Dossiê Festival de Brasília: Faltou olhar para trás

Cecilia Barroso *

Foi um Festival de Brasília estranho. A 52ª edição foi um retrato deste nosso tempo, um tempo onde alguns tentam ocupar espaços não para trazer novas proposituras e movimentos, mas destruir e criar um vácuo cruel e outros tantos buscam alguma forma de resistência. Quando alguns dos métodos que têm se tornado comuns Brasil afora entraram no Cine Brasília e passaram a fazer parte do cotidiano do evento, que viu berros de um diretor do festival contra a realizadora de um dos filme e o microfone sendo cortado em meio a leitura de uma carta contra o secretário de cultura, entre outras situações.

O clima agitado da logística e dos bastidores também esteve no pensar do cinema, embora a vibração fosse outra. Não havia a truculência devastadora de tomada de poder que se sentia lá fora, embora o sentimento de demarcação de espaço fosse perceptível, como é em qualquer nova equipe curatorial, não tinha o mesmo caráter destruidor que o circundava. Percebia-se a preocupação em deixar que aquele espaço se perdesse, havia uma certa intenção de resistência naquela ocupação. Mas havia ingenuidade também, e muita inexperiência.

Encabeçada por Marcus Ligocki, a comissão tinha interesse – e declarou isso desde o primeiro momento – de popularizar o festival, fazer com que ele chegasse ao grande público. O resultado foi uma mostra principal meio disforme, sem muita identidade e permeada de equívocos de seleção e programação. Em um ano tão profícuo para o cinema, uma estrutura de tantos filmes onde os diálogos entre obras estavam tão espaçados e quase impossibilitados representa algum problema muito grave na seleção.

Em momento algum, antes de chamar essas pessoas para fazer a seleção, e na intenção de “mudar o festival”, ninguém parou para pensar que o festival tem um público. Aquele que ele vem construindo ao longo de mais de 50 anos e que pensa o cinema de uma maneira que está muito longe desta lógica de produtor que Ligocki e cia buscavam. Louvável, obviamente, a intenção de não deixar o festival acabar; ou de não dar espaço para uma mostra com viés partidário ou voltada apenas a um gênero de filmes, como dizia um boato do primeiro semestre do ano; e até salutar que se varie um pouco do modelo Cinética/Contracampo que determina não só o padrão curatorial mas a feitura de parte dos filmes do país, porém, não dá para chamar para fazer a curadoria do festival mais importante do Brasil pessoas que apenas gostam de cinema e não pensam nos filmes, além de suas qualidades técnicas e gostos pessoais, como elementos de diálogo e potência.

Os filmes

Não dá para falar dos filmes do festival e não citar o estranhamento causado pelo longa de abertura, O Traidor, de Marco Bellocchio. Ainda que seja uma coprodução brasileira e que os irmãos Gullane, junto com Maria Fernanda Cândido, estivessem no palco para apresentá-lo, o filme é italiano, conta uma história italiana, de um italiano que esteve um tempo no Brasil. Abrir o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é um recado muito claro do que se almeja.

Mas o recorte deste texto observa a mostra competitiva de longas-metragens, aquela que naturalmente chama mais atenção em um festival deste tamanho e que, nesta edição apresenta um apanhado desequilibrado e carente de diversidade, nem sempre programado da melhor maneira com os curtas que os acompanhavam nas sessões.

Neste pacote disforme, algumas apostas isoladas (e boas) se sobressaem, como o belíssimo emprestar da mitologia e do tempo de A Febre, de Maya Da-Rin; ou o tradicional, como o retorno de Cláudio Assis, mas numa forma diferente da sua, mais controlada, em Piedade.

Se olha para a questão trans com a comédia juvenil de afetos e descoberta Alice Junior, de Gil Baroni, bastante prejudicado pela transferência do festival para novembro; e para a questão do desmatamento e do aniquilamento de vidas no Norte com o observar, conhecer e denunciar de O Tempo que Resta, de Thaís Borges, na vaga destinada à produção regional, que acabou levando o prêmio Abraccine de melhor longa-metragem.

Porém, força-se uma interação com um cinema mais comercial. Escolha que se empalidece e esvai justamente pela inexistência de qualquer contraposição de diálogo de representação, quando hoje em dia coloca a mulher no papel de subjugada, histérica e assassinada, como faz em Loop, de Bruno Bini, sem que haja qualquer outro filme na mesma mostra que demonstre em um outro papel. Pior, programe-se este mesmo longa, junto com dois curtas-metragens de mensagens completamente contrárias, caso de , de Julia Zakia e Ana Flavia Cavalcanti, e Angela, de Marília Nogueira.

Em um lugar melhor, mas ainda estranho ao público do Festival de Brasília, está o Huis clos de Kauê Telloli Volume Morto. Com ele, o documentário O Mês que Não Terminou, mais um sem distanciamento apanhado político que fala sobre coisas que ainda não foram faladas e causa reações.

Nas cercanias da mostra principal, em um festival inchado, com sessões o dia que começavam às 10h da manhã e coisas mais interessantes, como o contraponto feminino que a competitiva precisava, por exemplo, em Fakir de Helena Ignez; ou a experiência estética do gaúcho A Colmeia, de Gilson Vargas; a música de Dorivando Sarará, o preto que virou mar, de Henrique Dantas; o nonsense doméstico de Vermelha, de Getúlio Ribeiro; a juventude de Um Filme de Verão, de Jo Serfaty.

Filmes que estão em mostras paralelas, são relativamente diferentes, mas foram selecionados e fazem mais sentido olhando-se em retrospectiva para o Festival de Brasília. No momento em que o desmonte anda tão em voga, por que optar pela ruptura radical se o objetivo é o de manter o festival vivo? Esta vai ser a grande questão durante muitos anos.

Antes de qualquer alteração que uma nova curadoria queira fazer é preciso pensar no festival que se está assumindo, a história que está por trás dele e lembrar que o objetivo primeiro de um evento cinematográfico é o de formação de público. Não é possível passar anos formando um público para mudar a oferta do cinema a este público de um ano para o outro.

* Cecilia Barroso integrou o júri Abraccine do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Foto no destaque: Thaís Mallon

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