25º Cine PE: De deslocamentos e apagamentos, nos corpos e nos espaços

*Francisco Carbone

Curadorias pensam recortes específicos para seus pensamentos coletivos na hora de unir um grupo de produções para um festival. Ainda que estejam reféns de inscrições e da própria produção cinematográfica da temporada, há de se encontrar em um olhar plural uma discussão temática que muitas vezes atravessa os quereres do trabalho empreendido. Como curador, sei que a política observacional impõe-se às nossas intencionalidades muitas vezes, e o recorte que não pensamos se torna maior e obrigatório a cada bloco de filmes assistidos. 

Esse preâmbulo serve para notar a coerência no que foi feito por Edu Fernandes e Nayara Reynaud na estratégia de montar um festival ainda nos estertores pandêmicos, com as impossibilidades que o setor ainda enfrenta de ordens diversas e na condução de um festival que parece, enfim, no meio de todas esses tremores, reerguer-se e sair de 2021 com a relevância francamente restabelecida. Isso se deve a uma seleção não apenas acertada, mas sobretudo coesa, instigante. 

O que acaba por unir muitos desses títulos selecionados para o festival desse ano é sua investigação acerca do que novos corpos não-hegemônicos tem a dizer a respeito do lugar que representam, e porque muitas vezes há a necessidade de deslocamento de suas representações. Seja por escolha pŕopria ou por motivos de força maior, os corpos em cena reverberam essa provocação – eu, ser pensante e provedor social, não estou onde deveria e/ou gostaria, e por isso preciso mudar, geograficamente ou estruturalmente. 

Não apenas entre os longas da competição essa costura é desenhada, mas mesmo entre os curtas-metragens podemos perceber a complexidade temática que levou essa edição ao sucesso. Títulos pandêmicos como “Janelas Daqui”, de Luciano Vidigal e Arthur Sherman, ou “Bloco do Isolamento”, de Daniel Barros, evidenciam a necessidade de um refúgio para os corpos nos últimos dois anos, que não se encerram pelas impossibilidades, mas que deixam ainda impregnar-se por suas presenças, ainda que sejam apenas sonoras, alheias da matéria. 

Há ainda uma dose de contestação em como os espaços urbanos desprezam corpos sãos até desumanizá-los, e provocar seu desaparecimento, como em “O Resto”, de Pedro Gonçalves Ribeiro, e “O Caminho das Águas”, de Antonio Fargoni e Karla Ferreira, duas produções que revelam que o apagamento enquanto política pública é um monte do governo atual, e têm como meta disseminar o que não é jovem e normativo; “Nada de Bom Acontece Depois dos 30”, de Lucas Vasconcelos, ressalta a predileção da sociedade pelo padrão como única forma de preservar um corpo. 

Uma forma de analisar os espaços físicos em movimento é o que propõe filmes como “Terceiro Andar”, de Deuilton B. Junior, e “Aurora – A Rua que queria Ser um Rio”, de Radhi Meron. Ambos em registro de gênero, o primeiro centra no suspense psicológico para mostrar como a saída para a geografia será a eterna repetição de sua matéria, ad nauseum, enquanto o segundo transforma em animação o que o título já deixa, o desejo incondicional de transformação de um espaço físico; com o abandono percebido, o ideal não seria a transmutação absoluta?

Em cada longa-metragem, esse esboço de conflito é exacerbado. Do mais óbvio, que é o despejo imoral de seres e espaços em conjunto, promovendo a “fantasmagorização” de tudo que é concreto em “Muribeca”, de Alcione Ferreira e Camilo Soares, seu consequente abandono de tudo que é minimamente vertical até só sobrar os vestígios da luta, até o mais abstrato, que é a dissociação das periferias de seus lugares de origem, da implosão das cenografias para que cada corpo padeça de maneira explícita em “Receba!”, de Pedro Perazzo e Rodrigo Luna, o agrupamento de figuras negras em situações de assassínio mútuo para que suas existências sejam demolidas junto com os espaços que habitam, sua ideia não passou despercebida.

Em “Ainda estou vivo”, de André Bonfim, corpos encarcerados pedem voz quando é a única coisa que os salva do esquecimento, quando as paredes que os cercam também não existe mais, e a prisão é muito mais um estado de espírito que físico; um filme que abole as barras de ferro pra mostrar que é a memória que nos apaga, ou a falta dela. Outro caso de apagamento pela memória se dá em “Os Ossos da Saudade”, de Marcos Pimentel, onde o espaço desaparece conforme a distância se faz presente; não há mais a escolha, mas a circunstância, que cria o desaparecimento. Há o desejo de continuar vivo, mas as areias do tempo são implacáveis, restando a memória o desejo de continuar existindo. 

Em um filme como “Lima Barreto ao Terceiro Dia”, o próprio protagonista histórico escritor luta contra as forças sociais que o impede de considerar a própria resistência, a coragem de sua pele em vibrar contra uma sociedade que decide pelo seu silêncio, com isso desintegrando seu olhar para o próprio corpo. Em “Deserto Particular”, de Aly Muritiba, o grande vencedor da edição desse ano, há uma apropriação do corpo para si como matéria política-social, além de uma recusa ao apagamento. Também há uma recusa de um espaço central como sendo similar ao descobrir-se, e uma reflexão: os cenários são reconfigurados de acordo com seus personagens; o que representa cerceamento para uns, pode ser sinônimo de liberdade para outros.

Essa busca incessante por estar em múltiplos lugares, em nos reconhecer em espaços que não nos era permitido, e a recusa em apagar nossa essência, nossa presença, foi um dos legados que o 25º Cine PE deixou no espectador, a prova de que a sua própria resistência, perseverança e negação ao desaparecer pode fazer refletir em uma seleção que parece ter sido inspirada por sua História recente, e saído desse lugar com a força descomunal para os próximos 25 anos.

* Francisco Carbone fez parte do Júri Abraccine.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s