Dossiê: 20 anos do Canal Brasil – Parte 2

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A “Casa do Cinema Brasileiro” abre espaço nobre para o curta-metragem

Maria do Rosário Caetano

O Canal Brasil, para muitos de seus espectadores, é uma espécie de cinemateca digital, ponto de encontro privilegiado com a produção nacional do passado e do presente. Seja um filme do Cinema Novo, uma chanchada de Oscarito & Grande Otelo, um clássico de Humberto Mauro ou um filme contemporâneo que tenha passado rápido pelo circuito comercial. Ou que seja um blockbuster. Ou “tanque” como dizem os hispânicos. Vale programar do filme mais alternativo e experimental aos campeões de bilheteria do naipe de  “Tropa de Elite”, “Dona Flor” ou “Minha Mãe é Uma Peça”.

É imensa a chance de um novo filme – seja ele “Que Horas Ela Volta?”, “Aquarius”, “Sinfonia da Necrópole”, “Gabriel e a Montanha” ou “Era o Hotel Cambridge” — chegar à telinha do canal 100% brasileiro (na verdade, 99%, já que em sua grade há — felizmente — espaço garantido, na valiosa Sessão Cone Sul, para longas-metragens de nossos vizinhos hispano-americanos).

 Para um segmento dos espectadores, o Canal Brasil é sinônimo de madrugadas picantes, nas quais são exibidas comédias eróticas que acabaram aglutinadas sob o pouco preciso rótulo de pornochanchadas.

Os amantes do samba e da MPB têm na emissora parceira permanente. Shows de artistas de imensa importância são apresentados na íntegra no Canal. E um programa, que está há anos no ar, simboliza este diálogo seminal com o melhor de nossa criação musical: o “Som do Vinil”, apresentado semanalmente por Charles Gavin. Pelo menos duas de suas edições – uma sobre o elepê do “Quarteto Novo” e outra sobre o “Araçá Azul”, de Caetano Veloso – merecem figurar nos anais do que de melhor fez a TV brasileira para a difusão de nossa inventividade musical (até Dizzie Gillespie reconhece que brasileiros, cubanos e norte-americanos fazem a melhor música popular do mundo).

 Lázaro Ramos é outro dos nomes que hoje são profundamente identificados com o Canal criado para ser vitrine da produção nacional. Há mais de uma década, ele apresenta seu “Espelho” para que nele nos miremos. Um programa de alma black, que conversa com artistas da grandeza de Ruth de Souza, Zezé Motta e Milton Gonçalves, e também com brancos e mestiços. Gostamos de nos mirar no Espelho, porque seu artífice, Lázaro, é um discípulo (mesmo que ele nunca tenha pensado nisso) de Paulo Freire. Ou seja, sabe ouvir, tem curiosidade pelo outro, quer aprender. Nunca quer falar mais que o entrevistado.

Outro programa notável do Canal Brasil, e dos mais duradouros, pois foi ar em suas primeiras horas, é o “Cinejornal”. Uma revista semanal que registra os bastidores de nossa produção audiovisual, os melhores momentos dos festivais e ótimas entrevistas. E com enfoque nacional, já que viaja por todos os Brasis.

Para os jovens que estão nas escolas de cinema ou realizando seus primeiros filmes, a emissora se fez notável graças ao Prêmio Canal Brasil de Curta-Metragem. Ele foi criado antes do 18 setembro de 1998. Como assim?

Muito simples: antes que a exibição do filme “Sonho Sem Fim”, de Lauro Escorel, sobre o pioneiro Eduardo Abelin (1900-1984), desse por inaugurado o Canal Brasil, o Consórcio que o concebera já trabalhava na montagem de acervo audiovisual.

 E quem chegava com o propósito de ser uma “Cinemateca digital do cinema brasileiro” (hoje, o Canal se define como “a Casa do Cinema Brasileiro”) não poderia prescindir da força renovadora e revitalizadora do curta-metragem. Por isto, nos meses que antecederam a inauguração, o Consórcio patrocinou as primeiras premiações daquele que nasceria com o nome de Prêmio Aquisição Canal Brasil. Um incentivo que garantiria vitrine de exibição para o premiado, ofertaria bom valor em dinheiro e um belo troféu. E que poderia premiar um ou dois filmes, em vários festivais. Hoje, são doze os certames em que o comando do Canal Brasil convoca comissões para premiar a produção de curta duração.

Houve um momento em que o prêmio abandonou a palavra “aquisição” e adotou o nome definitivo de Prêmio Canal Brasil. Pois nestes 20 anos (e muitos meses) já foram premiados 205 filmes curtos. E os 12 melhores de cada ano, segundo o júri formado com críticos oriundos de todas as regiões do país, participam, no final da temporada anual de festivais, do Grande Prêmio Canal Brasil. Aí, com juri formado com a prata da casa (alguns dos apresentadores dos programas mais tradicionais do Canal Brasil), se elege o melhor dos melhores. Que faz jus a prêmio especial no valor de R$50 mil. Criado em 2006, o Grande Prêmio já destacou 12 filmes. Neste ano do vigésimo aniversário do Canal, será realizada, portanto, a décima-terceira edição do melhor dos melhores.

Quem já participou dos juris do Prêmio Canal Brasil de Curta-Metragem sabe que a liberdade de escolha é total. Críticos gostam de premiar filmes inovadores, instigantes, que fazem avançar a linguagem do cinema. Se esta for a decisão do colegiado, que costuma reunir de cinco a onze integrantes, perfeito. Se, porém, pintar um filme de narrativa clássico-empolgante, elegê-lo será decisão soberana dos votantes. É nestas duas principais vertentes que têm-se concentrado os votos dos muitos júris formados para eleger o vencedor do Prêmio Canal Brasil.

Há liberdade para se escolher um filme de curta duração seja ele um documentário, uma ficção, uma animação ou um híbrido. Caso de “Dossiê Rebordosa” e “Torre”, ambos premiados, que são animações e são também documentários. Para a “Casa do Cinema Brasileiro” o que importa é servir de vitrine à produção nacional, em toda sua pluralidade.

Ah, não podemos esquecer: o Canal Brasil é, também, a emissora que transmite, anualmente, três importantes festas do cinema ibero-americano: a noite dos Kikitos, o prêmio símbolo do Festival de Gramado do Cinema Brasileiro e Latino, o Grande Prêmio Brasil do Cinema Brasileiro – Troféu Grande Otelo (patrocinado pela Academia Brasileira de Cinema) e os Prêmios Platino, outorgados pela Fipca (Federação Ibero-Americana de Cinema), pela Egeda (Arrecadadora de Direitos Autorais Ibero-Americanos) e pelas Academias de Cinema da Península Ibérica e América Latina.

Os cinéfilos e os estudiosos do cinema brasileiro devem muito ao Canal que agora chega aos vinte anos.

André Saddy com Gilberto Gil no lançamento do programa "Amigos, Sons e Palavras"

André Saddy com Gilberto Gil no lançamento do programa “Amigos, Sons e Palavras”

Canal Brasil: Como é gostoso de ver!

Adolfo Gomes

O pesquisador, escritor e curador Remier Lion resumiu bem, no insuperável título do ciclo que organizou na Cinemateca Brasileira, há quase duas décadas, sobre a produção nacional desgarrada do status crítico e artístico: “Cinema Brasileiro: A vergonha de uma Nação”. Era assim, devemos reconhecer. E se alguma coisa mudou de maneira significativa nestes últimos 20 anos, não seria exagero afirmar que o Canal Brasil teve papel fundamental no reconhecimento histórico e afetivo da nossa própria imagem.

Não fosse pela permanente inventividade da sua programação visual, a versatilidade da sua produção de conteúdos originais e pelo seu representativo e ainda crescente alcance (está disponível em praticamente todas operadoras de TV por assinatura no País); o Canal Brasil é, por excelência, o espaço mais democrático de difusão do audiovisual brasileiro.

Dos filmes contemporâneos aos clássicos inaugurais da filmografia brasileira, “o” Canal trata a todos como iguais, uma utopia de equanimidade no ar 24 horas por dia…Neste contexto tão rico e generoso, há uma sessão, no começo da madrugada, que é como um oásis de nostalgia para as gerações pós-quarenta anos, algo sensualista e, ao mesmo tempo, inocente; e também fonte de imprevisíveis descobertas para os mais novos. Estamos falando da faixa de filmes tão bem designada pela  “alcunha” memorialista: “Como era gostoso o nosso cinema…”

Menos uma lembrança derrisória e mais uma constatação faceira, esse segmento de filmes, que ora oscila da comédia erótica ao drama social, passando pelo thriller psicológico (terror e suspense) e o “western feijoada” – com  a nudez (também no sentido da franqueza, da frontalidade da vida, dos desejos, preconceitos e subversões naturalistas) como elo comum e de aproximação – constitui um bastião reconciliatório com o que temos de mais resiliente na alma nacional: a nossa ambiguidade criativa e elasticidade moral.

É claro que admitir isso implica em incorporar um tanto da misoginia, das corruptelas do nosso trato habitual com o cotidiano e até do racismo ainda latente entre nós; mas quem pode, mesmo hoje, negar que tais práticas e concepções continuam incrustadas no modos operandi brasileiro? Imagens e representações que incomodam,  é verdade; porém jamais devem ser ignoradas, varridas para debaixo do tapete da boa consciência, do politicamente correto.

A possibilidade de acessar e refletir sobre o imaginário nacional, do qual o cinema é também espelho e projeção; não deve ter filtros, nem censuras. Enfrentar o que somos, no que há de belo, alegre e original; e no que há de condescendente com a corrupção, com as desigualdades e com as violências sociais, tão presentes na nossa realidade como País; é uma questão de cidadania, de amadurecimento enquanto sociedade plural e miscigenada. Antídoto contra a invisibilidade das nossas grandezas e falhas, é sempre gostoso de ver, o Canal Brasil!

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O trabalho de cinemateca

Gabriel Carneiro

Nos últimos anos, o Canal Brasil tem feito mais apropriadamente o trabalho das cinematecas, ao difundir, exibir e disponibilizar uma série de filmes brasileiros. Nesse sentido, um dos principais destaques é a sessão Como era Gostoso (o nosso cinema), que permite que filmes diversos soterrados pela historiografia possam ser redescobertos e reavaliados criticamente. Filmes populares, em sua maioria de cunho erótico, realizados na Boca do Lixo e no Beco da Fome – mas não só -, que obtiveram sucesso nas bilheterias e meio que desapareceram. Com o HD, agora ainda podemos ver tais filmes numa qualidade só vista anteriormente nas próprias exibições da época. É uma oportunidade incrível poder ter acesso a filmes como A mulher que inventou o amor (1979), de Jean Garrett, Onda Nova (1983), de José Antonio Garcia e Ícaro Martins, Pecado horizontal (1983), de José Miziara, O inseto do amor (1980), de Fauzi Mansur, e O convite ao prazer (1980), de Walter Hugo Khouri, só para ficarmos em algum exemplos.

Luiz Carlos Barreto com o Zelito Viana, dois dos sócios do canal

Luiz Carlos Barreto com o Zelito Viana, dois dos sócios do canal

Canal Brasil: Sessão Cone Sul

Ivonete Pinto

A Sessão Cone Sul preenche as noites de domingo dos brasileiros e é destinada a exibir “o melhor dos hermanos”.

Valorizar a cinematografia dos países latinos, mais do que reconhecer que ela produz safras de dar inveja, é permitir que os brasileiros vejam e revejam filmes importantes que de outra forma não teriam acesso. Muitos  passaram raspando pelo circuito comercial, ou sequer foram lançados aqui.

Pinçando apenas um título das centenas até hoje exibidos: Mundo Grua. O filme de Pablo Trapero inaugurou a segunda fase da Sessão, em 2007, que apresentou 27 obras. Com ecos neorrealistas, pode ser destacado como um marco de uma geração do (novo)  cinema argentino que trouxe o real para a ficção. Trouxe também a ideia de que filmes pequenos, de orçamentos modestos, podem revelar grandes realizadores  se os roteiros forem bem desenvolvidos e a direção não se engessar por dificuldades de produção. Ilustrativo ao refletir sobre a crise econômica argentina dos anos 90, Mundo Grua segue sendo inspirador sobre como, através do cinema, é possível perceber a urgência de certos temas e dar respostas no calor da hora.

Atores com intrínseca identificação com o cinema latino, Chico Diaz, Maria Luísa Mendonça e  Jean Pierre Noher (atual) foram os anfitriões destas jornadas latinas noite adentro, apresentando cada filme com seus devidos contextos. Uma ideia que sintoniza com as práticas cineclubistas e assim temos o que o Brasil mais precisa, que é a formação de público.

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