11º Olhar de Cinema: Freda

*Rafael Carvalho

Quando a mãe de Freda vai apresentar a filha ao novo pastor da igreja evangélica e ele estranha o nome dela, a garota confirma: “isso mesmo, é o nome de uma deusa vodu”, mais ou menos com estas palavras; a mãe rapidamente tenta justificar que aquele nome foi dado há muito tempo, que custa muito caro alterá-lo agora no cartório e logo trata de mudar de assunto. Na universidade, volta e meia Freda (vivida por Nehemie Bastien) se envolve em discussões sobre o ensino de línguas estrangeiros, como inglês e francês, em detrimento da língua crioula local, ou em debates sobre a importância de se valorizar a figura de Dessalines, o herói nacional haitiano.

É em torno desse tipo de conflito e embate – das pautas identitárias e do entendimento histórico do país como forma de perceber e iluminar o presente – que o filme da haitiana Gessica Généus se move. “Freda” registra uma juventude em ebulição em Porto Príncipe nesse primeiro longa-metragem da jovem cineasta que parece imbuída da tarefa de inserir no filme diversas pautas e discussões políticas que circundam o debate público – tanto quanto ele é, de fato, presente na malha social do país, algo que daqui não sabemos ao certo, ou o quanto ele faz parte da bolha da cineasta. De qualquer sorte, o filme é uma maneira de lidar com as mazelas e eternas contradições de um país colonizado e tão brutalizado, ainda nos dias atuais.

Geralmente esse tipo de proposta produz uma salada um tanto disforme nos filmes, mas Généus cria aqui um ambiente muito crível em torno da família da protagonista para traçar tais discussões. É um curioso caso de microcosmo familiar que reflete uma estrutura social muito maior, claro que a partir das peculiaridades de cada um dos personagens. Freda vive num lar matriarcal, junto com sua mãe, a irmã e o irmão – único homem da casa, já que o pai é figura ausente. Os jovens buscam conquistar um lugar no mundo, um trabalho, uma perspectiva de futuro, enquanto a religião evangélica é o suporte da mãe que mantém um minimercado na frente de casa, negócio com o qual sustenta a família.

Freda – Divulgação

Há um frescor muito pulsante nesse ambiente caseiro, na intimidade que o filme capta, sem deixar de fazer emergir as contradições e as dores que não demoram a aparecer – o filme abre com um sonho da protagonista a resgatar memórias da infância, quando ela era abusada sexualmente pela figura paterna; “Freda” acorda assustada, mas precisa enfrentar o dia a dia, tipo de metáfora perfeita para se entender o próprio Haiti com suas feridas históricas e o desafio de se sustentar como pátria diante das tantas contradições sociais pelas quais vêm passando.

O maior desses conflitos sócio-políticos, que reverbera diretamente na vida daquelas pessoas, tem relação com os fluxos migratórios e a decisão de deixar ou não o país – algo que o aproxima de outro filme da competição do Olhar de Cinema, o colombiano “A Ferrugem”, de Juan Sebastian Mesa. Freda está cercada por essa opção. Quando recebe a visita de seu namorado, que mora em Santo Domingo, capital da vizinha República Dominicana, ele não demora a lhe propor que ela vá viver com ele. Entre os estudos universitários, que a mãe julga desnecessários, e a entrada em um novo emprego, Freda encontra-se numa encruzilhada, bem como os seus irmãos, ainda que o filme a situe também em outras posições de desfrute da juventude, tanto quanto ela pode dentro do seu contexto social.

É um estudo interessante a se fazer dela, que pode muito bem vir a representar uma espécie de alter ego da própria diretora. Como uma obra iniciante, feito em um país com pouquíssima tradição cinematográfica e repleto de outras mazelas, o filme não deixa de apresentar suas ingenuidades, na maneira como constrói algumas cenas (as discussões dentro da sala de aula, por exemplo, em que os debates se polarizam de modo muito raso e Freda assume a posição de defensora dos pilares nacionais, como o ensino da língua crioula, e o faz com certa ironia e deboche, marca de personalidade que o próprio filme assume como forma de demarcar posições, sem que isso se torne o grande debate do filme, dentre tantos outros que se levantam).

Freda é uma personagem fascinante e fácil de se identificar porque, apesar das incertezas típicas da juventude, ela também apresenta a maturidade de uma jovem mulher tentando encontrar seu lugar no mundo – naquele mundo em convulsão; não à toa, a cineasta acrescenta cenas documentais de alguns protestos de civis pelas ruas de Porto Príncipe. Tais imagens não são contextualizadas no corpo do filme, como várias outras questões são apenas pinceladas pela diretora, nessa tentativa de falar de seu país, de seu povo, de suas contradições. Por vezes, pode parecer um gesto apressado e pouco elaborado, mas possui a força de fazer pulsar uma inquietação e uma vontade de representar outras imagens (e imaginários) do seu próprio país e seus habitantes.

*Rafael Carvalho fez parte do Júri Abraccine.

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