Belos Sonhos

sweet-dreams-11-800x533

Antonio Carlos Egypto*

Filme de abertura da 40ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “Belos Sonhos”, de Marco Bellocchio, é um trabalho forte, intenso e honesto. É baseado no romance autobiográfico do jornalista e dirigente do jornal La Stampa, Massimo Gramelline.

A trama começa por nos mostrar o trauma original da vida do menino Massimo: a perda, aos 9 anos de idade, de forma súbita, da mãe tão amada e tão próxima. Companheira de brincadeiras, dança e medo diante dos filmes de terror clássicos, figura jovem e cheia de energia.

Essa morte se torna misteriosa para ele, que se recusa a aceitá-la. Chega o período da adolescência e Massimo ainda sente de forma dolorida aquela perda tão absurda e incompreensível. Só na vida adulta, trinta anos depois, é que o jornalista Massimo resolve ir a fundo para tentar entender o que se passou. O filme trabalha alternadamente nos três tempos da história do personagem, enfatizando o menino que vive no coração do adulto.

O drama de uma vida, uma história marcante, que assume dimensões trágicas, mesmo na aparente placidez da vida de classe média e do convívio com gente abastada. Um trauma que rege uma existência, mesmo diante do reconhecimento e do sucesso profissional. Sucesso que se potencializa quando uma carta de resposta a um leitor expõe os sentimentos do escriba com franqueza.

Tudo que é vivido, lembrado, reconstituído, passa pelo crivo não só da memória seletiva, que nos protege dos sentimentos ou desejos sombrios ou degradantes, mas também da torrente de emoções do momento que provoca o abalo. Às vezes, como no caso de Massimo, são necessários trinta anos para que se possa encarar os fatos. Eu diria, até, conhecê-los pela primeira vez. De que outra forma podemos preservar nossos belos sonhos? Bellocchio encontrou o clima certo para nos provocar e nos fazer olhar para a história desse personagem com mais profundidade e humanidade. O que poderia se converter num dramalhão lacrimoso resulta num drama psicológico denso e consistente, nas mãos desse cineasta que extrai de seu elenco desempenhos que trazem à tona os sentimentos e sofrimentos mais fortes, sempre num tom contido. Às vezes, preso, sufocado.

Esse mais recente trabalho de Marco Bellocchio está na 40ª. Mostra, ao lado de outros 11 títulos do diretor e da presença dele em São Paulo. Um dos grandes cineastas da atualidade e um digno representante do melhor cinema italiano, especialmente o político.

Bellocchio merece toda a atenção dos cinéfilos e só se tem a ganhar com a revisão de alguns de seus grandes trabalhos, como “Bom-Dia, Noite”, de 2003, ou “Vincere”, de 2009, por exemplo. O cartaz que ele fez para a Mostra é um dos mais bonitos da série histórica de cartazes concebidos pelos cineastas que aportaram por aqui no evento.

Quem não conseguir assistir a “Belos Sonhos” durante a Mostra, poderá fazê-lo no circuito comercial, no final de dezembro, às vésperas do Ano Novo, quando o filme está previsto para estrear. Mas aproveite a oportunidade da 40ª. Mostra para ver outros filmes de Marco Bellocchio. Vale muito a pena conhecer ou revisar essa obra.

* Antonio Carlos Egypto é crítico de cinema. Texto originalmente publicado no site Cinema com Recheio

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s