Marco Bellocchio segue inquietando

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Roger Lerina *

Homenageado especial da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com um ciclo de seus mais importantes filmes, o diretor Marco Bellocchio esteve no Brasil no final da semana passada.

Em sua quarta visita ao país, o mais importante cineasta italiano da atualidade conversou com o público no domingo, logo após a exibição de um de seus dois novos longas ainda inéditos por aqui: “Sangue do meu sangue” (2015), uma inspirada parábola sobre a Itália e seus pecados, narrada em dois tempos, no século 17 e na atualidade – ambos ambientados em Bobbio, cidade natal de Bellocchio.

Aos 76 anos, o realizador de títulos aclamados como “De punhos cerrados” (1965), “A China está perto” (1967), “Diabo no corpo” (1986), “O processo do desejo” (1991), “Bom dia, noite” (2003), “Vincere” (2009) e “A bela que dorme” (2012) mostrou-se um criador lúcido e inquieto no encontro que teve na segunda- feira com a imprensa – do qual Zero Hora também participou -, falando de temas como a comparação entre a Operação Lava-Jato e a italiana Mãos Limpas, que seria uma inspiração para a ação brasileira:

– Não sou um dos que aceitaram essa operação totalmente. Na Itália, talvez, a corrupção tenha aumentado depois dela. Muitos juízes aproveitaram a oportunidade para se tornarem políticos, e os cidadãos estão cada vez mais desgostosos da política, votando cada vez menos, numa atitude de fatalismo extremamente negativa.

Autor do belo cartaz desta edição da Mostra, Bellocchio explicou que resolveu fundir na ilustração três imagens: o papa e a cúpula da Igreja Católica, uma multidão em uma manifestação em torno de Lênin e a poética imagem final do filme Bom dia, noite, em que o político italiano Aldo Moro (1916 – 1978), sequestrado pelas Brigadas Vermelhas, aparece deixando tranquilamente seu cativeiro – na realidade, o ex-primeiro-ministro foi assassinado pelo grupo guerrilheiro de extrema esquerda.

Entrevista: Marco Bellocchio // “O que me motiva é a imagem, não a mensagem”

Como surgem as imagens de seus filmes?
Antes de virar diretor, eu estava indeciso se seria ou não pintor. As imagens sempre me foram muito familiares. Antes de fazer um filme, me divirto fazendo desenhos. O que me motiva a fazer um filme é a imagem, não a mensagem.

Como seus filmes são recebidos na Itália pela crítica e pelo público?
As reações de público e crítica são diferentes. Meu primeiro filme (“De punhos cerrados”) foi recebido com maravilhamento e admiração onde foi exibido. Quando voltou para a Itália, modificou inclusive a relação com a crítica. Apesar da censura na virada dos anos 1960 para os 1970, meus filmes sempre puderam circular livremente na Itália. Várias vezes passei por diretor político, porém, sem sê-lo, em uma época em que o cinema político recebia muita atenção. Depois, vivi um período mais introspectivo, de filmes como “Il gabbiano” (1977) e “Salto nel vuoto” (1980), em que minha atenção diretamente pela política começou a se distanciar. Eu, como tantos outros, estava no fundo saindo de uma desilusão política. Nunca fui um verdadeiro político. Como tantos outros, acreditava em uma utopia política, pensávamos em mudar o mundo. No fundo, era uma utopia de esquerda, o socialismo utópico que se contrapunha à ideologia burguesa. As palavras tinham então uma importância extrema, hoje elas estão muito menos importantes.

Dentro dessa trajetória, “Diabo no corpo” foi um marco.
“Diabo no corpo” foi distribuído aqui no Brasil e despertou um certo escândalo. Foi um escândalo na Itália por minha adesão à psicanálise do professor Massimo Fagioli (polêmico psiquiatra italiano que colaborou com Bellocchio em três de seus filmes). Fui muito criticado e julgado por conta desse movimento sectário que era a análise coletiva de Fagioli. Depois, houve um último período de filmes muito pessoais, que abordavam a história italiana sem preocupação com julgamento histórico e político, personalizando essas histórias. “Vincere”, por exemplo, não é sobre o fascismo; é sobre uma mulher que enlouquece não tanto por paixão, mas por querer se vingar e reivindicar o papel institucional de mulher de Mussolini. É a história vista sob um ângulo muito particular, mais privado. O terrorismo de “Bom dia, noite” mostra, na verdade, mais a vida cotidiana do grupo de terroristas que sequestrou, e depois assassinou, Aldo Moro, sem querer fazer uma representação geral do importante fenômeno que foi o terrorismo na Itália.

 

Como você vê hoje a relação entre cinema e política?
Nos anos 1960 e 1970, o cinema era uma arma para fazer a revolução. Essas coisas agora foram um pouco esquecidas. Meu modo de fazer cinema não é programático, nunca quis passar uma mensagem. Sempre falo com imagens que me impressionam, me surpreendem como fragmentos para contar uma história. E, dentro dessa história, existem ideias que são minhas. Sou uma pessoa muito moralista, até por minha educação, e tenho que combater esse meu moralismo porque, senão, ele pode me levar para um lugar de que eu não goste. A religião também é um tema recorrente em sua filmografia. Disseram-me que no Brasil há um movimento evangélico que está brigando com o catolicismo. É algo de que sei muito pouco, isso não acontece na Itália. Um artista tem que falar do que conhece, do que viveu. Minha educação foi muito católica. Consequentemente, os temas do catolicismo emergem nas histórias que conto.

* Roger Lerina é jornalista e crítico de cinema; escreve para o Jornal Zero Hora

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