45ª Mostra de São Paulo: Novos diretores apontam para novos rumos?

*Kel Gomes

Antes de qualquer coisa, um aviso: a pergunta do título não encontra resposta definitiva neste texto. Minha intenção é elaborar – e abrir para o diálogo – sobre as percepções que tive ao longo do percurso de filmes brasileiros vistos na seção Novos Diretores da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, competição que apresenta trabalhos de cineastas em seu primeiro ou segundo longa-metragem. Se por um lado houve o frescor de se deixar guiar por novos olhares, por outro não há como ignorar a sensação de familiaridade, reconhecimento ou até mesmo estagnação, que também se fez presente neste visionamento. 

Esta edição da Mostra chegou ao público em formato híbrido, depois do longo ano pandêmico de 2020 não ter dado condições para uma mostra presencial. Ainda estamos em pandemia, mas agora em um momento de transição, entre as pequenas telas de casa e as grandes telas das salas de cinemas, que voltam a funcionar. O medo, a tristeza e o sofrimento começam a dar lugar a uma certa esperança de recomeços, de possibilidades, ainda que tímidas. A hibridez é o que caracteriza não só o formato do evento, mas todo um modo de estar no mundo hoje.

No recorte de filmes brasileiros em questão, enquanto espectadora, me senti sendo levada de um lugar – ou rumo –  a outro, de um cinema a outro, transitando por diferentes tempos e facetas de um mesmo país. Fragmentos que podem ser conectados, mas que são bastante diferentes entre si.  Alguns destes filmes nos colocam de frente com problemas que são antigos, históricos. Feridas abertas que não cicatrizam.  Dores às quais sempre retornamos. Como o documentário “Memória Sufocada”, de Gabriel Di Giacomo, que delineia paralelos diretos entre o período da Ditadura Militar e a atualidade do Governo Bolsonaro. Passado e presente se entrelaçam em sons, imagens e discursos. O filme é também um gesto contra o esquecimento, com uso de material de arquivo digital que se apresenta e se monta na estética da internet e redes sociais.

“Madalena”, de Madiano Marcheti – Divulgação

Outra ferida está exposta em “Madalena”, de Madiano Marcheti. A personagem-título, em sua ausência e fantasmagoria, faz refletir sobre o Brasil como país que mais mata pessoas trans. E para além disso, por meio dos três protagonistas que se relacionam ao corpo assassinado, discute como as pessoas lidam com esse dado, com essa violência. Entre efeitos de real e efeitos fantásticos, o filme traz um olhar sutil, mas assertivo sobre o espaço onde a narrativa se passa – uma pequena cidade cercada por extensas plantações de soja no Mato Grosso do Sul – e cria imagens marcantes e simbólicas, que continuam a ressoar muito tempo depois do fim da sessão.

Saindo do campo da falta e indo de encontro ao oposto, ou seja, a presença, chama a atenção como alguns documentários da seleção conquistam por seus personagens, traçando caminhos instigantes e afetivos muito mais pelo poder das histórias de vida e das conexões humanas do que pela invenção no uso da linguagem. É o caso de “Transversais”, de Émerson Maranhão, que retrata a transexualidade enquanto trajetória de identidade, pertencimento e resistência. Após os relatos de cinco pessoas trans sobre suas vivências, a cena última de dança na cozinha é das imagens mais esperançosas e ternas que o cinema brasileiro recente nos ofereceu.  Também, “Tempo Ruy”, de Adilson Mendes, que demanda a escuta e a observação em um tempo muito próprio, o tempo do Ruy aos 90 anos de idade. E ainda, “Fédro”, de Marcelo Sebá, que propõe um jogo de cena e de reencontro filosófico entre o ator Reynaldo Gianecchini e o diretor José Celso Martinez Corrêa, nos envolvendo em dialética e teatralidade cinematográficas.

Entre todos esses títulos e outros mais da seleção, “A Felicidade das Coisas” foi o premiado pelo júri da crítica ABRACCINE formado por Diego Benevides, Lorenna Montenegro e por mim, Kel Gomes. Marcando a estreia de Thais Fujinaga na direção de longas-metragens, o filme traz alguns aspectos estéticos já conhecidos do cinema brasileiro contemporâneo, especialmente do cinema realizado pela produtora Filmes de Plástico, afirmando o lugar da narrativa que alcança o espectador e a espectadora pela valorização do cotidiano e pela empatia por personagens vividos por um elenco competente. Sem mensagens prontas, reviravoltas, clímax. Tudo se constrói no minimalismo e se revela na tessitura refinada de gestos, olhares, conversas e relações. As brasilidades da família de classe média se expressam em detalhes, incluindo as nuances políticas e sociais que são pinceladas em diferentes camadas. Fica claro, porém, especialmente para a figura materna, o esgotamento, a frustração, a constatação de que “não dá mais”. E diante desse sentimento, que rumo tomar? Um dia lúdico de piscina alivia, mas não resolve.

* Kel Gomes fez parte do Júri Abraccine.

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