Dossiê 15º Olhar de Cinema

15º Olhar de Cinema

Data de realização do festival: 4 a 13 de junho de 2026, em Curitiba (PR)

Site oficial: https://olhardecinema.com.br/

Júri Abraccine: Carolina Azevedo, Marcelo Ikeda e pelo crítico convidado Ayrton Baptista Jr. (convidado)

Filmes premiados:
Melhor longa-metragem: Reparação, de Marcelo Curvelo
Melhor curta-metragem: Disciplina, de Affonso Uchôa


Textos do júri

15º Olhar de Cinema | Rita Moreira: contra os preconceitos e os apagamentos, por Marcelo Ikeda

15º Olhar de Cinema | A noite já está partindo, por Carolina Azevedo


Textos críticos

Adulto/Homem

Adulto/Homem, de Pedro Diógenes

Ao espectador, a empolgante curiosidade inicial se dilui quando se percebe que o filme inteiro seguirá um único estímulo, um único ritmo e dispositivo, do primeiro ao último minuto. Ainda que as falas despertem interesse, caberia à manufatura estética explorar a dinâmica desta cena-filme, além das possibilidades de desenvolver e aprofundar seu conceito unitário.
Bruno Carmelo, Meio Amargo

Porque os desabafos são relevantes, mas eles rodam em círculos durante toda a sessão. Assim, Adulto/Homem tem aspectos positivos como desafiar a mentalidade contemporânea de caos visual e digital.
Enoe Lopes Pontes, Coisa de Cinéfilo

O mais proveitoso dessa experiência é a certeza de que não estamos diante de uma obra única; em Adulto/Homem, cabem diversas leituras, nas quais o tempo de maturação acabará provocando novas digressões.
Francisco Carbone, Vertentes do Cinema

Os depoimentos são entremeados por alguns textos literários, repetidos com diferentes vozes, com entonações, pausas e acentos diferentes, todas originais. Para reafirmar, sem precisar dizer, que cada voz é uma subjetividade, pertence a um ser singular, único, que não se parece com ninguém.
Luiz Zanin Oricchio, Estadão

Anistia 79

Anistia 79, de Anita Leandro

Em oposição a tantas películas deterioradas, em versão restaurada, estes arquivos representam um belíssimo cinema em si próprio, dotado de um controle estético superior a muitas ficções de orçamento considerável.
Bruno Carmelo, Meio Amargo

Anistia 79 aposta na reação, no olhar, nas interações, nos silêncios, nos vazios deixados pelo tempo. É um jogo interessante, sem dúvida. E também arriscado.
Cecilia Barroso, Cenas de Cinema

Leandro dá à plateia a chance de processar as informações e suas próprias emoções diante dos relatos trazidos para a tela. Quadros longos dos participantes do documentário, observando a conferência, ampliam o espaço para essa reflexão.
Enoe Lopes Pontes, Coisa de Cinéfilo

Os planos contrapostos entre as imagens do passado e os espectadores do presente (que também estavam inseridos naquele passado) são um recurso que a cineasta transforma em uma potência renovada. Porque não se trata apenas de tipos perdidos entre dois tempos, mas de reflexões emocionais e políticas a respeito de um passado que não cansa de bater à nossa porta, e que precisa encontrar meios de escoamento para a contemporaneidade.
Francisco Carbone, Vertentes do Cinema

O que Anita faz aqui, portanto, é como flagrar o rosto de pessoas que, desavisadamente, descobrem fantasmas diante de si, como espectros, tão vivos quanto estavam há 50 anos, e ainda mais notáveis em sua abnegação pela anistia ampla, geral e irrestrita, graças à força que a camada do tempo aplica sobre aqueles que nos deixaram.
Luiz Joaquim, Cinema Escrito

Cartas a Meus Pais Mortos

Carta aos Meus Pais Mortos, de Ignacio Agüero

Entretanto, o resultado não transborda de furor ou indignação. O distanciamento de décadas permite ao diretor-narrador privilegiar um estilo levemente sarcástico, intercalado com amplos instantes de melancolia. Ele ri da ironia de estudar cinema, e cogitar um mundo de maravilhas, enquanto a liberdade estava restrita no país.
Bruno Carmelo, Meio Amargo

As cartas aos pais falam de uma história familiar específica, marcada por afetos, ausências e memórias pessoais. Ao mesmo tempo, o discurso transborda desse universo privado. A cada nova relação, as lembranças individuais encontram conexões com a cidade, com a história chilena e com as transformações que atravessam a vida coletiva naquele país.
Cecilia Barroso, Cenas de Cinema

A fala é evocativa, de emoção contida; as imagens dirigem o espectador a outras regiões da emoção. Essa disparidade aparente potencializa o filme. E o que ele diz? Diz muita coisa, mas fala, em especial, da história triste do país.
Luiz Zanin Oricchio, Estadão

Maxita

Maxita, de Mariana Machado e Ana Maria Machado

Maxita preserva um teor plácido, mais distanciado do que colérico. Aqui, o alerta das vozes se combina com uma espécie de lamentação face ao real. Em termos de sentidos, constata-se mais do que se elabora.
Bruno Carmelo, Meio Amargo

A partir do encontro entre Kopenawa e Ailton Krenak, depois da sua metade, o que estamos vendo em Maxita é reconfigurado, porque nessa sequência, que o roteiro entremeia com outras, concentram-se as melhores sequências do filme.
Francisco Carbone, Vertentes do Cinema

No filme, temos o encontro (notável) entre dois sábios indígenas: Davi Kopenawa e Ailton Krenak. A conversa entre eles é de antologia. Falam de como a postura do homem branco diante do seu meio ambiente não apenas é predatória e ameaçadora, mas também ridícula.
Luiz Zanin Oricchio, Estadão

Não Me Deixe Morrer

Não Me Deixe Morrer, de Andrei Epure

Ora, o diretor romeno Andrei Epure não segue nenhuma destas leituras sensacionalistas e/ou moralistas, muito pelo contrário. Partindo de um incidente obviamente sentimental, escolhe secar as lágrimas, enxugar a humanidade, e afastar o melodrama.
Bruno Carmelo, Meio Amargo

A ideia de mergulhar em uma espécie de pesadelo ininterrupto, vivendo em uma sociedade paralela que se apresenta com diversos detalhes desencaixados, é uma costura que o filme não se cansa de fazer.
Francisco Carbone, Vertentes do Cinema

A câmera observa, em especial, a trajetória de Maria que, com o envolvimento na morte da quase desconhecida, começa a descobrir coisas inesperadas sobre si mesma. É quase como uma transferência de luto.
Luiz Zanin Oricchio, Estadão

O Profeta

O Profeta, de Ique Langa

Levamos algum tempo até a confirmação de que a mulher grávida ao lado do herói constitui sua esposa, tamanha a frieza entre ambos. Em seguida, as figuras em cena se deslocam len-ta-men-te, enquanto a câmera se delicia em contemplar a movimentação dos corpos no espaço.
Bruno Carmelo, Meio Amargo

A câmera observa, em especial, a trajetória de Maria que, com o envolvimento na morte da quase desconhecida, começa a descobrir coisas inesperadas sobre si mesma. É quase como uma transferência de luto.
Cecilia Barroso, Cenas de Cinema

A encenação caminha entre detalhes que jogam luz à gestos dramáticos, hesitações e angústias, ao passo que dilata a duração dos planos para que o espectador possa contemplar as composições e sentir o fardo do personagem.
Francisco Carbone, Vertentes do Cinema

Olhe Para Mim, de Rafhael Barbosa

Primeiro longa-metragem alagoano ficcional produzido por meio de editais — conforme lembraram os criadores durante a apresentação —, ele também expande a representação comum do queer, da natureza, do road movie, do religioso, do terror. O longa-metragem incorpora todos esses ingredientes numa medida própria.
Bruno Carmelo, Meio Amargo

O grande mérito de Rafhael Barbosa está em compreender que os mitos sobrevivem justamente porque nunca permanecem iguais, transformando-se de acordo com quem os conta e quem os escuta. A rasga-mortalha do filme carrega algo da lenda, mas também se conecta a sentimentos atuais.
Cecilia Barroso, Cenas de Cinema

O que fica na superfície é o tônus aplicado por Rafhael Barbosa em um lugar do cinema brasileiro que não costuma aceitar novos integrantes: a experimentação narrativa. Ele reivindica um lugar no sensorial, sem abrir mão do que procura concretude.
Francisco Carbone, Vertentes do Cinema

É totalmente válido e saudável valer-se de um acervo cultural que sofre um processo de apagamento. O preço a pagar talvez seja uma certa incomunicabilidade da obra. Talvez tenha errado a mão, não na receita do bolo, mas na dosagem de alguns ingredientes.
Luiz Zanin Oricchio, Estadão

Barbosa não teme a ambiguidade. Ao contrário, faz dela uma estratégia narrativa. Muitas das situações apresentadas parecem existir num espaço intermediário entre sonho, lembrança e experiência concreta, recusando interpretações únicas.
Paulo Camargo, A Escotilha

Quase Inverno

Quase Inverno, de Rodrigo Grota

Na ausência de dilemas específicos, colados a subjetividades plurais, eles transparecem uma segmentação incômoda: as mulheres são histriônicas e emotivas, ao passo que os homens representam a ação e a razão.
Bruno Carmelo, Meio Amargo

A sensação que o elenco passa é a de que não entendeu o texto nem as motivações de seus papéis. Há muita declamação, para um texto realista.
Enoe Lopes Pontes, Coisa de Cinéfilo

O excesso de um tratamento poético de diálogos transforma a sessão de Quase Inverno em algo na linha do incompreensível, simplesmente porque as pessoas não parecem sequer dialogar entre si; falam línguas diferentes, e isso, que poderia ser um predicado positivo, soa como falha de comunicação de linguagem narrativa.
Francisco Carbone, Vertentes do Cinema

Do naturalismo ao não naturalismo, indo do claro ao mais escuro, o filme, formalmente, parece bastante consistente.
Luiz Zanin Oricchio, Estadão

Reparação

Reparação, de Marcus Curvello

O projeto respira conforme o diretor também o faz, até enxergar a memória afetiva dos pais como um álbum de retratos.
Bruno Carmelo, Meio Amargo

O diretor tem uma capacidade impressionante de transformar essas reflexões em cinema. Em vez de recorrer a discursos explicativos ou a confissões excessivas, constrói uma rede de imagens que carregam sentimentos difíceis de traduzir em palavras.
Cecilia Barroso, Cenas de Cinema

O luto é, de fato, um filme em p&b, contemplativo, no qual é impossível mostrar o rosto de quem sofre completamente.
Enoe Lopes Pontes, Coisa de Cinéfilo

Orfandade. Não existe mais uma referência pregressa a nós. Todos se foram, todos que nos compõem diretamente não existem mais. Matéria física que se desfez. O que resta quando a referência acabou?
Francisco Carbone, Vertentes do Cinema

Por isso, o filme é, acima de tudo, uma obra de luto. Freud chamava o processo de “trabalho de luto”. É um trabalho mesmo, uma obra, um caminho a ser percorrido, com dor e esforço, e no qual o tempo é senhor de todo processo. Não adianta apressá-lo.
Luiz Zanin Oricchio, Estadão

Telúrica - a íntima utopia

Telúrica: a Íntima Utopia, de Mariana Lacerda

Cada ensaios traz novos tons, além de propostas distintas daquelas percebidas nos dias anteriores. Os espectadores presentes no galpão, na conclusão, testemunham apenas uma parte desta criação, à qual o espectador obteve, de certa forma, um acesso privilegiado.
Bruno Carmelo, Meio Amargo

Resta saber de que maneira a presença de câmeras e gravadores que registram essa obra podem interferir em seu processo. Bem, já se sabe que qualquer câmera age sobre a situação filmada. É uma espécie de princípio de indeterminação aplicado à natureza humana. E, neste caso, não poderia ser diferente. No entanto, o espectador não sente qualquer artificialidade no que se vê na tela.
Luiz Zanin Oricchio, Estadão

Em Telúrica, esse risco é enfrentado pela centralidade concedida à palavra e ao processo criativo. Os integrantes da Ueinzz não aparecem como personagens passivos diante da câmera, mas como agentes de pensamento.
Paulo Camargo, A Escotilha

Vento Norte

Vento Norte, de Salomão Scliar

Scliar era fotógrafo antes de ser cineasta, um grande fotógrafo, e talvez isso se explique pelo próprio filme. Cada enquadramento revela uma atenção incomum à composição visual.
Cecilia Barroso, Cenas de Cinema

Scliar dirigiu apenas Vento Norte, mas o que ele defende enquanto autoralidade e visão cinematográfica tem poucos precedentes, principalmente por se encontrar em um tempo de exceções.
Francisco Carbone, Vertentes do Cinema

Em vários momentos, a natureza parece observar os personagens, condicionando seus gestos e delimitando seus horizontes. Há uma percepção muito física do ambiente, uma compreensão de que a geografia não é apenas cenário, mas força ativa na construção dos destinos humanos.
Paulo Camargo, A Escotilha

Reparação

Yellow Cake, de Tiago Melo

Por fim, Yellow Cake soa mais povoado por um imaginário do que uma narrativa propriamente dita.
Bruno Carmelo, Meio Amargo

Yellow Cake precisava de mais tempo. Não de duração, mas de tempo dado aos seus personagens e à sua história.
Cecilia Barroso, Cenas de Cinema

Trata-se de uma simplificação difícil de medir, pois, à medida que há objetivismo, há também uma inclinação à recusa de um positivismo mais barato, que apela a argumentos holísticos, com base em particularidades exteriores à realidade ou em uma argumentação fluida.
Francisco Carbone, Vertentes do Cinema

Parece, no entanto, faltar alguma coisa ao roteiro, algum toque de mistério, de enigma, de abertura, que poderia fazê-lo mais criativo, talvez mais intrincado e engenhoso.
Luiz Zanin Oricchio, Estadão

O sertão surge como território historicamente submetido a decisões tomadas de fora, enquanto os cientistas estrangeiros representam uma forma contemporânea de colonialismo, baseada não mais na ocupação militar, mas na exploração de recursos naturais, dados e populações vulneráveis.
Paulo Camargo, A Escotilha


Mais filmes:

Bruno Carmelo
A Holandesinha
A Noite e os Dias de Miguel Burnier
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Futuro, Futuro
Histórias de um Bom Vale
O Caçador
O Mez da Gripe
Passado Futuro Contínuo
Se Pombos Virassem Ouro
Segunda Pele
Tornar-se Ciborgue no Interior
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Barbara para Sempre
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Corações Desertos
Futuro, Futuro
Os Feiticeiros Inocentes

Enoe Lopes Pontes
A Paixão Segundo GHB
As Donzelas de Wilko

Francisco Carbone
A Noite e os Dias de Miguel Burnier
A Paixão Segundo GHB
Corações Desertos
Disciplina
Fiz um foguete imaginando que você vinha
Salvação
Um Calendário Incompleto

Luiz Zanin Oricchio
Fiz um foguete imaginando que você vinha
Se Pombos Virassem Ouro

Marcelo Ikeda
A Noite Já Está Partindo
Como Todo Mortal

Marden Machado
Beirute Fantasma


Especiais, balanços e compilados:

15° Olhar de Cinema (2026) – Um Balanço Geral, por Marcelo Ikeda

O Olhar de Cinema, Curitiba e… Eu, por Pablo Villaça

Maria do Rosário Caetano
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