O olhar dos outros

socrates

Roger Lerina*

A despeito da heterogeneidade dos 17 títulos avaliados pelo júri do Prêmio Abraccine na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, algumas tendências e linhas de força puderam ser percebidas entre esses primeiros filmes de realizadores brasileiros – recorte estipulado para o julgamento dos cinco integrantes da Associação Brasileira de Críticos de Cinema responsáveis pela escolha do melhor trabalho. Um dos vetores que caracterizou esse apanhado de longas de estreantes foi o olhar para o outro, para o diferente, para o que escapa à norma e, muitas vezes, é relegado à margem da sociedade e das narrativas dominantes. Não se trata, por certo, de novidade: já não vem de agora essa vertente cinematográfica que dá voz e imagem a grupos socialmente apequenados ou apartados – há uma crescente e vigorosa produção audiovisual internacional e, como não poderia ser diferente, também brasileira voltada para temáticas alternativas e confrontantes ao status quo. No entanto, mesmo carecendo de ineditismo, essa disposição para abordar a diversidade no cinema – um escopo genérico e abrangente, que engloba de questões de identidade de gênero a discriminações raciais e sociais – está na essência de alguns dos melhores filmes exibidos na edição de 2018 da Mostra de São Paulo como um todo, e não apenas do universo de produções brasileiras analisado pelo júri da Abraccine.

O foco em “histórias de alteridade” deu a tônica em vários dos 17 longas concorrentes ao Prêmio Abraccine, tanto documentários quanto ficções. Curiosamente, dois dos títulos mais interessantes dessa seleção debruçam-se sobre temáticas similares e podem ser colocados lado a lado como uma espécie de díptico: “Meio Irmão”, de Eliane Coster, e “Sócrates”, de Alex Moratto. Ambos os “filmes irmãos” são dramas sobre adolescentes de periferias de cidades grandes paulistas – o primeiro ambientado na capital, o outro em Santos – que enfrentam a ausência dos pais, o preconceito racial, a carência material, o tumulto interno e exterior de uma sexualidade ainda em afirmação. Em “Meio Irmão”, a mãe de Sandra – interpretada com impressionante vigor pela jovem atriz Natália Molina – está sumida há dias, deixando a menina sozinha em casa, já que o pai não mora com elas e mantém-se distanciado. Desorientada e sem dinheiro, a garota pede ajuda a Jorge, seu meio irmão, que é filho de sua mãe com outro homem. Entretanto, o rapaz negro – Sandra é branca – enfrenta igualmente uma situação difícil: após gravar no celular uma agressão homofóbica, passa a sofrer ameaças para não divulgar as imagens. O protagonista de “Sócrates” é também um jovem negro homossexual, que subitamente descobre-se sozinho no mundo aos 15 anos quando a mãe morre de repente. Vivido com empenho pelo ator Christian Malheiros, o protagonista é obrigado a encarar uma angustiante jornada em busca da sobrevivência, enfrentando a pobreza, a violência, o descaso do pai e a homofobia. Os esforços dos realizadores desses filmes – que à sua maneira ecoam o realismo humanista do cinema dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne – foi reconhecido nas premiações da Mostra: “Meio Irmão” ganhou o Prêmio Petrobras de Cinema de Melhor Filme Brasileiro de Ficção e o Prêmio Abraccine, enquanto “Sócrates” levou a Menção Honrosa do Júri Internacional.

A resistência à invisibilização e à exclusão social também deu o tom em boa parte dos documentários. O engajamento aproxima “Vitória” e “Santo Amaro Era Skatista”, produções que narram de maneira cinematograficamente convencional a luta de dois personagens que as circunstâncias transformaram em ativistas de causas socialmente relevantes. No campo, “Vitória” acompanha 13 anos da vida de uma família de agricultores ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, cuja matriarca participa de marchas e assentamentos, sempre na incansável esperança de um dia conseguir um pedaço de chão. A exemplo do antológico “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho, e dos documentários sobre questões indígenas dirigidos por Vincent Carelli, o longa do diretor Alberto Bellezia narra em primeira pessoa esses encontros e separações ao longo do tempo, encadeando de maneira correta mas sem inovação os episódios desse drama tão tipicamente brasileiro. Já na cidade, “Santo Amaro Era Skatista” conta como o jovem Ademar Luquinhas, morador de uma favela da zona sul do Rio de Janeiro, transformou-se de esportista premiado a ativista comunitário ao mobilizar a vizinhança em prol da construção de uma pista de skate no seu bairro de origem. Em sua estreia no longa, o diretor Felipe Martins vai pouco além de um protocolar registro jornalístico do personagem, sua missão e seu entorno.

Nesse sentido formal, Brunna Laboissière ousa mais em “Fabiana”: a diretora estreante registra de dentro da cabine do veículo a última viagem da personagem-título de seu documentário, mulher trans e caminhoneira, que decide se aposentar depois de 30 anos rodando pelas estradas brasileiras, deixando para trás amores nômades e aventuras fugazes. O resultado, entretanto, deixa a desejar: apesar de sua potencial efetividade narrativa, o dispositivo fílmico proposto não dá conta de registrar a complexidade de Fabiana, cuja riqueza psicológica e singularidade sexual, social e profissional são apenas tangenciadas na tela. A narrativa se ressente de maior aprofundamento na intimidade de seu objeto – uma abertura constantemente acenada pela própria Fabiana, mas pouco explorada no filme, que fica talvez excessivamente apegado a um projeto original de manter-se mais neutro diante de sua figura central ou mesmo por causa da inexperiência da realizadora.

Dois documentários abordaram o cotidiano de deficientes físicos – e também levam os nomes de seus protagonistas no título: “Um Dia para Susana” e “Meu Nome É Daniel”. A primeira produção acompanha a batalha da nadadora profissional Susana Schnarndorf para manter-se competindo em categorias especiais mesmo depois de descobrir que sofre de uma doença degenerativa, ao mesmo tempo em que tem de encarar as tarefas e demandas do papel de mãe de três filhos. Como “Santo Amaro Era Skatista”, o longa de Giovanna Giovanini e Rodrigo Boecker repoduz a linguagem da reportagem televisiva e contenta-se na mera apresentação da protagonista e seu drama pessoal, pouco avançando em sua subjetividade e nada acrescentando cinematograficamente. Em contrapartida, “Meu Nome É Daniel” tira partido do viés confessional: o diretor Daniel Gonçalves conta a sua própria história, narrando em primeira pessoa sua trajetória do nascimento à atualidade, ilustrada por muitas imagens amadoras de vídeos familiares. Trata-se de um filme de busca: Daniel nasceu com uma deficiência motora que até hoje nenhum médico conseguiu determinar – e o realizador convida o espectador a acompanhá-lo em suas reflexões para tentar compreender sua condição. Graças à inteligência e ao bom humor do discurso do diretor-narrador, “Meu Nome É Daniel” permite ao público compartilhar das experiências, dúvidas e angústias do personagem e sentir-se à vontade em sua intimidade doméstica – a profusão e a variedade de cenas de registros caseiros, aliás, acabam compondo um interessante álbum de retratos da classe média brasileira da virada do século até hoje. Pena que, no final, Daniel tente colocar sua experiência de excepcionalidade em perspectiva com relação a outras diferenças estigmatizadas pela sociedade e encerre o filme com uma coda que soa artificial e destoa totalmente de sua proposta.

Por fim, “Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos” borra os limites de ficção e documentário para mostrar a vida de um jovem casal indígena também em uma situação limítrofe, entre a vida na aldeia e na cidade. Vencedor do Prêmio do Júri da seção Um Certo Olhar no Festival de Cannes, o longa do português João Salaviza e da brasileira Renée Nader Messora mostra o dilema do krahô Ihjãc, atormentado por pesadelos depois da morte do pai e que reluta em aceitar o que todos dizem ser seu destino: tornar-se xamã. Inconformado com sua sina, o rapaz deixa a mulher e o filho pequeno e foge para a cidade – mas lá no meio dos brancos Ihjãc continua sentindo-se deslocado. Tecnicamente muito bem realizado – com destaque para a qualidade da fotografia, da montagem e do desenho de som –, o filme tem belos momentos oníricos, como as sequências inicial e final, que lembram “Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas” (2010), do tailandês Apichatpong Weerasethakul. Esse hibridismo formal e temático de “Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos” pode servir de exemplo de estratégia bem sucedida para narrativas cinematográficas de alteridades: o olhar do outro deve ser incorporado de alguma maneira ao projeto, a fim de construir pontes que liguem autenticamente os mundos nem sempre próximos do realizador, do objeto filmado e do espectador.

* Roger Lerina foi presidente do Júri Abraccine na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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