Simples sem ser simplista: “Ausência”, de Chico Teixeira

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Por Robledo Milani

Após algumas experiências em documentários – no cinema e na televisão – o diretor Chico Teixeira estreou na tela grande causando impacto com o drama “A Casa de Alice” (2007). Esta interessante história familiar sobre uma mulher que – literalmente – carrega nas costas o marido infiel, a mão idosa e os filhos irresponsáveis foi premiada no Brasil e no exterior, indicando que teríamos ali um realizador de peso, destinado a entregar ao seu público grandes trabalhos no futuro. Essa espera se alongou por quase uma década, mas o cineasta finalmente realizou seu segundo longa: “Ausência”. E o melhor que ele pode apontar é a confirmação daquela promessa feita há tantos anos.

O cinema de Chico Teixeira segue voltado para uma classe suburbana da população, com seus problemas comuns do dia a dia, mas com impactos que se alongam por toda uma vida. O foco de “Ausência”, no entanto, deixa de lado os adultos – apesar destes ainda estarem por ali, mas nas periferias – e se concentra no jovem Serginho (Matheus Fagundes, que antes havia feito uma pequena participação em “2 Coelhos”, 2012). Ele não é mais uma criança, apesar de estar longe de poder ser considerado um adulto – ainda que suas responsabilidades sejam bastantes próximas dessa condição. Abandonado pelo pai – o filme começa com esse retirando suas coisas da casa, inclusive a televisão, deixando os dois filhos e a ex-esposa com nada – o garoto precisa trabalhar com o tio na feira, e com o dinheiro que ganha ali cuidar do irmão caçula e ainda ajudar a mãe (Gilda Nomacce, de “Gata Velha Ainda Mia”, 2014).

Os interesses do menino são escassos, e muito se deve à sua rotina atribulada. A narrativa, no entanto, constrói esse universo sem pressa. Em casa as coisas tentam manter uma normalidade que é interrompida quando menos se espera pelos excessos maternos com a bebida – logo se percebe que a mulher é alcoólatra, condição que irá selar o destino deles. Como amigos da mesma faixa etária, há um outro rapaz que vive na rua – e é surdo-mudo, dificultando a conexão entre eles – e uma jovem oriental, por quem se descobre levemente atraído. O único porto seguro acaba sendo o professor Ney (Irandhir Santos, contido), que abre sua porta para conversar, aproveitá-lo em pequenos serviços (como trazer as compras do mercado) e orientá-lo em aulas particulares. Mas, mais do que isso, é a única figura adulta e madura com quem consegue estabelecer algum tipo de relação de confiança. E quando essa se quebra, tudo parece querer vir abaixo.

Teixeira não quer impor verdades sobre seus personagens. Por todos nutre um real carinho e interesse, e mesmo as atitudes mais condenáveis deles são cobertas por motivos que as justifiquem. Serginho está sozinho no mundo, e Ausência deixa claro os esforços com os quais um jovem precisa se comprometer para encontrar seu espaço. A descoberta da sexualidade, a desconstrução dos laços familiares e a formação de novos núcleos de identidade são temas abordados com delicadeza pelo realizador, que faz uso de um elenco coeso e preocupado acima de tudo com a história, e não em momentos de brilho próprio. São todos engrenagens de um cenário maior, que é a jornada do protagonista e a busca deste por um caminho próprio a ser seguido. Simples, porém sem ser nunca simplista, é o seu maior mérito.

* texto publicado no site Papo de Cinema

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