51º Festival de Brasília: a ilha dos prazeres proibidos.

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Luiz Joaquim*

Era o início da tarde de 16 de setembro, no auditório ‘A’ do B Hotel, em Brasília, e já ia-se encerrando, na programação do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB), o debate unificado com as equipes do curta-metragem Kairo, de Fábio Rodrigo, e do longa-metragem Los silêncios, de Beatriz Seigner – ambos exibidos na noite anterior em mostra competitiva.

E foi ali que surgiu um comentário dos participantes em debate sugerindo Los silêncios, por ocasião de seu futuro lançamento comercial pela distribuidora Vitrine Filmes, ser escalado para projetar juntamente com Kairo em salas comerciais, uma vez que havia tanta sintonia e comunicação temática entre eles.

A concordância foi imediata por parte dos diretores dos dois filmes, e parecia coerente também para a plateia. Era só o começo do festival mas, de partida, essa consonância apontava para a tônica que viria a ser apresentada nos dias seguintes na programação competitiva, ou seja, uma mesma corrente de diálogo afinada entre longas e curtas-metragens (ou de curtas entre si) durante suas sessões.

Não é algo novo, nem revolucionário, apenas uma ferramenta que firma de maneira assertiva a postura do festival diante do mundo – algo que a atual direção artística do FBCB estabeleceu desde sua primeira incursão, em 2016.

Tal estratégia de programação, sendo constantemente elogiada pelos cineastas envolvidos no evento parece ter recebido nesta edição 2018 um peso extra, se consideramos que o festival encerrou apenas duas semanas antes da votação de primeiro turno para as eleições presidências do País. E não estamos falando de uma eleição morna ou tradicional, mas daquela que é, assumidamente, a mais polarizada em décadas; e com seus respectivos efeitos afetando diretamente a vida de todos os brasileiros.

Mas onde entra o cinema e o Festival de Brasília nisso tudo? Entra como uma ilha, tal qual falamos no texto de abertura do festival (leia aqui) e publicado no CinemaEscrito. Uma ilha onde a reverberação do discurso político sobre questões normativas, de gênero sexual e validade étnica encontrava ouvintes atentos, com aproveitamento absoluto do que ali era dito em cada filme e por sua composição de programação.

Isto é, o 51º FBCB, além da exposição que deu aos filmes e ao que eles tinham a dizer – apoiado pelo respaldo construído para si ao longo de meio século -, teve em sua programação 2018 um amplificador acionado no volume máximo para tais discursos serem escutados.

Não por acaso, na noite da premiação (24/9), foi lida uma carta cujo teor político estabelecia o nascimento da Associação de Produtores Independentes (API), “…para representar democraticamente quem faz cinema autoral nos mais diversos estados brasileiros, cinema este já reconhecido mundo afora, para garantir que tenhamos esse reconhecimento também aqui no Brasil!”. Carta que era também uma reposta contra a política sugerida pela atual gestão da Agência Nacional de Cinema (Ancine) e sua polêmica lista que norteia o acesso de produtoras ao Fundo Setorial do Audiovisual.

Tal qual A ilha dos prazeres proibidos (1979), de Carlos Reichenbach, a 51ª edição do FBCB serviu de espaço à exposição e ao recrudescimento de uma liberdade de expressão interessada em demonstrar a igualdade em todas as instâncias e quebrar valores normativos opressores.

O bom é que, ao contrário do filme de Carlão, não havia na ilha brasiliense nenhum falso jornalista (não que tenhamos percebido) para dar cabo de pensadores do naipe de André Novais Oliveira, Gabriela Amaral Almeida, Kiko Goifman com Cláudia Priscilla, Beatriz Seigner e Quentin Delaroche com Victória Álvares, entre tantos outros, que ali propagavam ideias muito bem iluminadas pelo facho de luz do projetor do Cine Brasília.

Que assim continue.

* Luiz Joaquim  foi presidente do júri Abraccine no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

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