Bellocchio aceita todos os riscos e continua a fazer um cinema jovem

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Adolfo Gomes *

Se é de vampiros que tratamos, devemos reconhecer: o risco é sempre o alimento da juventude. Marco Bellocchio é quase um octagenário, mas seu cinema é jovem, vigoroso, imprevisível. O cineasta mítico de obras-primas como “De Punhos Cerrados” e “A China está Próxima”, parece imune aos efeitos do tempo e da condescendência. Tal e qual essa particular classe de vampiros que habita um dos seus mais recentes filmes, “Sangue do Meu Sangue” (Sangue del Mio Sangue, ITA/FRA/SUI, 2015). A obra integra a oportuna homenagem que a 40ª Mostra de SP presta ao realizador, com direito ainda a revisita dos seus filmes-faróis das décadas de 1960/70 e 80.

No novo trabalho, a glória do cinema de gênero italiano (o terror, os gialli, os filmes fantásticos) é uma miragem impossível, já inalcançável. A sátira política da mesma forma. Então, só nos resta tirar partido do imaginário daí originado para ancorar essa desconcertante viagem que Bellocchio nos oferece por épocas, tons e situações quase exasperantes por sua contínua autoimolação. Logo no começo nos lembramos de “A Hora da Religião” (L´Ora di Religione, EUA, 2002) na composição algo nonsense dos ritos católicos. Em “Sangue do Meu Sangue” tudo aparenta se resumir a arrancar uma confissão diabólica de uma freira que se envolvera com um padre suicida – e assim garantir ao clérigo um enterro digno em solo sagrado. Porém, o cineasta não está interessado na autocitação ou na tautologia. E, de repente, estamos em outro regime de representação, em outro tempo (um ou dois séculos depois) – apenas um território em comum (o lugarejo natal de Bellocchio, Bobbio) – e algumas personagens transfiguradas.

Emerge no “futuro” (o nosso presente) uma espécie de Nosferatu na contramão da especulação imobiliária. Arrancado das trevas por uma dor de dente e pela ameaça de venda do convento que lhe serve de ataúde, ele faz sua última visita à contemporaneidade, essa terra dizimada pelo absurdo, que naturalizou o surrealismo: a economia da corrupção, seus métodos e os códigos escusos da política, em última análise, o desencanto. No entanto, Bellocchio filma esse desfile quase carnavalesco na sua extravagância do real, com vibração, senso épico e nenhuma melancolia.

“Sangue do Meu Sangue” está sempre a um passo do risível, trafega pelo abismo que separa a coragem do medo, a acomodação geralmente outorgada pelo status de autor em oposição ao desejo de sentir, de novo (o vampiro, pouco antes da luz que o aniquila, diz ter voltado “a sentir”), as alegrias da invenção. É o passo do risco. Bellocchio se arrisca todo o filme, a cada plano. Por isso, está vivo e cheio de viço.

* Adolfo Gomes é crítico e curador de cinema em Salvador (BA)

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