Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

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Bruno Ghetti*

Os tempos atuais não estão muito para moderação, e nesse sentido é essencial que apareçam filmes como “Era o Hotel Cambridge”. O longa de Eliane Caffé resgata um tipo de cinema abertamente partidário, combativo – quase “de tese”. No caso, a tese de que pessoas a quem a sociedade nega possibilidades de moradia têm o direito de habitar espaços abandonados. É uma questão de humanidade e de dignidade – de respeito mínimo ao que de mais básico existe na nossa Constituição ou mesmo em documentos internacionais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Eu confesso que pouca coisa me interessa menos no cinema recente quanto a já exauridíssima mescla de “realidade com ficção”, que tem sido recorrentemente utilizada como forma de se compensar as partes falhas que um filme teria se fosse “puramente” só ficção ou só documentário. (O que no passado já permitiu excelentes experimentações formais no cinema se tornou com o tempo uma muleta para cineastas indolentes, em busca de aprovação crítica fácil). Mas no caso de “Era o Hotel Cambridge”, o procedimento de misturar cenas reais com encenadas compõe um estranhíssimo amálgama que o enriquecem. Caffé e sua equipe entraram em um prédio ocupado por grupos sem teto e imigrantes e filmaram muito do que viram. Mas ficcionalizaram a maior parte das cenas, com um elenco que mescla profissionais (como José Dumont e Suely Franco) com não atores, estes ocupantes de verdade (que incluem líderes de movimentos de ocupação e imigrantes africanos, latino-americanos e palestinos).

O material bruto seria precioso o suficiente para um documentário “puro” – talvez o filme fosse até melhor se a diretora fizesse essa opção. Mas a criação ficcional que ela desenvolve suaviza a parte documental e permite que o espectador tenha um contato com um aspecto mais leve, de cotidiano, da vida daquelas pessoas. O filme se torna mais arejado.

A dramaturgia proposta por Caffé é bastante simples – simplória, até. E esquemática. Mas querer criar situações elaboradas ou ambíguas demais envolvendo aquelas vidas seria um erro. Se a dramaturgia do filme é composta de fiapos de história, isso não é à toa: afinal, o que podem levar essas pessoas marginalizadas que não apenas fiapos de vida?

O que não quer dizer que essas vidas não sejam complexas, muito pelo contrário: o são até demais – além de trágicas. Mas as situações pelas quais passam no dia a dia da ocupação, as lutas que enfrentam e os objetivos de vida que passam a ater não podem ser outra coisa que não “simples”, já que são as mais básicas; são pessoas que querem um lar. E algum mínimo de conforto, de comida, de carinho, de diversão. São vidas de pessoas que não se podem se dar ao luxo de ter as “complicações” que o lifestyle burguês nos permite poder levar.

Exigir equilíbrio ou ponderação de um filme como “Era o Hotel Cambridge” é não compreender em nada seu sentido. Sua beleza está em suas falhas e na sua luta – na vontade de fazer justiça com pessoas que pagam um preço altíssimo por motivos pelos quais não têm culpa direta.

O filme começa com imagens de edifícios abandonados, pichados, decadentes, do centro de São Paulo. Termina com os mesmos prédios, porém com bandeiras de movimentos sociais estampados nas fachadas. São como flâmulas de confecção barata, mas que naquele contexto surgem gloriosas, imponentes, dando nova vida a locais antes esquecidos. Para quem acha absurda e criminosa a situação social do país de hoje em dia, é um final não só poético: é também catártico. Quem não se comove ao menos minimamente com um filme como este ou é um direitista incorrigível ou não tem um coração no peito (o que, em muitos desses casos, é um belo de um pleonasmo).

*crítica publicada originalmente no site Abrir o Olhar

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