Tonacci, cinema dos grandes

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José Geraldo Couto*

Hoje é preciso falar de Andrea Tonacci (1944-2016), o imenso cineasta que acaba de nos deixar.

Num ano de graves perdas para o cinema brasileiro, esta foi uma das mais cruéis, pois Tonacci vivia uma fase de grande energia e criatividade, com vários projetos em mente ou em andamento. Muito querido por seus amigos, colegas e colaboradores (melhor seria dizer que todos os seus colegas e colaboradores tornavam-se instantaneamente seus amigos), o cineasta viu crescer nas últimas décadas uma legião de jovens admiradores, estimulados por seu trabalho, suas ideias e seu afeto.

Ética e estética – Ao longo de meio século, Tonacci filmou muito e mostrou relativamente pouco: apenas cinco longas-metragens, um único deles de ficção, o hoje legendário “Bang bang” (1971), marco intrigante do cinema de invenção, impropriamente chamado de “marginal”. Essa parcimônia tem a ver com uma característica central do cineasta, o profundo senso de responsabilidade diante das imagens que captava e exibia. A estética, para ele, nunca esteve separada da ética. Poderiam ser dele os versos de John Keats: “Beauty is truth, truth beauty – that is all/ ye know on earth, and all ye need to know” (“A beleza é verdade; a verdade, beleza – isso é tudo/ o que se sabe na terra, e tudo o que é preciso saber”).

Da inquietação diante do absurdo de um país em transe autoritário, manifestada nos primeiros filmes (os curtas “Olho por olho” e “Blá-blá-blá”, o longa “Bang bang”), o diretor evoluiu nas décadas seguintes para uma preocupação ao mesmo tempo visceral e cósmica com a condição e o destino dos povos indígenas, que era sua maneira de meditar sobre a humanidade em geral.

Forjado na interlocução com povos como os timbiras (“Conversas no Maranhão”, 1977-83), os canelas (“Discursos canelas”, 1979) e os araras (“Os araras”, 1980), esse pensamento vivo desembocou num filme extraordinário, “Serras da desordem” (2006), híbrido singular de documentário, ficção e autorreflexão.

Para reconstituir – e ao mesmo tempo repensar – a saga do índio Carapiru, que depois de escapar ao massacre de sua aldeia atravessou a pé vários estados e viveu numa fazenda de brancos sem falar uma palavra de português, Tonacci misturou material de arquivo com passagens reencenadas pelos próprios protagonistas da história (Carapiru, a família que o acolheu, o sertanista Sidney Possuelo etc.). O resultado é um filme único, uma das mais pungentes obras cinematográficas não só sobre a tragédia indígena, mas sobre a condição humana em geral.

O Carapiru revelado por Tonacci é um homem que não se encaixa na sociedade dos brancos e não consegue mais voltar à sua condição tribal. É um pouco como o personagem Joe Christmas, de Luz em agosto de William Faulkner, negro no mundo dos brancos, branco no mundo dos negros. Carapiru é um parafuso solto que, na sua deriva, expõe a engrenagem cruel do mundo.

Cinema em construção – “Serras da desordem” não se contenta com o mero registro dessa aventura, mas discute a todo momento seu sentido – e as questões morais envolvidas na sua transmutação em cinema. Ao repelir toda e qualquer idealização ou mistificação apaziguadora, bem como toda e qualquer estetização aprazível, o filme intensifica o desconforto do espectador branco diante dessa “outra humanidade” que o espelha, questiona e interroga. Ao final, não perguntamos simplesmente “quem é Carapiru”, mas sim “quem somos nós”. E não é esse o papel da grande arte?

* José Geraldo Couto é crítico de cinema, jornalista e tradutor. Texto originalmente publicado no Blogs do IMS.

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