As obras de Manoel (II)

O-ESTRANHO-CASO-DE-ANGELICA
O Estranho Caso de Angélica
Por Luiz Joaquim (PE)
O Estranho Caso de Angélica”, de Manoel de Oliveira, será finalmente projetado, em cópia 35 mm, no Recife. O filme foi lançado no Un Certain Regard de Cannes 2010 e programado como filme de abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no ano passado (2010).
Mas, por que “finalmente”? Porque o mercado cinematográfico obedece a uma agenda de lançamentos muito rígida que só é quebrada com sessões prévias sob muita negociação (envolvendo cifras) com a distribuidora detentora dos direitos de exibição. No circuito comercial da França, por exemplo, “Angélica” só entra em cartaz dia 11 de março. E são poucos os festivais ou salas de cinema que conseguem prévias sessões.
No sentido de fazer pensar sobre a vida, nada mais acertado que vermos um trabalho feito por um senhor de 101 anos, cuja precisão na composição e timing de suas imagens parecem não comungar com mais nada que seja contemporâneo, até mesmo pela compreensão desse senhor em saber o quão valiosa é a manutenção de uma imagem, mesmo a mais fugaz.
E essa delicadeza no olhar parece pouco possível para quem é desse mundo contemporâneo tão abundante em sujas imagens desleixadamente recriadas. Oliveira em seus filmes, e em “Angélica” não é diferente, mantém-se fora dos ruídos das imagens modernas. E o que há de belo aqui é exatamente sua competência em mostrar que não precisa delas para compor um conto audiovisual no aspecto clássico dos sentidos e proposições existenciais.
No enredo de “Angélica”, acompanhamos a história do fotógrafo Isaac (Ricardo Trêpa) que é chamado na urgência da noite para registrar a última fotografia da falecida e linda Angélica (Pilar López de Ayala). O inesperado acontece quando Isaac clica a moça e, pelo visor de sua máquina, ele vê – e só ele vê – ela sorrindo para ele.
Assombrado pela beleza de Angélica, Isaac divide os dias seguintes entre o desejo de encontrá-la (ou encontrar a beleza imaculada) assim como o desejo de registrar em fotografias os ofícios que em breve deixarão de existir, como o dos trabalhadores braçais das vinhas, com suas cantigas.
Há aqui uma fé na imagem, como documento que eternizará a perenidade da vida, que não é de hoje na cultura humana. Mas, escrita pelas mãos enrugadas de Oliveira, esta fé ganha uma conotação de convincente resistência pela comunhãcom a própria longevidade deste cineasta português.
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