Por Paulo Henrique Silva
A história das publicações da Abraccine deve muito ao Atlético Mineiro. Peço desculpas por começar o texto assim, falando de futebol. Poderia fazer várias ilações entre a pelota e o retângulo da telona, mas não é o caso. A verdade é que, a partir do lançamento do livro “Sempre Acreditamos: : Os Três Anos Que Mudaram a História do Atlético” – reunião de minhas crônicas esportivas publicadas no “Hoje em Dia” – em 2015, é que surgiu a proposta da editora Letramento para fazer algo similar a “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”.
E, para quem acredita em conjunções planetárias, eu tinha acabado de ser eleito presidente da Abraccine. Na época, uma das nossas principais discussões era a precarização da atividade crítica, com colegas sendo demitidos de redações e priorização de textos capazes de render mais visualizações. Assim, a função crítica perdia o seu valor. O tema acabou sendo uma das nossas bandeiras, com a realização de seminários e debates. A publicação de “100 Melhores Filmes Brasileiros” também abraçou essa pauta.
A Associação ampliava, naquele período, a sua atuação em outros estados, reforçando seu caráter nacional, e pensávamos numa forma de poder criar ações que pudessem abarcar todos, sem exceção. Desta forma, surgiu um dos pilares da coleção “100 Melhores”, ao reunir 100 textos de 100 autores diferentes. O outro pilar é o foco no cinema brasileiro, diferentemente de “1001 pasa Ver Antes de Morrer”, que trazia análises de filmes oriundos de países diversos, como um guia para o melhor do cinema mundial.
Em 2015, com quatro anos de fundação da Abraccine, tínhamos como uma de nossas principais atividades a eleição das melhores produções do ano, momento de grande debate dos associados. Para escolher os filmes que entrariam no livro, também como forma de promover um envolvimento amplo, decidimos que faríamos uma votação e estabeleceríamos um ranking, seguindo os passos da revista inglesa “Sight and Sound”. A editora viu neste top 100 uma ótima forma de divulgação do livro.
De fato, acabamos dividindo o lançamento em dois instantes. O primeiro, com a divulgação do resultado, publicado em jornais de todo o país, criando o burburinho natural para esse tipo de lista, com suas ausências e preferências. Com isso, já anunciávamos o lançamento para breve, tirando um pouco o foco do ranking para concentrar no livro propriamente dito. Com o tempo, vimos que ele se transformou numa espécie de guia, porta de entrada para um conhecimento sobre nosso cinema, presente no Wikipedia.
O projeto de publicações ganhou força e agilidade com a entrada do Canal Brasil, o que nos possibilitou fazer uma edição de luxo, formato diferente, capa dura e páginas coloridas. E, mais uma vez, podemos responsabilizar o alinhamento dos planetas, já que, no mesmo festival onde aconteceu a eleição da Abraccine (o de Gramado), estava André De Biase, sócio de Cristina Rio Branco, na Palavra Assessoria de Comunicação. Por conta do júri da crítica do Canal Brasil, para o qual presta assessoria, André sempre foi próximo da gente.
Foi ele que, ao me felicitar pela eleição e ouvir minhas ideias para a gestão, levou o projeto de publicações para o Paulo Mendonça, que comandava o canal na época. Era o triângulo perfeito: uma emissora dedicada ao cinema brasileiro, um livro que percorria boa parte de nossa cinematografia e participação de críticos e jornalistas que fomentaram a programação do Canal Brasil. Com tudo amarrado, exatamente um ano depois, no Festival de Gramado de 2016, lançamos a primeira de uma série de publicações.
Dez anos depois, contabilizamos 11 livros, um time inteiro de futebol – olha ele aí de novo. Poderia ter sido mais, se não fosse a pandemia. Para se ter uma ideia do impacto representado pelo coronavírus, um ano antes, em 2019, colocamos no mercado editorial três livros (além de uma publicação apoiada pela Abraccine), de três eixos diferentes. A coleção “100 Melhores” continuou, praticamente com o mesmo conceito editorial (ranking de 100 títulos, escritos por autores diferentes), ganhando mais quatro volumes.
Em 2017, foi a vez dos documentários, quando passamos a incluir artigos históricos. Em 2018, o cinema de animação foi o protagonista, num livro feito em parceria com a associação brasileira de realizadores do formato. Foi outro marco, fruto também de um encontro mágico com Arnaldo Galvão, durante lançamento do segundo livro, na Blooks, em São Paulo. Não só conseguimos recursos do Ministério da Cultura como também o levamos a obra para o Festival de Annecy, um dos mais importantes do mundo dedicado à animação.
O livro de curtas, lançado em 2019, foi o último no formato “edição de luxo”. Com uma interrupção de cinco anos, a edição seguinte da série foi dedicada ao cinema fantástico. Apesar de não contar com capa dura e imagens, as melhorias foram evidentes no resultado final, após um processo de aprimoramento de todas as etapas, principalmente na da votação, que passou a ser antecedida por um curso intensivo com especialistas. Desde o primeiro livro, percebemos que há lacunas na formação dos associados e que era missão da Abraccine investir nesse quesito.
O segundo eixo de publicações é voltado para aqueles que ajudaram a construir a história do pensamento crítico no Brasil, com Jean-Claude Bernardet abrindo a série em 2017, seguido por Ismail Xavier (2018) e Inácio Araújo (2023). O primeiro foi lançado pela Paco e os outros dois pelo Sesc, diferentes parceiros editoriais que abraçaram nossos projetos. A eles se junta o Estação Liberdade, responsável por viabilizar o nosso livro de maior reconhecimento: “Mulheres Atrás das Câmeras – Cineastas Brasileiras de 1930 a 2018“, finalista do Prêmio Jabuti 2020 na categoria Ensaios – Artes.
“Mulheres Atrás das Câmeras” integra o terceiro eixo, que denominamos como “avulsos”, voltado para livros que não estão ligados a uma série. Nele se insere também “Trajetória da Crítica de Cinema no Brasil“, publicado em 2019, resultado de um trabalho inédito, ao reunirmos pela primeira vez a história do início e do desenvolvimento da atividade crítica em 23 dos 27 estados do país, incluindo o Distrito Federal. Hoje ele é referência para qualquer pesquisa ou estudo acadêmico sobre a crítica de cinema brasileira.
Por sinal, nossos livros estão espalhados por bibliotecas de universidades mundo afora, de Canadá e Estados Unidos ao Japão, passando por Alemanha e França. É a maior prova da importância desse investimento editorial da Associação para o conhecimento e a discussão sobre a nossa história e a do cinema brasileiro. Nesses 15 anos da Abraccine, aniversário também de dez anos das nossas publicações, será lançada uma edição de “100 Filmes Brasileiros Essenciais”, reflexo de um processo contínuo de reavaliação de nossa atividade. Para não fugir do jargão futebolístico, é gol de placa!


