“Que Horas Ela Volta?” e os códigos afetivos da segregação social

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Por William Silveira

Nos últimos tempos, o cinema deu ao Brasil pelo menos três filmes que ajudam a pensar a história social do país: “O Som ao Redor” (Kleber Mendonça Filho, 2012), “Doméstica” (Gabriel Mascaro, 2012) e “Branco Sai, Preto Fica” (Adirley Queirós, 2015). Por sorte, agora temos “Que Horas Ela Volta?”. Escrito e dirigido por Anna Muylaert, conhecida do público por trabalhos como “Durval Discos” (2002) e “É Proibido Fumar” (2009), “Que Horas Ela Volta?” conta a história da empregada doméstica Val (Regina Casé), que recebe a filha Jéssica (Camila Márdila) na casa da família para a qual trabalha, em São Paulo.

Motivado pelo desejo da filha em fazer vestibular para arquitetura, o reencontro na capital paulista rompe a separação forçada há muitos anos, quando Val deixou o Recife para tentar a sorte no sudeste. A sorte que alimentou Jéssica, porém, é a mesma que sustenta o mais obscuro resquício colonial brasileiro: o vício serviçal.

A situação construída no roteiro de Muylaert permite ao filme alcançar a rara condição de transitar entre duas camadas de interpretação distintas. A primeira e mais superficial traz uma boa história de determinação que evita fórmulas fáceis e truques de estilo. No entanto, é no segundo nível, ao debater a segregação social, que o longa surge como um dos melhores longas brasileiros dos últimos tempos.

Val e Jéssica são o mesmo país em séculos diferentes. Mãe e filha dividem o mesmo código genético, mas tornaram-se produto dos seus respectivos tempos – e da crença embutida em cada uma das épocas. Por isso, pensam o mundo e seus lugares nele de maneira completamente condicionada. Por ter sobrevivido às custas dos patrões, a personagem interpretada com maestria por Regina Casé consagrou a casa como um templo e, em seus espaços, instituiu fronteiras invisíveis do permitido e do proibido, do bom e do ruim; na construção do certo e do errado, erigiu o lar que imaginou merecer. Desconhecendo a arbitrariedade desse mundo, Jéssica aportou em São Paulo como aqueles velhos descobridores – como uma verdadeira colonizadora às avessas.

A fenda provocada pela chegada da filha alarga-se cada vez mais à medida que o filme avança, deixando transparecer, através da lente de Muylaert, o mundo de contradições e paradoxos que a circunstância cria. Para além da relação do servir e ser servido, a história da diretora investiga a relação materna – como nos episódios de Val e Fabinho (Michel Joelsas), filho do casal – e os códigos afetivos – como na estranha condição de Jéssica e Carlos (Lourenço Mutarelli), pai da família.

Destoando da preferência estética da maioria do cinema brasileiro, “Que Horas Ela Volta?” procura – e encontra – um registro realista complexo, composto da mescla de um discurso polido, como no filme de Mendonça, anteriormente citado, e a procura por uma simbologia própria, como na filmografia da diretora argentina Lucrécia Martel – que faz ecoar a tensão de “O Pântano” (2001) em cada cena da piscina. No entanto, a forma como Muylaert concebe seus espaços é o que a diferencia das referências anteriores. Ainda que o personagem de Carlos, em maior grau, e Fabinho, em menor, criem uma força negativa em direção a Jéssica, é no apaziguamento desse movimento que a diretora parece evitar o grande passo – este, seguramente, o mais arriscado. Ao chegar convicta na beira do abismo, a diretora parece testar a profundidade da queda arremessando uma pedra. Uma lástima que o encaixe entre tema e estilo faça questão de relevar, colocando o filme em um caminho sem volta: o dos prêmios, como os de público e crítica, na Berlinale e em Sundance, respectivamente.

* texto publicado no site Papo de Cinema

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