Dossiê Cine Pe: Espero tua (Re)Volta

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Robledo Milani*

Escolhido como o melhor longa-metragem brasileiro da mostra competitiva nacional do 23o CinePE – Festival do Audiovisual pelo Júri da Crítica, formado por membros da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Espero Tua (Re)Volta, de Eliza Capai, também foi consagrado como o grande vencedor do evento de 2019 pelo júri oficial. Não chega a ser exatamente raro uma coincidência como essa, com as duas equipes de avaliadores – os críticos e os convidados do festival, estes geralmente formados por membros da indústria cinematográfica, como cineastas, atores e técnicos – indo para um mesmo caminho. No entanto, cada vez que essa repetição toma forma, é também um motivo de júbilo, pois aponta com precisão a sintonia existente entre os atentos observadores presentes no evento.

Capai teve como palco da primeira exibição pública do seu terceiro filme neste formato – após Tão Longe é Aqui (2013) e O Jabuti e a Anta (2016) – o prestigioso Festival de Berlim, na Alemanha, de onde saiu duplamente premiada, com os troféus da Anistia Internacional e o Prêmio da Paz. Só pelo caráter de ambos reconhecimentos já se é possível denotar o potencial argumentativo da produção. Com Espero Tua (Re)Volta, a diretora não está, necessariamente, apresentando algo novo. Seu foco está nos protestos estudantis que tomaram conta do cenário político do país a partir de 2013. 

Primeiro motivados pelo aumentos das passagens do transporte urbano em São Paulo, aos poucos um amontoado de indignações foram se acumulando e extrapolando fronteiras e limites sócio-geográficos. Educação, família, conservadorismo, direita e esquerda, formação de carreira, saúde, militares e polícia civil: tudo acabou, de uma forma ou de outra, entrando em pauta. Eram vozes que não podiam mais permanecer caladas. Agora, se foram ouvidas na medida certa e de acordo com suas intenções originais, bem, esse parece ser uma questão seguinte, e o filme não se exime, também, desta observação.

Ao assumir como protagonistas três jovens da periferia, Eliza Capai coloca em evidência também para que lado se dirige sua narrativa. Mesmo assim, há esforços para que o panorama desenhado seja amplo, tanto em suas convergências como em dissociações. Mais do que o conteúdo que aborda – que já havia sido explorado por outros títulos similares e anteriores, como Escolas em Luta (2017) e Eleições (2018), apenas para citarmos os de maior destaque – Espero Tua (Re)Volta conquista também pelo formato que assume no seu desenrolar dramático e documentativo. Soa quase didático em suas explicações, mas estas não são feitas por um olhar externo. Pelo contrário, são garotos e garotas que viveram de perto estes conflitos aqui detalhados, oferecendo suas visões, ideias, conquistas e frustrações. O resultado, como se poderia imaginar, é contundente e arrebatador.

Assim, temos um filme que, além dos elementos extra-fílmicos que cercaram sua exibição no palco do Cine São Luiz, em Recife, possui méritos suficientes para se manter em pé por conta própria, a despeito das (falta de) qualidades dos seus concorrentes. Por tudo isso, sua escolha como o merecedor do troféu da crítica se fez não apenas aguardada, mas também absolutamente justa.

* Robledo Milani foi júri Abraccine no 23º Cine Pe – Festival Audiovisual

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