55º Festival de Brasília: Temática indígena se destaca em dois documentários

*Paulo Henrique Silva

Além de ter garantido o principal prêmio do 55º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com o documentário “A Invenção do Outro”, de Bruno Jorge, a temática indígena preencheu a tela do Cine Brasília com o mais recente trabalho do diretor Jorge Bodanzky, “Amazônia, a Nova Minamata?”, exibido em mostra fora de competição.

Os dois filmes chamam a atenção por apontarem caminhos opostos em sua realização, a começar pelo o que cada um tenta esconder. Com “Minamata”, Bodanzky se retira completamente de cena – ele não aparece em cena e nunca ouvimos a sua voz, situações que são bem comuns neste tipo de filme, em que o realizador conduz uma investigação.

O personagem branco que lidera a expedição à bacia do Alto Tapajós é o médico Erik Jennings. Apesar de ser um dos responsáveis por denúncia a alta concentração de mercúrio na população indígena, devido à contaminação de rios e peixes a partir de garimpos ilegais, ele praticamente “desaparece” documentário, que passa a ter outras vozes.

Há uma tensão inicial, em que Jennings é quase morto ao pousar numa região em que alguns indígenas, trabalhadores dos garimpos, se mostram contrários à continuidade dos exames que estão sendo feitos na população. Mas depois o filme vai se tornando cada vez mais polifônico, a ponto de Bodanzky cruzar o planeta e desembarcar no Japão.

No país asiático, ele exibe a tragédia ocorrida Minamata, durante a década de 1940, onde a contaminação de mercúrio se tornou responsável por várias doenças  neurológicas. A realidade do Japão de outrora se espelha no Brasil de hoje. Um filme de denúncia em que, após duas horas de projeção, deixa claro o tratamento dado pelo governo atual aos povos originários.

"A Invenção do Outro" (2022), de Bruno Jorge - Divulgação
“A Invenção do Outro” (2022), de Bruno Jorge – Divulgação

De uma maneira inviesada, é o  que “Amazônia, a Nova Minamata?” tem em comum com “A Invenção do Outro”. A intenção de Jorge está longe de fazer um filme de denúncia, concentrando-se em registrar o primeiro contato de indigenistas com um povo isolado. Mas a presença de Bruno Pereira muda completamente essa visão.

Pereira foi assassinado em junho desse ano, ao lado do jornalista britânico Dom Phillips, após ambos iniciarem um trabalho de investigação no Vale do Javari, na Amazônia, em torno de áreas indígenas invadidas por garimpeiros e madeireiros. O filme não se apropria do fato e, muito menos, tenta dar protagonismo ao indigenista.

Mas o tom de “denúncia”, de revolta, impulsiona “A Invenção do Outro”, ao exibir a importância do trabalho de Pereira. As imagens do encontro de dois índios perdidos com seus parentes de uma tribo isolada é pautada por tensão e por um estado de transe, quando eles passam a mão em seus corpos sem parar  choram copiosamente.

A beleza dessa cena se contrapõe, na costura feita em nossa mente, ao assassinato de Pereira, gerando sentimentos que vão da emoção à revolta. “Quem é o outro?”, parece indagar o filme. Aquele que, no sentido literal e figurado, leva doenças aos indígenas? Aqui chegamos a um ponto em comum com “Amazônia, a Nova Minamata?”.

No caso do longa-metragem de Bruno Jorge, há uma deliciosa inversão, vista na sequência em que as mulheres da comunidade indígenas pedem para uma agente da Funai para tirar suas roupas, tocando o seu corpo. Todos da expedição passam a seguir esse ritual, comungando a emoção de encontrar os seres humanos “mais puros” do mundo.

Enquanto Bruno Jorge fecha o seu filme cada vez nesse inédito encontro, “Amazônia, uma Nova Minamata?” se abre, viaja ao Japão, mostrando uma preocupação mundial para que o que acontece aqui, e finaliza com mulheres que surgem como uma possível salvação para uma terra sem lei – o retrato do Brasil dos últimos quatro anos.

*Paulo Henrique Silva fez parte do Júri Abraccine.

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