A energia e a liberdade de O Funeral das Rosas

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Ivonete Pinto*

Já é característica do Olhar de Cinema apresentar títulos estrangeiros garimpados em festivais internacionais de prestígio. Fato que só se confirmou nesta oitava edição, com produções como o espanhol Entre Duas Águas, de Isaki Lacuesta, lançado em San Sebastian, e o belga Etangs Noirs, de Pieter Dumoulin e Timeau de Keyser, exibido no London Film Festival.

Afora os lançamentos, destaca-se o esforço dos curadores para exibir filmes que nos estimulam  a embarcar em um novo interesse de cinefilia e de pesquisa , como a preciosidade há pouco  restaurada, o japonês O Funeral das Rosas (Bara no sôretsu, 1969), programado na seção Olhares Clássicos.  Estreia na direção em longa-metragem de Toshio Matsumoto, o filme passou por processo de restauração envolvendo 400 horas, num trabalho entre Tóquio e Los Angeles.  Trazê-lo para a tela de um cinema é uma iniciativa de imenso valor.

Um dos principais expoentes da nouvelle vague japonesa, O Funeral das Rosas é ilustrativo do período transgressor pelo qual passou o cinema japonês nos anos 60. Mesmo cinéfilos conhecedores ao menos de um pouco da história desta fase  ─  no Brasil, conta-se com o raro livro de Lúcia Nagib “Em Torno da Nouvelle Vague Japonesa” (Unicamp, 1993) ─, tinham dificuldade até recentemente para ter acesso ao filme. E, reiterando, vê-lo na tela grande significa contemplar a diferença  entre cinema e televisão/computador. É possível, hoje, fazer download do filme, mas a experiência é outra. Sempre é outra.

O Funeral das Rosas inicia com uma cena absolutamente cinematográfica: planos fechados em mãos que acariciam corpos, de costas, em um preto e branco com contraste suave,  remetendo à abertura de nada menos que Hiroshima mon Amour (Alain Resnais, 1959). O que veremos é algo nesta linha do poético, sobre a memória, sobre a guerra? Não exatamente. O Funeral é um filme muito louco, único, um documento histórico, estético e político de um Japão que havia passado há poucos anos por uma guerra também única, mas que deixa o espectador atordoado (e encantando) com o constante virar de chave da narrativa.

Há qualquer coisa ali que não poderia se realizar em outro meio, ou outra época, embora a obra  não tenha envelhecido. Longe disto. Na sinopse temos a informação de uma inspiração em Édipo Rei e vemos cartazes de uma montagem da peça em pelo menos uma das cenas. Portanto, não seria spoiler mencionar (aliás, não existe isto de  spoiler sobre filme antigo) que há um incesto, que o personagem fura os próprios olhos. Este é apenas um ingrediente ─ forte, mas apenas mais um ─ neste filme cheio de elementos, do tema principal ao enredo, dos personagens fora do padrão, à forma livre de expor o enredo. Este talvez seja o traço que mais impressiona: a total liberdade narrativa de O Funeral das Rosas. Ora drama, ora comédia, ora terror, ora documentário,  mais parece um filme bollywoodiano onde todos os gêneros escorregam de um para o outro, com direito à intervenção de cartelas humorísticas e trechos em animação que comentam a cena.

O cinema marginal (de invenção, ou udigrude) pode ser evocado numa percepção muito particular em função do deboche e da desestrutura narrativa. Em especial Bang Bang (1971), de Andrea Tonacci. No entanto, o parentesco deve ser mesmo atribuído aos cinemas novos que eclodiram nos anos 60, com matriz na  nouvelle vague francesa e suas invenções no ato de narrar. Basta lembrarmos que Godard fez Pierrot le Fou em 1965, também brincando com a mistura de gêneros, porém o fato é que se identificam filmes de vanguarda  no Japão, em que ganhou o nome de nouvelle vague, já no final dos anos 50. E paradoxalmente, pois a imagem consagrada da cinematografia japonesa  está mais para os clássicos Yasugiro Ozu, Akira Kurosava e Kenji Mizoguchi, onde tudo é certinho, regrado, sóbrio e reprimido.

A nouvelle vague japonesa (Noberu Bagu) não é considerada por muitos pesquisadores uma escola, nem mesmo um movimento, mas um agrupamento de filmes surgidos concomitantemente à nouvelle vague francesa, tendo rompido com padrões de produção, de estética e de linguagem e que rendeu mais de 20 filmes. Entraram em voga questões sociais, geracionais e um novo papel para as mulheres nas tramas (as personagens deixavam de ser as donas-de-casa idealizadas para assumirem todo tipo de protagonismo, inclusive  o de bandidas).

 Neste agrupamento vemos uma obsessão temática pelo sexo, mas  a transgressão maior fica por conta de O Funeral ao dar o personagem principal ao que, à época, chamavam de “travesti”. Hoje a nomenclatura seria outra (mulher trans, como traz o catálogo do Olhar de Cinema), mas é o que menos importa. Importa o ineditismo e a ousadia como um todo. Centrado na figura de Eddie (Pîtâ/Peter), a trama envolve outra trans com quem divide o amante, o dono de um clube noturno batizado de Genet. A partir deste argumento estabelecem-se outras relações, notadamente  com o passado de Eddie e com a reação violenta da mãe à sua orientação sexual. Tudo isto,  sempre passando pela quebra de gênero e muitas vezes acontecendo através de imagens documentais. Característica da nouvelle vague francesa, esta exploração do real é para um espectador ocidental ainda mais interessante. Ver as ruas de Tóquio pegando fogo com as insurreições estudantis, ou simplesmente observar os transeuntes que olham para a câmera porque a montagem teve a liberdade de mantê-los assim, é revelador.  Cenas desta natureza podem ser vistas, por exemplo, no pioneiro e censurado Noite e Neblina no Japão (1960 ) e Diário de um Ladrão de Shinjuku (1968), ambos de Nagisa Oshima.

O real  é matéria-prima para Toshio Matsumuto, onde lança mão em de entrevistas com pessoas trans. Aparentemente ele próprio o entrevistador, utiliza estes momentos como rupturas para construir uma narrativa em abismo, um filme dentro do filme, com direito a equipe usando marijuana e umas gotinhas mágicas. Artifício  para distorcer a imagem e loquiar mais um pouco.

Com a carreira voltada sobretudo para o curta-metragem, Matsumoto  apostou na experimentação. O Funeral das Rosas  é seu filme mais conhecido, embora Shura (1971), um ronin-horror em estilo teatral, tenha causado. O Funeral pesa a mão no horror também, até para cumprir o que a sinopse promete. Mas é um horror jocoso. Nas sequências finais, com a descoberta da identidade dos amantes e a autopunição a la Sófocles, Eddie vai cambalear em frente aos curiosos na rua. Num registro que mistura ficção com imagens documentais, envereda naturalmente ao grotesco, sem medo. Resta ao espectador sair do impacto da descoberta filial, em registro de  profundo drama, para a cena de rua da agonizante Eddie, em profundo overacting. Mais do que uma piscadela ao exagero do melodrama, Matsumoto busca o distanciamento, sem abrir mão da liberdade.

* Ivonete Pinto foi presidente do júri Abraccine no 8º Olhar de Cinema em Curitiba.

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