Estilhaços, de Natalia Garayalde: Imagens familiares como matéria-prima para o filme denúncia 

Wallace Andrioli*

Vencedor do Prêmio da Crítica Abraccine no 10º Olhar de Cinema, Estilhaços (Esquirlas, 2021), de Natalia Garayalde, começa como uma compilação de filmes de família realizados no início da década de 1990, na cidade de Río Tercero, Argentina. A pequena Natalia e seu irmão exploram a ludicidade da câmera recém comprada pelo pai, realizando breves esquetes com trucagens reveladoras de uma criatividade encantadora. Até que uma dimensão inesperada do mundo invade aquele cotidiano e conduz seus olhares – e, consequentemente, o de Estilhaços – para outros lugares. 

O filme de Garayalde se mantém num equilíbrio muito interessante entre o rigor estilístico e a abertura à imprevisibilidade na relação com as imagens. Predomina aqui uma lição do método de Eduardo Coutinho, no sentido da autoimposição de limitações como vetor criador de possibilidades inúmeras. Garayalde não estabelece para si um dispositivo temporal ou espacial, como fazia o documentarista brasileiro, mas segue à risca a proposta de só trabalhar com imagens de arquivo, sejam eles familiares ou públicos. Há apenas uma possível exceção, quando, já perto do final, aparecem as silhuetas da diretora e de seu pai num hospital, ele lendo um texto oferecido por ela, cena que parece ter sido realizada para o filme. Nada, portanto, que se aproxime das pretensões poéticas de Petra Costa nos momentos finais de Elena (2012), documentário com o qual Estilhaços tende a ser comparado e até guarda outras semelhanças: o trabalho com vídeos caseiros, a narração intimista e em primeira pessoa e o foco em memórias familiares. 

Dentro da restrição definida pela diretora, havia vários caminhos a serem seguidos para abordar o tema da explosão da fábrica militar de Río Tercero, evento cataclísmico que redireciona a narrativa: por meio de noticiários televisivos da época, de registros cotidianos, dos vídeos de denúncia gravados pelo operário acusado de ser o responsável pelo ocorrido… Garayalde faz sua escolha, privilegiando a dimensão íntima, os impactos da explosão sobre a vida de seus familiares. Mas resquícios das outras opções permanecem no filme, explicitando a existência delas anteriormente ao ato da montagem e, ao mesmo tempo, ajudando a contar essa história, já que preenchem algumas lacunas e introduzem contexto. 

As cenas televisivas demarcam a presença de uma dimensão macro, concretizada sobretudo na figura de Carlos Menem, então presidente da Argentina. O aparecimento dessa espécie de totem do poder, se pronunciando enfaticamente sobre a natureza de um acontecimento que sequer começara a ser investigado, insere ainda cedo em Estilhaços a existência de um nó político a ser desatado. Já os vídeos do operário tornado bode expiatório aumentam as suspeitas sobre o governo e apontam para a tragédia de um homem ordinário, alçado ao posto de vilão de uma história nebulosa para encobrir ações escabrosas dos “de cima”.O resultado final obtido por Garayalde é uma combinação impressionante de filme denúncia sobre gente comum lutando contra os interesses de poderosos, tão (ou mais) envolvente quanto os muitos semelhantes realizados diuturnamente em Hollywood, e olhar delicado para memórias muito pessoais. Nesse cruzamento entre público e privado, entre a História e os pequenos momentos familiares, sobrevém uma melancolia inevitável, relacionada a algo que a própria diretora verbaliza: a sobrevivência das imagens às pessoas. Diante dessa constatação, resta, em respeito à memória dos que já não vivem, saber trabalhar com seus registros visuais deixados para trás. Garayalde sabe e a lindíssima cena que encerra Estilhaços é o exemplo mais acachapante disso.

*Wallace Andrioli fez parte do Júri da Abraccine

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