e pela História. A colagem de cenas de risadas, ao final de Anjos de Ipanema, coroou a aparência de feel good movie sobre um regime de trevas. Mas talvez estes não sejam tempos para sorrisos fáceis.

* Bruno Carmelo foi júri Abraccine no 28º Cine Ceará.

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