11º Olhar de Cinema: conexões documentárias

*Letícia Magalhães

Parados, mas em movimento. Foi assim que ficamos nos últimos dois anos, por causa da pandemia. É assim que encontramos os personagens dos filmes da Mostra Competitiva do 11º Olhar de Cinema. Na volta do festival aos eventos presenciais – que marcou também minha volta às salas de cinema – pudemos ver nós mesmos retratados na tela, por mais que isso fosse doloroso. Para além da Mostra Competitiva, numa curadoria que não fez distinção entre filmes de ficção e documentários, é nestes últimos que jogo um facho de luz, analisando as conexões possíveis entre os filmes e entre eles – que se dispõem a retratar a realidade – e de fato o mundo real.

Junho de 2022 marcou não apenas a realização desta edição do Olhar de Cinema, mas também o centenário da estreia de “Nanook, o Esquimó”, seminal documentário que, na gênese deste gênero, já levantou tantas questões sobre intervenções do diretor, cenas captadas versus cenas “posadas” – para usar um termo da história do cinema silencioso brasileiro – e a verossimilhança no cinema.

Para além da re-encenação das cenas filmadas pela primeira vez em “Nanook” e perdidas num incêndio, fica a noção de que, ao saber que se está sendo filmado, o sujeito já age de maneira distinta – mesmo que desconheça o que é cinema, como “Nanook” provavelmente desconhecia. Alguns dos sujeitos dos documentários exibidos sabiam muito bem que estavam sendo filmados, e tentaram eles próprios, com recursos diversos, controlar as narrativas dos filmes sobre si mesmos. Pegue por exemplo Andriele, a adolescente cheia de sonhos de Céu Aberto” – filme exibido na mostra Outros Olhares –, que, por ocasião da chegada da pandemia do coronavírus e do isolamento social, recebeu em suas mãos uma câmera e passou ela mesma a se filmar, no momento em que queria e tratando do assunto que bem entendesse.

Mas o maior exemplo de agenda setting em documentários exibidos no Olhar de Cinema é Alan do Rap, que chamava um dos diretores de “Alan”, Diego Lisboa, seu amigo, para filmar quando ele queria, quando tivesse algo a dizer ou mostrar, como a performance chocante com as armas. Podendo muito bem ser descrito como uma tragédia à brasileira, “Alan” é um filme particular sobre um talento desperdiçado, não reconhecido e finalmente perdido para sempre. Quantos milhões de Alans o Brasil já não teve, tomados pela violência? Em outra escala, e por outra questão, repetimos a pergunta: quantas milhões de Andrieles o Brasil não tem?

Se “Alan” se aproxima de “Nanook” quando pensamos na questão de necessidade do distanciamento entre quem filma e o sujeito do documentário, por outro lado os dois filmes são apartados pelo tempo que cada um levou para ser filmado. Robert J. Flaherty, diretor deNanook”, fez uma expedição de 16 meses de duração para rodar este que foi seu primeiro filme. “Alan” tem imagens gravadas entre 1999 e 2012, de qualidades diversas e, no início, exalando um amadorismo que chega a ser apaixonante. “Céu Aberto” vem logo atrás quando se trata de muito tempo fazendo um filme, com cinco anos separando a primeira e a última entrevistas com Andriele.

Céu Aberto - Divulgação
Céu Aberto Divulgação

Mas nem nos sonhos mais loucos de Flaherty teria origem algo como o Filme Particular” de Janaína Nagata. Isso é óbvio: Flaherty faleceu em 1951, décadas antes do desenvolvimento de qualquer tecnologia que aparece e torna possível a existência do “Filme Particular”. Tendo como ponto de partida a aquisição de um velho carretel de filme em 16mm, o documentário parte da descoberta de um registro de uma viagem em família para a África do Sul para revisitar um recente e doloroso passado. Em um verdadeiro trabalho de detetive, a cineasta divide a tela entre o registro original e uma janela aberta no Google, onde faz sucessivas buscas para encontrar os locais vistos no filme caseiro – que, aliás, é bem mais elaborado e sinistro do que se podia esperar.

Também de um pretexto, um resgate histórico recente, tem origem “Uma Noite Sem Saber Nada”, de outra mulher cineasta, Payal Kapadia. Neste filme, são as cartas de uma estudante de cinema que se identifica apenas como L que dão o mote para tudo – da história de amor proibido ao que imaginamos ser o real foco do documentário, que são as manifestações de estudantes universitários na Índia contra desmandos de caráter fascista. Neste momento de exibição de imagens de protesto, “Uma Noite Sem Saber Nada” se aproxima de “Freda”, filme de ficção sobre uma jovem haitiana vivendo numa sociedade em eterna convulsão. Índia, Haiti, Brasil: é o cinema nos conectando e mostrando que somos mais parecidos do que em geral imaginamos.

Por falar nas cartas de “Uma Noite Sem Saber Nada”, foi um filme epistolar que abriu o 11º Olhar de Cinema: “Vai e Vem”, feito a quatro mãos pela brasileira Fernanda Pessoa e pela mexicano-brasileira residente nos EUA Chica Barbosa. Isoladas, como todos nós estávamos, e separadas por muito mais que um oceano, as amigas decidem manter contato gravando vídeos uma para a outra, sempre se inspirando em diretoras do cinema experimental.

Não poderíamos deixar de dizer que há traços de documentário também nos filmes de ficção da Mostra Competitiva. Os depoimentos das várias mulheres encarceradas em “A Censora” por um momento podem nos fazer duvidar de que se trata de um filme de ficção – filme, aliás, que começa com uma cena real de parto. E “A Censora” de fato nasceu como um documentário sobre censura nas prisões. Segundo o diretor, o plano era gravar durante três anos a trajetória dos censores nas prisões e as relações com as mulheres encarceradas, mas ao começar a rodar as câmeras, o diretor observava que todos se comportavam melhor do que o normal. Numa decisão que parece controversa, após gravar 107 entrevistas, o diretor decidiu fazer um filme de ficção porque, e vejam a contradição na justificativa, na ficção era possível ser mais realista do que no documentário. E aí mais uma vez ficção e documentário se mesclam no filme: Iryna Kiryazeva, que interpreta a censora referenciada no título em português, era de fato censora em uma prisão, e não atriz profissional.

E não foi só na Mostra Competitiva que os documentários brilharam: presentes no especial Kiro Russo, que no próprio catálogo é descrito como alguém cujo trabalho “caminha nas fronteiras entre o documentário e a ficção com impressionantes precisão, domínio e rigor formal”, e na Mostra Olhares Retrospectivos dedicada a Su Friedrich, cuja obra é composta de curtas e médias-metragens que em muitos casos contam com imagens de arquivo costuradas a imagens feitas pela cineasta. Friedrich, assim como tantos documentários no festival – destacando-se “Céu Aberto”, “Filme Particular” e “Alan”, mas com ramificações em todos os filmes aqui analisados – parte do particular para falar do coletivo, como nos dois emocionantes filmes protagonizados pela mãe da cineasta.

Para além das exibições, o cinema documentário foi assunto de um dos debates do Seminário de Cinema realizado nas manhãs geladas do festival. Contando com a presença de documentaristas e pesquisadores, o debate tratou do lugar do documentário na era da pós-verdade, quando é possível, como citado por Larissa Nepomuceno, se fazer um filme sobre terraplanismo e isso ser aceito porque é uma mentira tomada como verdade por muitos. Como todo bom debate, este nos deixou com mais perguntas do que respostas.

Parada, mas em movimento: foi assim que a câmera ficou em tantos filmes exibidos no Olhar de Cinema. Estática, mas captando todo o alvoroço ao seu redor – incluindo o alvoroço interno, como aquele simbolizado pela sinfonia de buzinas insuportáveis em Paterno”. Conexão foi a palavra-chave repetida pelos curadores da Mostra Competitiva: são filmes sobre se conectar com o outro e com o mundo, nos disseram eles. É uma conexão que vai além da Mostra Competitiva – presente, por exemplo, em “Coma”, filme experimental de Bertrand Bonello feito como forma de se conectar com a própria filha adolescente – e se fez presente em todo o festival. Afinal, cinema é conexão. E talvez o cinema documentário, desde os tempos de “Nanook”, seja a maneira mais potente de se conectar com o outro.

*Letícia Magalhães fez parte do Júri Abraccine.

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