39ª Mostra: Manoel de Oliveira e Miguel Gomes

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VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES. Portugal, 1982. Direção: Manoel de Oliveira. Documentário. 68 min.

Foi um verdadeiro presente o que nos deu a 39ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, quando Renata de Almeida anunciou a exibição de um filme inédito do mestre português do cinema, Manoel de Oliveira.

A história é a seguinte: em 1982, Manoel de Oliveira chegava aos 74 anos de idade e realizou um filme documental sobre uma casa em que ele morou por muitos anos, 40, creio, e sobre a sua própria vida e história. Talvez imaginando que já era mesmo hora de fazer isso. Mas deixou o filme guardado na Cinemateca portuguesa, para só ser exibido após a sua morte. E assim se fez.

Ocorre que ele só veio a falecer no ano passado, aos 106 anos de idade, e trabalhou até o fim da vida mesmo. Seu último trabalho, “O Velho do Restelo”, é um curta-metragem realizado em 2014. Seu último grande filme, o brilhante longa “O Gebo e a Sombra”, em 2012. Ou seja, o filme póstumo do diretor, “Visita ou Memórias e Confissões”, ficou guardado por inacreditáveis 33 anos. E, se ele já havia feito muita coisa até então, a verdade é que a maior parte da sua grande obra é posterior ao filme. Foi quando ele trabalhou mais, melhor, mais intensamente, e nos legou filmes inesquecíveis.

É preciso ver “Visita ou Memórias e Confissões” sabendo dessas coisas, para se perceber a importância que ele tem como registro de um trabalho in progress, poderíamos dizer, em relação ao conjunto da obra.

Na abertura do filme, Manoel de Oliveira põe a informação de que fez esse trabalho falando de si mesmo e não sabe se deveria tê-lo feito. Mas, enfim, está feito. Que bom, Manoel! Assim pudemos ter registrada a sua fala sobre aspectos importantes da sua vida pessoal, familiar, problemas econômicos que o levaram a vender a casa tão amada, que expõe lindamente no filme, a sua prisão no tempo de Salazar, suas ideias sobre arte, arquitetura e, especialmente, cinema. Imagens de filmagens familiares são mostradas, em paralelo à linda casa esquadrinhada e objeto de interessantes reflexões.

A origem do cineasta na cidade do Porto, vindo de uma família de industriais, indicava caminhos diversos do que trilhou no cinema. As dificuldades da expressão artística no longo período ditatorial do regime salazarista foram grande empecilho. Ele chegou a ser atleta, piloto de corridas e vinicultor, mas era o cinema o que ele tinha na veia. E foi tardiamente que conseguiu dar vazão completa a seu espírito criativo e inovador.

O filme autobiográfico de Manoel de Oliveira é simples e admirável, um documento inestimável sobre um dos grandes cineastas que o cinema já teve. Merece não só ser exibido comercialmente, como integrar uma caixa de DVD ou BluRays com os principais filmes do mestre, coisa que está faltando no mercado brasileiro. Vários deles foram lançados em DVD, outros, exibidos na TV paga, no canal Brasil, mas para uma obra tão vasta e longeva são apenas pílulas.

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TRILOGIA — AS 1001 NOITES. Portugal, 2015. Direção e roteiro: Miguel Gomes.

AS 1001 NOITES: O INQUIETO, vol. 1. Elenco: Crista Alfaiate, Adriano Luz, Américo Silva, Rogério Samora. 125 min.
AS 1001 NOITES: O DESOLADO, vol. 2. Elenco: Crista Alfaiate, Chico Chapas, Luísa Cruz, Gonçalo Waddington. 131 min.
AS 1001 NOITES: O ENCANTADO, vol. 3. Elenco: Crista Alfaiate, Américo Silva, Carloto Cotta, Jing Jing Guo. 125 min.

Muitas vezes, quando a gente se aproxima da chamada realidade, ela soa surreal. Com humor e ironia, as desgraças se convertem em estranhamentos. O excêntrico também pode ser visto como redentor.

É próprio do cinema mesclar o cotidiano e o sonho, o real e o imaginário, a verdade factual e a ficção, de modo que essas coisas se embaralhem e se tornem indiscerníveis. Tempo e espaço perdem, ainda, seus limites.

Alguns cineastas trabalham, de modo evidente, com a realidade surreal, desestabilizam nossa percepção, exigem que deixemos de lado o conforto da narrativa clássica. Estou pensando em realizadores como o norte-americano Wes Anderson, o sueco Roy Andersson, o chinês Jia Zhang Ke e o mestre espanhol Luís Buñuel, entre outros. Pois o português Miguel Gomes é um lídimo representante dessa vertente. Seus filmes “Aquele Querido Mês de Agosto”, de 2008, e sobretudo “Tabu”, de 2012, já eram demonstrações claras e bem sucedidas disso. A trilogia de filmes “As 1001 Noites” sacramenta de vez a inovação narrativa do diretor, sem deixar margem a dúvidas.

Esclareça-se, de início, que são três filmes distintos, que resultaram de uma metodologia única e da mesma estrutura formal, no caso, emprestada das 1001 Noites, com Xerazade contando histórias ao rei, mas não é uma adaptação, nem tem nada a ver com os contos árabes.

O que Miguel Gomes e sua equipe fizeram foi contratar jornalistas para colher fatos importantes, surpreendentes, significativos ou relevantes, que estivessem acontecendo em qualquer parte de Portugal naquele momento e, a partir deles, construir uma história ficcional que, muitas vezes, é quase documental e, outras vezes, embarca fortemente na fantasia. Quanto mais surreal, mais retrata Portugal em meio à crise de austeridade que assolou o país e a Europa. Mas os momentos se alternam.

O primeiro filme, “O Inquieto”, dá conta das maldições que se abatem sobre o país, tem baleias que explodem, desempregados que contam suas histórias, o banho (coletivo) dos magníficos, promovido por um sindicalista em pleno inverno, e um galo que, de tanto exigirem que seja abatido, resolve falar e explicar o que acontece. O mal estar civilizatório é muito claro e as coisas não são o que aparentam ser.

No segundo filme, “O Desolado”, o título já diz tudo: não parece haver solução, a desolação toma conta das vidas. Até uma juíza se verá tão aflita que chorará, em vez de ditar a sua sentença, o suicídio se impõe na saga de um cão fiel, que muda de dono e permanece capaz de amar da mesma forma a todos. Os animais acabam sempre abrindo o caminho da esperança, até na desolação. Esse é o mais bem realizado da trilogia e foi indicado por Portugal para representá-lo no Oscar de filme estrangeiro.

O terceiro filme, “O Encantado”, descobre que há vida e esperança na simplicidade e na paixão: no caso dos passarinheiros, em que aprendemos que os tentilhões podem ser ensinados a cantar, os passarinhos não nascem sabendo, aprendem com os mais velhos e podem aprender o canto de outra espécie, se forem treinados para tal. A poesia encontra seu lugar. A revolução dos cravos é lembrada, as recompensas afetivas ganham destaque.

São as diversas faces dos homens e das suas circunstâncias, pensando em Sartre, o que Miguel Gomes mostra nessa trilogia, muito bem realizada, em que pesem alguns maus momentos, como “os homens de pau feito”, no primeiro filme. Já o do “Simão sem Tripas” é uma das histórias saborosas que os filmes têm a contar.

Cada um dos filmes vale por si só, independe dos outros. É possível assistir a eles isoladamente e em qualquer ordem. Não são partes sequenciais. São diferentes histórias que se relacionam a diferentes momentos e espaços da vida portuguesa atual. Em conjunto, formam um painel amplo e diverso, bastante ilustrativo da sociedade que procuram retratar.

“As 1001 Noites” de Miguel Gomes é um dos principais destaques da 39ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Não pode faltar no cardápio dos cinéfilos, que se alimentam do cinema autoral do evento mais aguardado da cidade, todos os anos.

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