Diário de um Festival

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Marco Antonio Moreira Carvalho*

O Festival de Brasília de Cinema Brasileiro chegou à sua 51º Edição com uma estrutura muito bem organizada e uma seleção de longas e curtas metragens que priorizam a diversidade de temas e de realizadores. Na abertura, tive a oportunidade de assistir a exibição de dois trabalhos em “Hors-Concours”: o curta “Imaginário” de Cristiano Burlan e o longa metragem “Domingo” de Clara Linhart e Fellipe Barbosa (que dirigiu “Gabriel e a Montanha”). “Imaginário” faz um breve relato sobre importantes acontecimentos políticos do país por depoimentos e declarações realizadas em áudio e imagem e procura nos sensibilizar no conhecimento da história deste país para entendermos nosso presente político. É um filme didático que teve um grande trabalho de pesquisa e que chega num momento importante para nossa conscientização política. Numa montagem criativa, o diretor soube usar a linguagens inerentes ao formato do curta metragem para criar interesse do espectador e realizar um trabalho ímpar sobre as questões políticas do Brasil. “Domingo” é um filme repleto de personagens diferentes que revelam num encontro familiar de domingo, suas diferenças de classe, de opinião, de perspectivas, de interesses, de comportamento. O filme cria um núcleo de metáforas sobre o Brasil pelos seus personagens e situações inteligentemente bem desenvolvidas num roteiro desafiador que certamente provocará polêmicas quando chegar ao circuito comercial. Ao assisti-lo, lembrei-me de “Um Sonho de Domingo” de Bertrand Tavenier, mas numa perspectiva mais política e social. “Domingo” é um filme que merece atenção!

Além da exibição destes filmes, na abertura do festival, duas premiações foram destaque com a entrega da medalha Paulo Emílio Salles Gomes (um dos fundadores do festival e um dos maiores pensadores do cinema brasileiro) para o mestre Ismail Xavier e Walter Mello (também um dos fundadores do festival) e o Prêmio Leila Diniz (em homenagem a atriz que deixou forte influência na arte brasileira) para a atriz Ítala Nandi (uma das atrizes de “Domingo”) e a montadora paulista Cristina Amaral. O prêmio ABCV foi entregue ao corpo docente do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade de Brasília e o profissional de cinema Roque Fritsh (falecido recentemente) foi homenageado. Na coletiva de imprensa dos dois filmes, muitas perguntas e respostas que ajudaram a entender a concepção e escolhas dos realizadores nos dois filmes que devem ser lançados em breve no circuito comercial.

No segundo dia do festival, a mostra paralela “Onde Estamos e para Onde vamos?” exibiu dois documentários: “Elegia de um Crime” de Cristiano Burlan e “Nós” de Pedro Arantes. “Nós” é um documentário que revela três casos de pessoas “desaparecidas” que foram assassinadas em similaridade com muitos fatos que acontecem diariamente no país. O filme mostra o drama das famílias que perderam seus familiares, mas ainda tem esperança de encontrá-los. “Nós” é um filme que procura sensibilizar o espectador pelas histórias de luta dos familiares e denuncia a falência das gestões públicas de segurança que não encontram solução para estes e outros casos que ocorrem no país. Na mostra competitiva, foram exibidos os curtas “Boca de Loba” de Barbara Cabeça e “Kairo” de Fábio Rodrigo e os longa metragens “Torre das Donzelas” de Susana Lira e “Los Silêncios” de Beatriz Seigner. “Boca de Loba” é uma alegoria feminista com linguagem experimental que questiona as diversas formas de pressão e assédio que as mulheres sofrem diariamente. É um filme oportuno para este positivo contexto de questões feministas e suas diversas configurações. “Kairo” mostra a história de um estudante de escola pública que teve sua família como vítima de uma chacina. Uma assistente social leva o menino para passear enquanto toma coragem de dizer o que aconteceu. É um filme de narrativa simples que é direto na sua mensagem de discutir esta realidade presente em diversos centros urbanos do Brasil. Boas atuações e ótima fotografia revelam um diretor que merece atenção.

“Torre das Donzelas” foi muito aplaudido. O documentário mostra a prisão onde várias mulheres foram presas no período da ditadura militar num local que ficou conhecido como “Torre das Donzelas”. Diversos depoimentos emocionados e emocionantes de sofrimento e resistência surgem no filme que procura posicionar o espectador sobre tudo que estas mulheres viveram dentro deste local. Surpreendentemente, o filme não foca apenas no sofrimento delas, mas na forma como estas presas, que inclui a ex-presidente Dilma Roussef, souberam lidar com todo o contexto. A união, o compartilhamento de ideias e cultura e a solidariedade entre elas ajudaram a resistir. “Torre de Donzelas” gerou um ótimo debate na coletiva de imprensa onde diversas personagens do filme estiveram presentes. É um filme interessante que provocará boas reflexões sobre o passado político brasileiro. “Los Silencios” é um filme encantador. O filme mostra a história de Amapo e seus dois filhos, Núria e Fábio, que fogem para uma ilha desconhecida, fugindo dos conflitos armados na Colômbia. Durante o processo de adaptação e sobrevivência, Amparo tem que se equilibrar entre seus dramas e buscar formas de sobrevivência. A diretora Beatriz Seigner trabalhou no seu filme no desenvolvimento de uma narrativa real-imaginária que impressiona formalmente e se consolida pelo roteiro brilhante e utilização de silêncios e cores que lembra o cinema produzido por alguns diretores na Ásia. O filme é uma agradável surpresa e deve agradar os cinéfilos que admiram um cinema mais autoral e significante.

O Festival de Brasília de Cinema Brasileiro continuou sua programação com exibição de filmes singulares que provocaram boas reações do público que prestigiou o Cine Brasília (cinema tradicional da cidade que teve reformas em 2013 e tem ótima projeção e som). Os curtas “Liberdade” (análise sobre a diversidade nem sempre considerada do bairro em São Paulo) e “Sempre verei Cores em seu Cinza” foram destaque. “Sempre verei cores…” é um filme ensaio sobre a situação da Universidade do Rio de Janeiro e mostra performances de protesto sobre a atual crise estrutural e educacional da instituição. O longa brasiliense “New Life S/A” mostra a história de um jovem arquiteto à procura de um sentido para sua vida acreditando que sua profissão pode mudar a vidas das pessoas e suas relações. O curta “Mesmo com tanta Agonia” é um filme que procura revelar as angústias de uma personagem que no dia do aniversário de sua filha, vive um momento trágico. Belo filme, amargo como retrato de tempos modernos tão tristes.

“Luna” trata, entre outros temas, do bullying sofrido por uma jovem. Bem dirigido e com ótima atuaçãos da jovem atriz Eduarda Fernandes, o filme foi muito aplaudido pelo público graças ao seu final polêmico que deve gerar boas identificações do público mais jovem. Produção mineira, “Luna” já tem garantida a sua distribuição no circuito nacional. Dois filmes de temáticas políticas geraram bons debates na coletiva de imprensa: o curta “Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados” (sobre a invasão de terras por movimentos populares) e “Bloqueio” que procurou fazer um registro documental sobre a paralisação dos caminhoneiros este ano no Brasil. Ambos registram e refletem sobre o momento político e social brasileiro de forma provocante e corajosa. O curta “Aulas que matei” tem uma imersão na vida de alguns estudantes de uma escola e mostra suas dificuldades e resistência no processo educacional que estão inseridos. Mas “Ilha”, é certamente, o filme mais provocador do festival. Com momentos que lembram o cinema marginal brasileiro, o filme procura alternativas estéticas para contar histórias. Aplaudido no final da sessão, “Ilha” será um dos filmes mais comentados do ano. Outro destaque do festival foram “Temporada” e o documentário “Bixa Travesty”. “Temporada” foi o vencedor do festival e conta a história de Juliana (Grace Passô) que está saindo de Itaúna, no interior de Minas Gerais, para morar em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Seu novo emprego cria situações pouco usuais e apresenta para ela pessoas novas, que começam a mudar sua vida. “Bixa Travesty” é sobre Linn da Quebrada, cantora transexual negra que revela sua vida como artista e luta pela desconstrução de estereótipos de gênero, classe e raça. Filme oportuno que foi muito aplaudido pela plateia.

Parabéns aos organizadores do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro pela organização e filmes selecionados.  Agradeço o convite da ABRACCINE para participar do júri da associação neste festival.

* Marco Antonio Moreira Carvalho foi membro do júri Abraccine no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

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