Dossiê Festival de Brasília: Temáticas amazônica e indígena

Adriana Androvandi *

Duas produções com temática amazônica estiveram entre os principais vencedores do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Com enfoques diversos, cada uma ressaltou situações que envolvem nativos da região. São os filme A Febre e O Tempo que resta. E, no contexto em que o Brasil se encontra em 2019, com recorde de áreas desmatadas e extensas regiões da floresta Amazônica sendo destruídas por incêndios, estes filmes nos trazem reflexões urgentes.

Um indígena que mora com sua família na cidade de Manaus é o ponto de partida de A Febre, dirigido por Maya Da-Rin (RJ). Este foi o grande vencedor da mostra competitiva de longas, recebendo cinco estatuetas: melhor longa-metragem (júri oficial), direção, ator (Régis Myrupu), fotografia (Bárbara Alvarez) e som (Felippe Schultz Mussel, Breno Furtado, Emmanuel Croset). Justino é um pai de família do povo Desana. Acompanhamos, no início da narrativa, sua rotina como vigilante em um porto de cargas de Manaus. Aos poucos vamos percebendo que ele é viúvo e seus filhos estão adultos. A filha, Vanessa, que ainda está em casa com ele, trabalha como técnica de enfermagem e recebe a notícia de que foi aprovada para cursar uma faculdade de Medicina em Brasília. Justino, então, é tomado por uma febre misteriosa. Uma criatura na mata o instiga. De dia, ele luta para se manter acordado no trabalho. O motivo desta febre pode ter como causa vários elementos. Mas o que se pode ter certeza é que Justino está em uma situação incômoda. Em uma cena, ele diz para a filha que passa o dia de tocaia, mas sem caça. Seu trabalho como guarda no porto o faz observar contêineres sendo transportados de um lado a outro, em sequências que contrastam imagens frias de maquinários industriais com o verde das matas. As diferenças entre a vida em uma aldeia e na cidade se tornam mais claras quando Justino recebe a visita do irmão e da cunhada. O irmão, com a idade de um senhor, comenta que Justino tem tudo onde mora, mas o convida a voltar para a aldeia. O protagonista não lhe responde de pronto, mas diz uma frase que lhe revida a impressão de facilidade: “aqui se você não tem dinheiro não come”. Morando na periferia, Justino mantém alguns hábitos de seu povo, como a coleta de bananas na mata, sendo uma referência à agricultura de subsistência dos grupos que vivem na floresta.

Uma conversa com um novo vigia do porto, um ex-peão de fazenda, traz uma forte carga de preconceito e choca o personagem. O novato diz que vivia armado na fazenda por causa dos índios, que no Interior do Brasil ainda não eram domesticados ou amansados como os que estão na cidade, palavra que os compara a animais selvagens. Qual é, portanto, a identidade de indígenas que vivem em tribos urbanas? Como a sociedade dominante os recebe? Serão eles plenos somente se viverem dentro da floresta? E, mesmo na floresta, serão deixados em paz pelo homem branco? A Febre nos proporciona essa reflexão, além de realizar um precioso registro antropológico de diferentes línguas indígenas da região do Alto Rio Negro.

Fora da tela

Uma questão que é digna de nota, pelo seu caráter inclusivo, foi a presença do cineasta Takumã Kuikuro (do filme As Hiper Mulheres), da região do Xingu (MT), como convidado para integrar o corpo de jurados da categoria competitiva de curta-metragem do Festival de Brasília. Esta iniciativa inédita poderia inspirar outras instituições a pensar na representatividade de diferentes povos nativos em ações culturais.

Debate com equipe do filme “O tempo que resta” | Thaís Mallon

Sobrevivência

Outro filme que se passa na região amazônica é O tempo que resta, de Thaís Borges (DF), rodado na região do Pará. Foi o eleito como Melhor Filme pelo Júri Popular e pelo Júri da Crítica Abraccine. Pelo júri oficial, levou o Candango de Melhor Roteiro.

Em cena, histórias de duas mulheres da Amazônia brasileira que estão ameaçadas de morte: Osvalinda Marcelino Pereira e Maria Ivete Bastos. Uma rompeu com as relações de dependência impostas pelas milícias madeireiras. A outra levantou a voz contra o agronegócio e a mineração que se expandem floresta adentro. Elas estão marcadas para morrer. O filme acompanha seus cotidianos, o seu trabalho como agricultoras, enquanto mostra como são pressionadas de diversas maneiras a desistir. Uma das formas de coação é a presença de motoqueiros que rondam suas casas.

Há mais de uma década a diretora conheceu essas duas mulheres e resolveu contar suas trajetórias, o que resultou em uma amostra dramática do que tem acontecido no Pará. Em comum, as duas sofrem com problemas de saúde, mas não esmorecem na luta contra os que derrubam a floresta. A cineasta revelou sensibilidade e respeito na abordagem e na edição, por não explorar em demasia esta questão, o que poderia vitimizar as protagonistas. Thaís Borges contou, durante o debate realizado na manhã seguinte à projeção do filme no Cine Brasília, que a pesquisa sobre a questão começou quando ela ainda era jornalista. “Conforme os números da Organização Mundial do Trabalho, o número de mortes no campo se assemelha a de uma guerra civil”, disse. Uma lista de nomes de pessoas que perderam a vida nesta causa, tendo como fonte a Pastoral da Terra (mesmo que se saiba que é grande o número de mortes não notificadas), dá uma dimensão dos crimes que estão ocorrendo longe dos centros urbanos.

Conforme o Júri da Crítica citou em sua justificativa para conceder o prêmio Abraccine ao filme “O Tempo que resta”, a causa é urgente, especialmente em um ano em que a Amazônia está pegando fogo. Toda obra que traz visibilidade ao assunto é necessária. Além disso, o filme mostra o grau de perversão dos inimigos da floresta. Eles não apenas colocam árvores abaixo, mas expulsam, coagem e matam pequenos agricultores, além de ameaçar, de forma sórdida, os que resistem.

Ivete e Osvalinda estiveram no festival, acompanhadas de seus maridos, e deram depoimentos alarmantes. “A gente tá morrendo por dentro”, disse Ivete, contando que recebeu o recado de que não “somente” iriam matá-la, como “não seria uma morte rápida”. Osvalinda contou que recebeu um telefonema em que foi informada que o justiceiro contratado para matá-la ganhou uma fazenda por antecipação. Já foram feitos mais de 12 boletins de ocorrência na polícia. E o pior de tudo: a proteção policial a que tinham direito está sendo retirada. “Vivemos em um estado em que quem manda é o dinheiro”, lamentou Osvalinda. Esperamos que a visibilidade recebida com o filme possa ajudar essas duas guerreiras em sua luta pela floresta.

Em termos de linguagem, O Tempo que resta alterna sequências de ação e observação, o que resultou em uma montagem que torna o tema, bastante pesado, um pouco mais digerível. Ao contrário de outros documentários em que se dá prioridade para entrevistas formais (como no caso de outro documentário Giocondo Dias – Ilustre Clandestino, Vladimir Carvalho, exibido fora de competição no festival, apenas para ficar dentro do evento), as falas das protagonistas ocorrem em conversas com outros interlocutores, de forma mais espontânea, mesmo que seja clara a presença da câmera. A observação das imagens é tão potente quanto os depoimentos em cena, pois informa ao espectador sobre a vida daquelas famílias, as formas sustentáveis de extrativismo de alimentos, em uma rotina que procura se integrar ao meio ambiente e não destruí-lo.

* Adriana Androvandi integrou o júri Abraccine do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

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