25º Cine PE: Sobre “O Resto” e alguns recomeços

*Camila Henriques

O que para muitos já é rotina, foi novidade para mim. Os quatro dias do Cine PE serviram, de certa forma, como um rito de passagem para esta que vos escreve, há tanto tempo sem estar em um festival de cinema presencialmente. E, quando digo isso, não penso apenas no grande intervalo nos imposto pela pandemia, mas nas distâncias geográficas que me colocam um pouco distante desse circuito. Talvez por isso, os filmes que mais me tocaram (em uma seleção já excelente) foram os que me levaram a refletir sobre ser e estar em espaços físicos, e existir – ou não – neles.

Nós, do júri Abraccine, premiamos dois títulos que perpassam por esses temas de formas diferentes. O prêmio para o melhor longa foi para “Deserto Particular”, de Aly Muritiba, drama sobre descoberta e aceitação dos sentimentos, que, emoldurado por uma trilha sonora inspirada, ressignifica músicas e paisagens com a mesma delicadeza que o faz com seus próprios personagens.

Na seleção de curtas-metragens nacionais, as reações da plateia com a história absurda – e, ao mesmo tempo, tão real – de “O Resto”, de Pedro Gonçalves Ribeiro, deram um tom ainda mais palpável à experiência de assistir ao filme.

No curta mineiro, temos o drama de uma idosa que luta para provar que o corpo que foi enterrado com o seu nome não é realmente dela. Em outras palavras, uma mulher que “morreu, mas não morreu” e que é um fantasma como tantos outros em uma cidade assombrada. O que assombra a Belo Horizonte mostrada em “O Resto”? O mesmo que em tantos outros locais: a burocracia, que tanto desumaniza.

Aqui, a vítima é d. Iolanda, uma personagem cativante que nos conquista desde o início da narrativa, quando sua história é contada com uma irreverência que nos faz pensar que essa história terá uma resolução feliz. No entanto, não há como ter esperança em uma cidade fantasma. Ao descobrir que, de vítima, poderá ir ao banco dos réus por usurpação de identidade, ela se desespera e chora para as paredes da cidade que ela escolheu. O seu passado não importa e seu futuro, pelo visto, também não. As transformações narrativas que marcam esses dois filmes foram tratadas com sensibilidade por seus respectivos realizadores. Eu também saí um pouco diferente, um pouco renovada, e, assim como esses dois títulos e os outros mais de 30 que assisti nesses dias de festival, com a lembrança de que, por 20 minutos ou duas horas, o cinema tem o poder de eliminar qualquer distância geográfica.

* Camila Henriques fez parte do Júri Abraccine.

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