Dossiê Cine Ceará: Luciénargas

Luiz Zanin*

De vez em quando acontece de um filme bem interessante sair de um festival sem qualquer menção dos júris. Foi o caso de Luciérnagas, do México, ignorado na premiação do 29º Cine Ceará. Nem sempre é culpa dos jurados. Simplesmente eles decidem que têm algo melhor ou mais urgente a premiar e assim o concorrente é esquecido. Vale lembrá-lo, porque, a meu ver, é um belo e delicado filme, um ponto fora da curva na produção ibero-americana. Ficamos na esperança de que encontre lugar em nosso circuito comercial.

Para começar pelo título, Luciérnagas quer dizer Vagalume ou Pirilampo. Como ele não se explica de maneira direta no contexto do filme, pedi ajuda a dois hispanofalantes, um cubano e outro peruano. Queria saber se “luciérnaga” teria algum tipo de conotação homossexual em espanhol. Não souberam responder. No debate, fiz a pergunta à diretora, Bani Khoshnoudi, uma iraniana radicada no México.

Ela disse que o título havia sido inspirado num texto famoso de Pier Paolo Pasolini, “O Vazio do Poder na Itália”, depois conhecido como “o artigo dos vagalumes”. O ensaio ficou tão famoso que inspirou um livro do filósofo francês Georges Did-Huberman, “Sobrevivência dos Vagalumes”, já publicado no Brasil. Para resumir, em seu texto Pasolini fala do fascismo que, para ele, voltava com todo o vigor no início dos anos 1970, e da resistência dos vagalumes, essas pequenas luzes que teimavam em brilhar na mais cerrada escuridão. Premonitório Pasolini, e não apenas em relação à Itália.

O protagonista de Luciérnagas é Ramin (Arash Marandi), iraniano de uns 30 anos que vem de Istambul e dá com os costados no porto mexicano de Vera Cruz. Pouco sabemos do seu passado e o iremos descobrindo apenas com o desenvolvimento da trama. De qualquer forma, ele é um exilado, alguém fora de seu elemento e sem qualquer possibilidade de volta em relação a uma pátria deixada para trás. Descobriremos também mais tarde por que saiu, mas não de uma maneira didática e sim através de uma simples e brutal imagem impressa em seu corpo.

Há o personagem e seu entorno. A diretora filma Veracruz com uma luz um tanto nostálgica, mas apenas na medida justa. Envolve o ambiente, meio decadente, naquela aura portuária clássica, o lugar das aventuras, das possibilidades, das almas perdidas. Vera Cruz é um porto tropical, mas não deixa de lembrar, em momentos, o frio Nantucket, de Moby Dick, com seu narrador, Ismael, à procura de um barco que o leve para longe de sua solidão.

De qualquer forma, o filme é bastante interessante na maneira como capta esse ambiente – ruídos inclusive – de uma cidade portuária, locais de chegada e partida, fronteiriços, que mesclam pessoas de origens diferentes e que lá estão de passagem. É um mundo provisório, ambíguo, talvez ideal para situar um personagem em crise.

Ramin deixou um relacionamento para trás e tenta voltar para a Turquia, de onde partiu, mas não tem dinheiro para a viagem. Conhece outro rapaz, um mexicano que sonha ir para Los Angeles. E faz amizade com a jovem dona de uma pousada onde se hospeda. Todos têm um ponto em comum: querem ir embora de Veracruz.

A cidade mexicana, na verdade, torna-se um personagem do filme, e não secundário. Tudo é filmado em panorâmica, em tom nostálgico (mas não muito, segundo a diretora). Seria totalmente abusivo rotulá-lo como “filme gay”. É muito mais uma obra sobre a errância, a imigração e a solidão. Muito bonito e sensível, oposta numa linguagem narrativa que não entrega tudo de bandeja ao espectador. O passado do personagem principal se revela aos poucos, não abre tudo, e sempre de maneira alusiva. O desejo de fuga é compreensível mas precisa ser deduzido por quem assiste ao filme. Assim como a busca desse problemático “lugar no mundo”, que é sempre em outra parte e nunca onde se está. Sair de Veracruz passa a ser um signo desse reencontrar-se,  de descoberta desse lugar do mundo onde se possa existir de maneira mais plena.

De maneira delicada, o filme fala da homofobia e de como ela se expressa em países de culturas diferentes, porém ambos machistas, Irã e México. Mostra como esse preconceito está incrustado onde menos se espera. Mas, ao mesmo tempo, revela a resistência de quem não se deixa abater, por intensa que seja a sua sensação de desamparo como é o caso de Remin.

Essa é a história bonita – e muitas vezes dura – de Luciérnagas. Deixa uma boa impressão no espectador, não apenas pela maneira como é narrada e interpretada pelo elenco, mas pelo estilo de uma diretora que sabe construir a atmosfera dramática onde tudo se passa. Há nele as questões prementes do nosso cotidiano de intolerância. Mas estas surgem em um ambiente de sutileza imagética que põe a obra num caminho quase metafísico de especulação sobre a finitude humana e a infinitude de sua esperança.

* Luiz Zanin integrou o júri Abraccine do 29º Cine Ceará – Festival Ibero-americano de Cinema

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