Uma certa tendência do 27º Cine Ceará

Ailton Monteiro *

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Curiosa a escolha dos filmes da mostra competitiva de longas-metragens da 27ª edição do Cine Ceará. Terá sido uma coincidência ou foi mesmo proposital a escolha de títulos que abordam, seja de maneira mais aprofundada ou apenas tangencial, a questão das relações homoafetivas e das complexidades da diversidade sexual na sociedade? Dos sete filmes que concorreram à categoria de longa-metragem, apenas os dois brasileiros não abordaram o tema: Malasartes e o Duelo com a Morte, de Paulo Morelli, e Pedro sob a Cama, de Paulo Pons. São dois filmes totalmente distintos em tamanho e em intenção que ficarão de fora desta discussão, por não se afinarem com a característica central dos demais títulos. Então, falemos dos outros cinco filmes, vindos de países como Chile, Argentina, Cuba e República Dominicana.

Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio, diretor de Gloria (2013), é desses filmes que tem como principal mérito a capacidade de deixar o espectador muito interessado em acompanhar a história de Marina (Daniela Vega), uma mulher transexual, em seu calvário, após perder o amante/companheiro, vítima de um aneurisma. Como aquele homem que se foi representava para ela o mais próximo que conseguira chegar de uma aceitação como mulher pela sociedade, o que vem a seguir é uma série de situações de humilhação e agressão, vindas principalmente da família do ex-companheiro. A busca de dignidade é o que move a personagem e a principal bandeira que o filme levanta. Apesar de nem sempre acertar e de utilizar algumas metáforas óbvias em certos momentos, o vigor de Uma Mulher Fantástica o destaca como uma obra que tende a alcançar um público maior do que os seus concorrentes.

Ao contrário de Uma Mulher Fantástica, que é um filme que lida com as emoções de maneira bem pouco moderada, Ninguém Está Olhando, da diretora Julia Solomonoff (O Último Verão de La Boyita, 2009), é um exemplo de sobriedade na construção narrativa, ao lidar com as questões do êxito e do fracasso a partir de expectativas criadas principalmente pelo seu protagonista. Diferente do filme anteriormente citado, Ninguém Está Olhando não mostra uma sociedade que se incomoda com o indivíduo; é exatamente o oposto que acontece: vemos o personagem invisível, um latino que não tem o estereótipo do latino, vivendo em uma metrópole, Nova York, que já se caracteriza por sua pluralidade de indivíduos. Na trama, Nico (Guillermo Pfening), ator bem-sucedido na Argentina, tenta a sorte nos Estados Unidos, passando por uma série de frustrações que o levam a um sentimento de desalento. Em Ninguém Está Olhando, a questão das relações homoafetivas se dá de maneira mais sutil, já que o protagonista gasta pouco de seu tempo em aventuras com outros homens e lida muito mais com suas angústias e necessidades profissionais.  O que mais pesa, positivamente, no filme é o seu teor universal. Ninguém Está Olhando foi o grande vencedor do Cine Ceará 2017, tendo sido premiado nas categorias de melhor longa-metragem pelo júri oficial e pelo júri da crítica e de melhor ator.

Duas produções de Cuba chegam com a intenção de questionar certas condutas hediondas do governo de Fidel relacionadas aos homossexuais. O primeiro deles, Santa e Andrés, de Carlos Lechuga, é mais enfático, tanto que o filme, apesar de realizado com o aval do Estado, teve exibição proibida em Cuba, mesmo com sua história ambientada no início dos anos 1980, quando, provavelmente, a intolerância era maior. Na trama, Santa (Lola Amores, vencedora do prêmio de melhor atriz no festival) é uma camponesa revolucionária que tem como missão vigiar Andrés, um escritor homossexual que mora pelos arredores e que pode atrapalhar um evento oficial importante, fazendo reclamações à imprensa sobre os maus tratos sofridos e a censura que lhe é imposta. Mas o mais importante do filme nem são as questões políticas, mas a relação que se constrói aos poucos e com muita habilidade por parte do diretor entre esse dois personagens com diferentes pontos de vista. Esse mérito, de saber construir no tempo certo o relacionamento dos dois, junto com diálogos bem construídos e silêncios bem pautados, é louvável.

A segunda produção cubana do festival, Últimos Dias em Havana, de Fernando Pérez, é mais uma que não pega leve com o regime de Fidel, embora não seja tão enfática quanto Santa e Andrés do ponto de vista político. Há também um personagem homossexual em condições de vida bem sofridas. Diego, vivido por Jorge Martinez, está acamado e em situação grave ocasionada pela AIDS. Mesmo sem poder sair do quarto, ele conserva seu senso de humor e sua vontade de ter uma relação sexual com algum rapaz. Diego divide o apartamento com o amigo Miguel (Patricio Wood), um homem sério e sisudo que sonha em largar o país e ir embora para os Estados Unidos. Últimos Dias em Havana é um filme que se balança entre a leveza de seu bom humor e o melodrama, que surge especialmente perto do final. Contam pontos a favor do filme a ambientação, em um condomínio pobre e sem água encanada, e a dinâmica dos personagens, sejam os protagonistas, seja o elenco de apoio.

Quanto a O Homem Que Cuida, de Alejandro Andújar, o representante da República Dominicana, ele apenas tangencia a questão do desejo, na pessoa de um dos personagens jovens, o filho do dono da casa, que se diz bastante interessado na bela e jovem vizinha, mas cuja pouca iniciativa e comportamento estranho (e às vezes violento) faz com que percebamos quase uma tendência à negação da sexualidade. Um dos destaques do filme é a bela fotografia em cores vivas, junto com uma direção de arte bem trabalhada em um ambiente tão simples, uma casa de praia. Trata-se de um filme que lida com uma situação bastante familiar a nós, brasileiros: a exploração das classes trabalhadoras pela elite econômica. Talvez falte ao filme uma maior força na construção do protagonista, o que resulta em uma dificuldade de empatia com o público, mas isso é compensado no modo como são apresentados os jovens que chegam à casa de praia para se divertir às escondidas do dono do lugar.

A presença de vários filmes sobre a temática LGBT, numa amostragem tão pequena como a da competição do Cine Ceará, talvez se deva aos debates atualmente mais intensos sobre o assunto, bem como à resistência dos grupos mais progressistas frente à insurgência cada vez maior de uma ala mais conservadora da sociedade. Neste cenário, há até mesmo espaço para um filme protagonizado por uma atriz trans (Uma Mulher Fantástica), e não um ator ou atriz representando o papel. Isso representa um avanço e tanto. Como diria Bob Dylan, “os tempos, eles estão mudando”.

* Ailton Monteiro é jornalista e crítico de cinematográfico.  Foi presidente do júri Abraccine no 27º Cine Ceará.

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