A bênção da fé

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Daniel Caetano*

Eu sou um sujeito cuja relação com a religião é típica do nosso tempo, sobretudo com o catolicismo que me batizou – me afastei completamente das questões da fé religiosa e, mais do que descrença, trato isso com a distância de um estrangeiro, ou melhor, de alguém que se afasta a ponto de se tornar estrangeiro. Por conta disso, “Benzedeiras de Minas” me deu um susto, já que, em certa medida, ele é o testemunho da fé das suas personagens. Mas a gente tem algumas camadas a perceber sobre essa fé: o filme não é apenas um registro solidário, como se fosse um ato de propaganda católica – na verdade, ele não é nada disso. É um filme que mostra paixão pela fé, mas não tem nada de catequizante.

E como ele lida com essa fé, então? Ele simplesmente apresenta as coisas, lida com a epiderme do mundo sensível: vemos as benzedeiras retratadas, os lugares em que habitam, seus gestuais cotidianos, suas formas de preparação para os trabalhos, e as ouvimos falar sobre o que fazem. Nesta perspectiva, a fé é um dado fundamental das personagens, mas não do filme. E assim as vemos contarem sobre o que são capazes de fazer: não são capazes de resolver conflitos entre pessoas, mas podem acalmar-lhes o espírito – desde que tenham fé; não são capazes de fazer seus trabalhos de bênção para os que não têm fé – ela é parte necessária da relação para que os resultados sejam obtidos, segundo elas nos contam. Temos, assim, um retrato carinhoso e admirado sobre velhas senhoras que, com seu saber que trata de coisas invisíveis, da metafísica dos sentimentos, astrais e sensações, se dizem capazes de afetar as pessoas de maneiras que a razão científica dos médicos não é capaz. Este retrato carinhoso e respeitoso lhes dá voz para falarem do valor do seu trabalho, cuja motivação é basicamente generosa. Ao final, uma prece é enviada e parece tocar a todos nós.

Este é o filme como testemunho.

Mas, para além disso, também acabei vendo no filme uma analogia sobre o seu papel: uma reflexão sobre a necessidade de crer para ver, essencial à intenção artística. Foi Octavio Paz quem disse que a poesia é a religião secreta dos povos e a arte moderna pretende ser o substituto possível para o lugar religioso, disputando esse lugar com a ciência até meados do Século XX – a narrativa moderna, de modo geral, descrê do objetivismo científico e aposta na intuição e na capacidade de perceber as coisas invisíveis. Neste sentido, as benzedeiras cumprem um papel análogo ao do artista: são capazes de cantar suas preces, mas elas só terão força se forem ouvidas com crença no que dizem. Falam de um mundo invisível, mas real. Se houver fé em suas palavras, elas são capazes de agir sobre as coisas do mundo sem apresentar movimentos diretos e incidentes – são capazes de provocar uma ação cujo movimento não se passa no reino visível. É neste sentido que a reza final que Benzedeiras de Minas emite é maior que o catolicismo ou qualquer religião: é uma bênção que apresenta a fé na capacidade que estas benzedeiras e este filme (e qualquer obra feita apenas para mudar os estados das pessoas) têm para mexer com as gentes e coisas do mundo de forma positiva e amorosa.

* texto originalmente publicado no blog Passarim

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