A dor da perda e o resgate da memória em BR 716

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Luiza Lusvarghi

Ao lançar seu filme, Barata Ribeiro 716, em 2016, em Gramado, Domingos de Oliveira ganhou os prêmios de melhor filme, melhor direção e melhor trilha, o que mereceu dele o seguinte comentário: “Ganhei o prêmio de melhor DJ da noite”.  A frase fazia alusão ao fato do filme ter se valido de gravações pessoais de músicas dos anos 1960, recurso utilizado na verdade para baratear os custos do filme. Além dessa homenagem, o longa ainda levou pra casa o Kikito de melhor atriz, feito conquistado pela atriz Glauce Guima no papel da bipolar Bel, que animava as festas do personagem principal, Felipe, alter ego de Domingos – ou ego, como ambos preferem – vivido pelo ator Caio Blat.

Em termos de resgate de uma época, o longa completa uma trilogia que se iniciou com Todas as mulheres do mundo (1966), filme que consagraria definitivamente Leila Diniz no imaginário nacional, e que mescla memórias e ficção, e Edu Coração de Ouro (1967). Barata Ribeiro 716 tem uma abertura e um final em cores, para demarcar o tempo presente, e se torna P&B quando o protagonista volta ao passado precisamente no período que antecede a queda de Jango, em seu apartamento da rua Barata Ribeiro, 716, em Copacabana. Oliveira, sempre irônico, afirmou em coletiva que o recurso do P&B era mais garantido, uma vez que os diretores de fotografia eram novatos. A fotografia foi também a estratégia do cineasta para se aproximar da Copacabana daquele período, e apesar de ser um recurso muito utilizado pelos cineastas mais recentes, em especial pela turma do mumblecore, dentre os quais a dupla Greta Gerwig e Noah Bumbachn, ao lado de Bem Stiller, se sobressaem, não soa em nenhum momento como gratuita.

A trama é alinhavada pelas recordações nem sempre cronológicas. O filme é um exercício narrativo em tom memorialístico dos mais deliciosos, narrando a história de Domingos – parcialmente verdadeira –  em seu apartamento em Copacabana, dado pelo pai (o ator Daniel Dantas) como presente de casamento. A mulher Adriana, interpretada por Maria Ribeiro, decide se separar dele para viver com seu melhor amigo João Manuel (Álamo Facó). Medeiros curiosamente tem um longa-metragem documental sobre o cineasta, intitulado Domingos. Deprimido, sem trabalho, Blat-Oliveira se entrega a festas sem fim no apartamento, que acaba se tornando o refúgio dos amigos boêmios, militantes, que emendam uma festa na outra. Em uma das festas, ele acaba se apaixonando por Gilda, cujo verdadeiro nome nunca é mencionado – interpretada pela atriz Sophie Charlote  – e que sonha em ser diva e cantora, mas acaba aderindo à militância política.

Segundo Domingos, o roteiro, embora fincado em memórias reais, só traz um personagem não ficcional – o jornalista Carlinhos de Oliveira, personificado por Pedro Cardoso que faz uma ponta no papel de um jornalista mulherengo e misógino, levando para o apartamento a suburbana Sara.   A atriz Aleta Valente, que faz Sara, foi descoberta de Eduardo Coutinho em Jogo de Cena. Seu longa de despedida, tão nostálgico, retoma questões extremamente atuais. Discute a função da política no cotidiano afetivo, a questão da militância, tão em voga no país de Bolsonaro. A geração de Domingos, como ele mesmo enfatizava, era existencialista, prezava a cultura, o debate intelectual. Para ele Sartre e a questão da ação indivídual foram sempre mais importantes do que Marx. Ele foi um intelectual das subjetividades políticas, do poder do afeto, inquieto com a dimensão da existência humana em um tempo tão dominado pela tecnologia e pela manipulação da consciência. Sempre associado à geração desbunde, era tido como um cineasta menor pelo “pessoal do Cinema Novo”.

As canções do período, em que pontuam gravações como America e Guantanamera do chicano Trini Lopez, surgem de forma rápida e pontual, como comentários, contextualizando a relação despreocupada e inconsequente  daqueles jovens com o contexto político que antecede o Golpe de 64 e é interessante como esse detalhe acaba atualizando a narrativa. É esse olhar do presente sobre o passado que faz do filme uma obra ímpar e necessária. Domingos era um poeta, que sabia fazer da dor representada a dor que sentia deveras. Suas lembranças cinematográficas evocam o reconhecimento da perda. Seu roteiro é onírico mas bem amarrado: “Curto circuito do inconsciente não é a minha praia”.

Apesar de se consideram um escritor convencional e disciplinado, ele dava liberdade para que toda a equipe participasse, como no caso da atriz Glauce Guima, que digitou os roteiros: “se a cena rende, ele depois incorpora”. As festas do filme foram verdadeiras, e funcionaram como preparação para as filmagens. Em um dado momento, Caio Blat passou a se sentir o próprio Domingos, “recebendo pessoas lindas naquele apartamento”. Essa sensação de intimidade permeia o filme e lhe dá vida própria. Muitos figurantes criavam histórias próprias e até Paulo José, o Edu, apareceu em cameo.

Domingos dizia que nunca fez o filme que quis, mas o que podia fazer, e gostava de filmar produções baratas. E assim, sempre libertário, ele fez tudo que devia ter feito, e deixou um legado da maior importância para o cinema nacional.

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