Cine-PE 2013 – Alguns olhares do júri Abraccine

Breve observações sobre o 17º Cine-PE

Por Luiz Joaquim, crítico de cinema (PE) e presidente do júri Abraccine

cinepe logoEm 17 anos muita coisa muda. A produção do Cine-PE certamente sabe disso. Com a tímida performance de público nesta última edição, encerrada quinta-feira (2/5/2013), talvez fosse interessante a produtora do Festival, a Bertini Produções e Eventos, repensar o formato de seu mais caro rebento. O indicio mais concreto de que algo não foi tão bem estava no próprio videoclipe resumo desta edição, projetado no encerramento. Na vinheta, enquanto o texto fazia menção ao “maracanã dos festivais”, a fotografia que ilustrava o Teatro Guararapes apinhado de gente era a de uma edição passada.

O Cine-PE deve ter percebido que se há 17, 15 ou 10 anos o recifense se satisfazia com uma dezena de filmes brasileiros agrupados numa semana (independente da qualidade) e com a presença de cineastas e atores, hoje este mesmo espectador precisa de novos estímulos.

Considerando que o objeto número 1 aqui é o cinema, o melhor estímulo a ser implantado só pode ser a excelência de sua seleção. É claro que há um contexto nacional no qual nem sempre é possível elencar meia-dúzia de bons filmes numa mesma semana. Contra isso, busca-se outros atrativos. Estimular o pensamento crítico (seja por filmes novos, retrospectivas, debates interativos), por exemplo, pode surpreender os mais céticos. O mais importante aqui é prezar pela natural fome de bons filmes que fará o publico sair de casa e ir ao gigantesco Centro de Convenções. Não é trabalho fácil, mas é trabalho a ser feito.

PREMIAÇÃO – Festival de um filme só? Sempre que uma mesma produção leva mais da metade dos prêmios num festival de cinema, pode-se pensar, de cara, em três hipóteses. A melhor delas é a que o tal filme é uma obra-prima. A segunda, que o júri pode ter sido benevolente. E a terceira, que as possibilidades competitivas eram frágeis. No encerramento do 17º Cine PE: Festival do Audiovisual as três hipóteses surgiram em busca de uma resposta quando o regular longa-metragem carioca Vendo ou Alugo, de Betse de Paula, saiu com 12 Calungas.

A obra foi contemplada como melhor filme, melhor direção, roteiro, atriz e atriz coadjuvante (Marieta Severo e Natália Timberg), ator coadjuvante (Pedro Monteiro), direção de arte, trilha sonora, montagem, júri popular e o prêmio da crítica, além de um prêmio especial para as atrizes Carmem Verônica, Daisy Lúcidi e Ilka Soares.

No caso desta edição do festival pernambucano, se considerarmos que dos sete longas em competição, quatro eram de ficção, as alternativas tornam-se menores para as categorias ligadas à dramaturgia. O problema numa concentração tão grande de prêmios para um filme que passa longe de ser uma unanimidade, como Vendo ou Alugo, está em fragilizar a força do troféu  – só para citar um de muitas outras questões derivadas daí.

VENDO OU ALUGO – Marieta Severo foi aplaudia de pé na homenagem que recebeu no 17º Cine-PE, e agradeceu recebendo o troféu da colega Natália Timberg, com a qual contracenou pela primeira vez quando debutou no cinema. “Ela era a minha mãe”, lembrou. O filme era Society em Baby-doll (1965), de Waldemar Lima e Luiz Carlos Maciel.

Quase 50 anos depois, ambas voltam a interpretar o mesmo parentesco no cinema. Falamos de Vendo ou Alugo, terceiro longa de Betse de Paula após um hiato de mais de uma década de Celeste e Estrela, exibido no festival do Recife, em 2003.

A coincidência não termina aí. Se no filme dos anos 1960 as protaginistas eram duas mulheres que saíram do subúrbio carioca e passaram a circular com dificuldade pelo alta sociedade da Guanabara após casar com homens ricos, no novo Vendo ou Alugo, as protagonistas – quatro mulheres – estão por conta própria lutam com unhas e dentes para manter-se na mesma alta sociedade.

No caso, temos a embaixatriz Maria Eudóxia (Timberg), sua filha Maria Alice (Severo), a neta Baby (Silvia Buarque) e a bisneta Madu (Bia Morgana). É uma família feminina decandente , morando num maltratado casarão há mais de 50 anos, remetendo em certa medida ao documentário Greys Gardens, de Albert e David Maysles (1975).

A diferença é que o tom no filme brasileiro é o da comédia. Quase um pastelão. Afundada em dívidas, a família vive sob a ameaça de perder a casa em leilão. Para se sustentar Maria Alice faz seus bicos, ora comercializando docinhos eróticos, ora traduzindo manual de armas contrabandeadas pelos marginais da favela instalada logo atrás da mansão.

A trama vai definindo seus contornos quando surge um belga (Nicola Lama) com o interesse de comprar o imóvel e transformá-lo num albergue temático, pelo qual a exotismo está na proximidade com a pobreza e a violência dos morros. Na disputa pela casa aparece um trambiqueiro pastor religioso (Andre Mattos).

Com 89 minutos de duração, Vendo ou Alugo parece durar mais. O roteiro foi escrito pelas dez mãos de Betse, Maria Lúcia Dahl, Mariza Leão, Adriana Falcão, Júlia de Abreu, Adriana Falcão, e as duas do homem do grupo, José Roberto Torero. No enredo, a dinâmica é grande, e da mesma forma que seus diálogos ligeiros envolvem rapidamente o espectador, também os cansam. Crédito para o grupo feminino no protagonismo, em muito boa harmonia na composição da família maluca.

Rio Doce/CDUUMA LUZ NO FIM DO TÚNEL – Se a ideia de um festival de cinema passa pela composição dos filmes, pela platéia e pela interação desta platéia com estes filmes, então a impressão que se tem é a de que o 17º Cine-PE: Festival do Audiovisual começou mesmo na segunda-feira, quarta noite do evento. A sessão competitiva com o primeiro longa-metragem de Adelina Pontual – o documentário Rio Doce/CDU (foto ao lado) – atraiu aparentemente o maior público, até então, desta edição. Se não o maior, certamente foi o mais interativo.

Antes que a razão do sucesso seja taxada de bairrismo – pois o longa é o único pernambucano na mostra competitiva – vale dizer que se o documentário não tivesse as qualidades que possui, não seria o tal do orgulho pernambucano que seguraria o público local. Um público que sabe ser crítico e interativo quando deseja. As qualidades da obra estão na forma, nos personagens, na composição. Tudo orquestrado pela sensibilidade humana de Adelina.

Ao seu lado, ela contou com profissionais que, a olhos vistos, seguem crescendo em suas competências. Entre eles, o fotógrafo Beto Martins (premiado em Brasília em 2009 pelo curta Ave Maria ou Mãe dos Sertanejos, de Camilo Cavalcante); o montador João Maria (do multipremiado “O Som ao Redor”); e Yuri Queiroga com o DJ Dolores na composição da trilha sonora. Atenção também para a técnica de som Catarina Apolônio.

Com tais aspectos técnicos impecáveis – na verdade, mas do que isso: atraentes e elegantes – Rio Doce/CDU situou-se rapidamente entre o público do festival. Num primeiro momento, claro, pela identificação dos espectadores com o cenário humano e geográfico ali retratado. Os mais de 30 quilômetros do percusso que ligam o bairro de Rio Doce, em Olinda, até a Cidade Universitária, no Recife, é tão comum à platéia local que não há como o recifense/olindense em algum momento levantar o braço durante a projeção e, apontando, dizer: “Olha, ali é onde eu…”.

Já os personagens não podiam ser mais representativos de um Recife quente. São personagens concretos pela personalidade forte e calorosa. Por diversos pontos de parada do coletivo que dá título ao filme, Adelina e equipe descem do ônibus para capturar o depoimento de comerciantes, feirantes ou apenas de transeuntes e usuários em sua relação com o bairro e o transporte urbano. Fica claro o carinho da diretora pelos seus personagens. Ficam em segundo plano os problemas, inerentes a uma linha de ônibus insuficiente em quantidade e desconfortável para qualquer cidade grande.

E isto não há nenhum problema aqui uma vez que Adelina não se propõe a uma investigação (acusação) ao transporte público. A cineasta, mesmo assim, não deixa de provocar o espectador diante do crescimento desordenado da Região Metropolitina do Recife na medida em que nos mostra a paisagem que margeia o carro em seu percurso. Toda a obra de Adelina, na verdade, já merece um estudo. Com uma atenção especial dada aos idosos e desvalidos, a diretora firma-se como dona de um olhar muito delicado sobre a generosidade, fragilidade e beleza humana.

O resultado é um retrato de um Recife/Olinda bonito e alegre, quase dourado e sem culpa, através das imagens refinadas de Martins, a fluência narrativa de João Maria e o embalo de Dolores e Yuri. Ao final, tivemos o único longa ovacionado deste Cine-PE. Com aplausos e sorrisos ao final da sessão, além da plateia saindo do teatro enquanto cantarolava a canção Guia de Olinda, com a banda Eddie, na voz de Erastos Vasconcelos.

 

Vendo ou Alugo: A comédia da pacificação idealizada

Por Susana Schild, crítica de cinema (RJ)

Tudo ótimo para a diretora Betse de Paula que deixou o 17º CINE PE Festival Audiovisual com Calunga para dar, vender e alugar – 12 ao todo, incluindo os prêmios de melhor filme para os  júris oficial,  popular e da crítica. Não é pouca coisa e caberá ao tempo questionar  os evidentes excessos de tal concentração.

Vendo_ou_Alugo_imagem 2De qualquer forma, Vendo ou Alugo pode ser um bom trampolim para discussão de um tema que vinha se anunciando com modéstia e ganhou corpo nos debates do evento: a reincidente indiferença ou até desprezo da crítica em relação às comédias, repetição de padrão ocorrido, por exemplo, com as chanchadas e ciclo Mazzaropi, este personagem de pertinente documentário de Celso Sabadin,  concorrente do Festival.

Filão para o mercado, ‘vilão’ para os que aspiram ‘realizações mais qualificadas’ e sofrem na comparação com taxas de ocupação ,  cabe a pergunta: a aparente consagração de    ‘Vendo ou Alugo’  poderá ser vista como a redenção, a capitulação definitiva,  o reconhecimento  de gênero tão ‘injustiçado’ pela suposta ‘elite’ intelectual e,  paradoxalmente, tão querido pelo público e tão rentável para  realizadores-distribuidores-exibidores?

Provavelmente não.  Enquanto comédias de matriz obviamente televisivas, com argumentos ralos e interpretações ‘over’, deverão continuar sofrendo com críticas e faturando na bilheteria (e merecem reflexão por conta disso, mas não necessariamente premiações), ‘Vendo ou alugo’  apresenta um diferencial importante ao colocar na tela questões sociais urgentes.

Seu tema – o confronto potencialmente explosivo de vários segmentos – como foi enfatizado nos debates de Recife, poderia gerar uma tragédia.  Não foi a opção de Betse de Paula, que optou por uma versão anárquica, irreverente e chanchadeira de Tudo Bem, de Arnaldo Jabor, lá se vão 35 anos, que concentrava burgueses, operários e mendigos e outros mais em um apartamento em obras no Rio de Janeiro,  “cercado de Brasil por todos os lados”, segundo o próprio diretor.

Vendo ou alugo, menos ambicioso no alcance geográfico,  optou por um recorte sócio-urbano tipicamente carioca, com ecos das comédias de Hugo Carvana. A locação da vez é  uma mansão corroída pelo tempo  que deu azar de conciliar a má gestão interna com a localização – a quina de uma ‘comunidade’  no Leme,  um dos cartões postais da cidade,  no fio da navalha entre as expectativas da  pacificação e guerras do tráfico.  Apesar da decadência financeira das suas moradoras – quatro gerações da mesma família –  não há críticas ferozes ‘ao destino’.

A matriarca (Nathália  Timberg), protesta mas se diverte embalada por uisquinho e rodadas pôquer com as amigas “tartarugas”. A filha (Marieta Severa), sempre de bem com a vida,  não se aperta: pendura contas, preconceitos, ambições e vai à luta. Maluca beleza do high society falido é amiga pessoal de traficantes, banqueiro, bicheiro e dono de birosca da comunidade ao lado. Pacificar os ânimos é com ela mesma. Para sobreviver, cria docinhos eróticos e faz traduções para os vizinhos, sobretudo manuais de metralhadoras, daquelas que matam dezenas de uma vez, mas o filme se abstém de mostrar esses detalhes. Melhor ficar no folclore. Sua filha (Silvia Buarque) é uma ambientalista hippie de carteirinha, e a caçula da grande família (Bia Morgana), parece a única a ter a cabeça no lugar – por pouco tempo.

A fauna do filme inclui um ‘traficante do bem’ (Marcos Palmeira), de alma tão pura que só falta ter medo do escuro, cavalheiro, espada, apreciador dos méritos femininos de senhoras bem  conservadas.  Ah sim, tem também um pastor ensandecido, um garoto do tráfico que pode virar um Zé Pequeno ou ser reabilitado,  uma empregada que sabe muito bem com quem está falando (mas a recíproca não é verdadeira),  além de representantes da tropa de elite BOPE, um gringo desbundado, e muitos mais.

Com amplos méritos técnicos – como o tour-de-force da realização integral com steady-cam e planos-sequência, e pelo rendimento do elenco – Vendo ou alugo trafega, sem cerimônia, da crítica ao elogio ambíguo de vários aspectos do politicamente incorreto.  Na tela,  a conciliação entre as diversas tribos – de policiais a bandidos, de patrões a empregados, incluindo europeus deslumbrados com a miséria supostamente pacificada para gringo ver  –   passa pela divisão do bolo, no caso, com um recheio cuja legalização também está no meio de vigorosa polêmica. Ninguém é genuinamente ‘do mal’ na fita e todos são passíveis de redenção se entrarem numa onda.

Em entrevista, a diretora evoca O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel, como referência  para a trama: quem chega, não consegue mais deixar a mansão. A aproximação com o mestre do surrealismo Buñuel também pode ser feita  a partir de um trocadilho infame com seu primeiro longa (L´âge d´or, 1930) ,  mas  descaradamente carioca: a Laje d´or (referência  à rede  de hospitais ‘primeiro mundo da cidade’),  palco final de  celebrada carnavalização de conflitos. Mais surreal, impossível. Quanto à pacificação dos ânimos de críticos e observadores – os desdobramentos devem ser mais irregulares e polêmicos – e mais produtivos para uma discussão sobre cinema, realidade, comédia, e afins.

 

Nossas escolhas e as escolhas dos outro: uma reflexão na forma de depoimento

Por Paulo Cunha, Professor Doutor em Cinema, da UFPE

Fui surpreendido (de verdade, sem falsa modéstia) pelo convite da Abraccine para fazer parte do grupo de jurados que avaliaram os filmes do último Cine-PE. Eu havia praticado a crítica cinematográfica regularmente nos anos 1970. Em seguida, meus caminhos me levaram à realização de filmes experimentais em Super-8 e em 16 milímetros, à pós-graduação e, na sequência, à carreira acadêmica. É bem verdade que, na universidade, trabalhando com as disciplinas “Cinema Brasileiro” e “Estética e Cultura Visual”, não há como descolar da revisão crítica de filmes, antigos e novos, clássicos e não tão clássicos. Também tenho participado periodicamente do julgamento de projetos de financiamento em editais públicos e privados. Mas tudo isso é outra coisa: a crítica, stricto-sensu, é bem diferente – e por isso fiquei a um só tempo feliz e espantado com o convite.

Foi com esses sentimentos paradoxais que cheguei ao Teatro Guararapes, em Olinda, onde acontece o festival. E depois de alguns dias descobrindo curtas e longas da safra recente brasileira, tive o sentimento de que algo estranho está acontecendo no Cine PE, para não dizer no cinema brasileiro em geral. Assim como algo estranho está acontecendo com a crítica. Ou não? Vejamos.

Como se sabe, um único filme arrebatou praticamente todos os prêmios – e, sobretudo, os principais prêmios, distribuídos no festival.  A questão em torno dessa forma de premiar recai principalmente sobre as preferências do júri oficial do Cine PE. Que esse filme tenha todas as características do que muitos chamam hoje de cinema “profissional”, “grande público” – algo que está sendo buscado por determinados setores da indústria do audiovisual – faz parte da própria tradição do Cine PE. O festival pernambucano sempre teve uma evidente vocação para atrair o cinema comercial, voltado para o público mais amplo, desejoso de reencontrar nas salas de cinema uma experiência próxima da que prefere na televisão aberta. O que sempre se viu (e se vê) no Cine PE – e isso é insistentemente usado até como elemento de promoção – foi o desfile dos atores e diretores ligados à produção de novelas e outros programas de televisão. Tem a ver com a seleção dos filmes, com os patrocinadores e, afinal de contas, com a própria mitologia que o festival desejou criar para si. Tudo bem.

Então, que a premiação do júri oficial privilegiasse um filme que atende a todas as características do cinema comercial não seria de assustar. Seria apenas a confirmação de um modelo que busca ocupar seu espaço no cinema brasileiro e que tem no Cine PE um parceiro de primeira hora.

No entanto, vale lembrar que o embate entre o cinema “industrial” e o cinema “independente” no Brasil tem assumido uma feição particular na cena cinematográfica de Pernambuco. O cinema em Pernambuco tem sido outro, como sabem os críticos. Recentemente, por exemplo, um debate público entre o realizador de O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho, e um dos diretores da Globo Filmes deixou claro que a distância entre o modelo que visa o filme rápido de grande público e o que caracteriza a ousadia histórica do cinema brasileiro ainda tem muito energia para gerar. Notadamente em Pernambuco.

Por isso é legítimo questionar: como um festival baseado em Pernambuco, estado que tem produzido desde a retomada alguns dos filmes brasileiros mais interessantes do ponto de vista formal, pode simplesmente ignorar como esse dinamismo local de realização e seus impactos na cultura cinematográfica brasileira? Anedota ilustrativa: quem frequentou o Cine PE de 2013 deve ter notado que o único cineasta pernambucano, preocupado em realizar um cinema da diferença que passou por lá foi Cláudio de Assis – e porque tinha uma razão bem paralela para estar lá: o lançamento público do DVD de A Febre do Rato. Apareceu, lançou o DVD de seu belo filme e se foi. Retirando o foco do contexto pernambucano, podemos nos preocupar com a lista de cineastas brasileiros que estiveram presentes – ou melhor, que não estiveram presentes…

Independente do júri oficial, a Abraccine estabeleceu sua comissão no Cine PE, da qual fiz parte com muito orgulho. Deveríamos escolher, como fizemos, apenas dois filmes: melhor longa e melhor curta. A nossa decisão é conhecida. A pergunta é: não havia mesmo, do ponto de vista da crítica, nada melhor a se premiar? É evidente que as opções eram poucas, a seleção tendo “puxado” o festival para o comercial mais ligeiro. Mas mesmo assim… Esclareço que não estou me apartando das decisões da comissão da Abraccine – fiz parte dele, assino o que foi resolvido. Mas não posso deixar de levantar uma dúvida que me assusta desde o anúncio dos resultados e que me parece digna de ser pensada: também a crítica no Brasil decidiu aderir ao modelo comercial?

Evidentemente não é a decisão de uma só comissão de críticos (ou quase-crítico, como eu), e num único festival, que servirá para apontar uma tendência definitiva. Ainda assim o problema persiste: diante de um júri oficial totalmente associado ao padrão do filme ligeiro e comercial, não seria o papel do júri da crítica apontar outros caminhos, buscar a diversidade? Respondendo a uma indagação que lancei acima, parece-me claro que houve, sim, na mostra competitiva, filmes que buscavam outros caminhos. Não muitos, mas havia. Por que decidimos esquecer deles? E esquecer de maneira tão enfática, fazendo desabar sobre a cabeça de uma só realizadora toneladas de troféus?

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